AS SOON AS POSSIBLE


para quebrar promessas

Worms me tomam a tara
com sons cores e teclas
soy latino-americano
subdesenvolvido e burro,
enquanto os livros correm
a avenida lá fora: internet.
Amo-amo-amo-amo
o que não toco, porque sou
moderno e interagido
o riso riaaaauu que me põe
desperto e inexpressivo
diz que sou um produto
com sintomas de distúrbio
possessivo, e ansioso.
Sei que esse barulho que
sai do meu notebook
é alguém que me chama
para me matar a saudade
e dá um del na solidão.

PLANOS PARA MARÇO

01 – Ler ‘Crônica da Casa Assassinada’ do Lúcio Cardoso e terminar ‘Navegação de Cabotagem’ do Jorge Amado.
02 – Assistir um Godard por fim de semana.
03 – Usar menos a internet.
04 – Telefonar para os amigos distantes e dizer que sinto saudades.
05 – Escutar ‘Acabou Chorare’ dos Novos Baianos em alto e bom som.
06 – Planejar uma viagem a Salvador para  conhecer o Pelourinho, o elevador Lacerda, o Olodum, e a casa do Rio Vermelho de Jorge Amado.
07 – Estudar pelo menos duas horas por dia.
08 – Comprar as séries ‘Criminal Minds’ e ‘CSI: Miami, Los Angeles e NY’.
09 – Dormir mais e melhor.
10 – Ir ao urologista.

CRÔNICA DE UMA MANHÃ

Como um cão ele ressurgiu, covarde a convidou para sair, macho que precisa do mijo para demarcar território. As mãos dadas, hand to hand, eu perdia mais uma semana, obstaculizou-se o meu ‘oi’ inútil, o sorriso tímido sequer saiu. Como um cão, mais uma semana.
Sou como a crítica musical inglesa que a cada semana elege uma nova banda que irá salvar o rock: a cada semana elejo uma mulher que irá me salvar a vida. Ela tem um sorriso bonito, mulher simpatia, mas tem o cão, e o cão mija. Mais uma semana por vir. 

TIO JOHNNY

Tio Johnny – João de nascimento – não me deu escolhas, tive de odiá-lo por toda a vida. Deu-me apelido de 'Margarida' quando me viu roubando flores do seu jardim para dar a uma namoradinha, eu tinha dez anos. Ontem, no banheiro de um bar, vi tio Johnny de joelhos cheirando cocaína, ele me viu também. Sorri para ele e aumentei seu apelido, 'Johnny Cocaine'. Creio que ele irá me odiar pelo resto de sua vida. A vingança tem gosto de mel.

PLAZA DE MAYO

Em um banco na Plaza de Mayo, no inverno de Buenos Aires, recostei-me, deixei que a cabeça caísse para trás, fechei os olhos, senti as pálpebras geladas, o tempo desacelerou. Naqueles minutos, enquanto o casal de namorados que me acompanhava tiravam fotos em frente à Casa Rosada, despertei-me dos meus medos, de forma tal que parecia ser necessária aquela viagem para o que senti ali naquele banco vir à tona. Vi, então, em minha mente, as imagens dos amores imperfeitos desmancharem-se aos poucos, como poeira. Vi Marcelle, com todo o seu fogo, derreter, como se fosse gelo, vítima de si mesma. Sophia, tão doce e amável, como era seu rosto? Antes de sumir já não me lembrava mais. Inês, pobre Inês, por quem mais sofri, desapareceu com desgosto, não merecia tanto, sei dos meus erros, o fato é que se desfez em poeira. O frio me acalmava, não sabia do tempo, não ouvia nada, as pálpebras estavam pesadas, apenas sentia um cheiro doce, cheiro de vida, cheiro colorido. Acordei assustado, a praça estava repleta de turistas, moradores, pássaros. O que sentia era alegria, as três não passavam de lembranças remotas, sequer me lembrava de seus rostos. Buenos Aires estava linda, a Plaza de Mayo era a minha casa, e aqueles velhos amores haviam ficado no banco, entre o milho que deixei para os pássaros.

QUASIMODOS

Passo por eles no mínimo quatro vezes por dia, cinco dias por semana, estão sempre com as mesmas expressões, sub-humanos. Conheço-os assim como eles me conhecem, somos semelhantes dentre os carros, na cidade suja e quente. Há o hippie por quem tenho simpatia, sei que todos os dias gasta o dinheiro com marmita, pinga e cigarros em um bar próximo à minha casa, um dia bebeu da minha cerveja, ele pediu, claro. Raramente lhe dou alguma esmola, quando o faço é irrisório o valor, dez centavos no máximo. Nunca ouvi sua voz, ele vem como um zumbi, a expressão estúpida, os braços fracos, não vejo suas pernas se moverem, é como se flutuasse. Às vezes põe um pote na janela, às vezes um boné, nunca diz palavra, todos o entendem. É o único a quem dou esmola porque é descarado, não engana ninguém, todos sabem o que faz com o que ganha, de manhã até tarde da noite permanece no mesmo sinal. Há a defunta do próximo sinal, nunca lhe dei esmola, enquanto arde ao sol, seu marido (?) descansa à sombra das árvores do canteiro central, faz das pedras travesseiro, sente-se um rei, apenas recebe os tributos dos súditos, a arrecadadora permanece no sinal. Nos fins de semana carrega uma criança consigo no colo (será sua filha?), ambas ao sol, poucos resistem, ignoram a absurda vossa majestade à sombra. Como o hippie, jamais ouvi sua voz, sua aparência me dá raiva, sua expressão tão estúpida, máscula, é malandra, ou melhor, sustenta um malandro, não suporto vê-la. No mesmo sinal, como que alternando, há o aleijado, ser grotesco, Quasimodo por fora e por dentro. Sustenta-se em um par de muletas, tem os pés torcidos, paralisia infantil, suponho. Mudo para mim, nas poucas vezes que se dirigiu ao meu carro suava e tremia, parecia prestes a desmaiar, tive-lhe asco, ser tão ridículo, ao mesmo tempo tão semelhante a mim. A escória da sociedade, apenas sombras, enquanto passo no meu carro, semblante de uma vida sem restrições graves. Apesar de tudo me calo, estúpido, no fundo entendo-os, como quem entende um amigo. 

CARTA A EDGAR







Como vai, Capitão? Dias atrás estava revendo fotos antigas de quando nos encontrávamos todas as noites na casa de Inês para degustar um bom cabernet sauvignon e assistir os clássicos da nossa lista dos cem melhores filmes de todos os tempos (se lembra?), então tive vontade de lhe escrever. Não pretendo ser longo, que qualquer assunto que criarmos entre nós morre logo, gostamos que os assuntos surjam, possibilitando o precioso silêncio que só se consegue com poucos, silêncio de aproximação. 
Gostaria de perguntar como você está, se seus planos se concretizaram ou estão caminhando para isso, se tem visto a Inês de vez em quando aí na capital, se ela ainda pergunta por mim, mas acontece que o que cá me aflige necessita ser compartilhado com você com maior urgência. “Como um barco bom, eu vou, eu vou”, se lembra? Pois não sou mais que uma canoa furada. Em tudo o que vivemos, esteve todo o tempo lúcido, sabia que eu iria me perder, levar daquele jeito as coisas foi loucura. A minha vida desregrada nunca se revelou a Inês, até hoje creio que ela apenas desconfie, sinto que sequer pensa nisso. Na velocidade em que íamos, eu achava que podia fazer o que quisesse, ter quem quisesse, tudo era muito fácil. Com o tempo e com a perda das ideologias em decorrência dessa vida ordinária que bem sabe, tornei-me estranho a mim mesmo, esforço-me em tornar ao que era, não tenho forças. Da obstinação que tive ao terminar com Inês pouco sobrou, menos por amor me arrependo, mais por desespero, ela era uma ponte que me ligava a mim mesmo, através dela eu me encontrava. O amor louco que por mim sentia, hoje não restou um telefonema, e o tempo passa. 
Queríamos ser literatos, boêmios, felizes cantar nossos sambas, mas nos fechamos em um mundo só nosso, tudo ruiu. Pouco creio no meu futuro, emprego, filhos, essas coisas. Desconfio de que seja estéril, preciso ir ao médico o quanto antes. O trabalho me mata aos poucos, diariamente, vejo-me uma máquina apenas. A solidão me assola, Capitão. Preciso visitá-lo, mas não tenho dinheiro, talvez no próximo mês eu vá, é preciso extrapolar os limites deste cubículo em que vivo. Levarei as fotos, sei que também sente saudade. Barco nenhum navega só, se o faz, se perde.

SONHO INTRANQUILO

-“Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, já ouviu?
- Não. De quem é?
- Otto. Vou comprar.
- Hm.
Gregor um dia acorda transformado em um inseto, não transcrevo a cena porque das duas vezes que li, li de diferentes traduções. Gregor era um vizinho meu que não tinha televisão e escrevia duas vezes ao dia frases desconexas na parede do seu quarto – composto de cama e criado-mudo, só. Eu queria ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, mas o livro era uma chapa única de papel, de espessura significativa, sem páginas ou explicações. Joguei o livro contra a janela que se partiu e por ela entrou a mesma pessoa que não quero, mas quero, e que me persegue todas as noites. Procurou por seus discos da Edith Piaf e da Janis Joplin que ficaram comigo, sem pedir licença. Não há distância significativa entre os sonhos e a realidade, se desconsiderarmos a comunhão de lembranças permitida pela realidade. São planos distintos que coexistem, portanto a transa daquela noite foi computada entre as várias ocorridas no plano da realidade. Achou os discos e foi embora, por uma janela jamais quebrada por um livro chapa única de papel.
- O Otto e a Alessandra Negrini se separaram, ficou sabendo?
- Ah, é? Fiquei não.
- O disco foi inspirado na obra do Kafka.
- Hm.

MEMÓRIA

Hoje, 23 de fevereiro, é aniversário do meu pai, 41 anos. Não me lembrava. Às 17h minha mãe me liga, lembrete infalível é Irene. Relembrado, ligo para o xará, dou os parabéns. Até aí, tudo normal. Às 23h meu pai liga para a minha avó, lembra a ela do aniversário dele. Depois do telefonema ela me chama, reclama que eu não a avisei. “Ah, vó, você o pare e eu é que tenho que te lembrar?”

CARTA A CAROLINA

Quando eu terminar de ler Navegação de Cabotagem eu vou emprestá-lo a você por um ano para que possa ler também, é muito bom, uma viagem histórica e cultural, vai adorar. O Jorge Amado se mostra muito humano nele, engraçado é que eu me identifico muito com o Jorge, não na inteligência, claro, mas na pessoa que ele foi... Sei lá, tá, não tenho muita coisa dele, ele é todo bonachão, e eu não, não sei, há algo nele em que me identifico, acho que é a herança nordestina que trago no sangue. Ele não foi um gênio da literatura, não revolucionou nem nada, porém vendeu pra caramba - na literatura brasileira só perde para Paulo Coelho, que nem conta -, foi um magnífico contador de histórias, histórias para todos, além de ter sido um dos principais difundidores da cultura baiana, da nação da Bahia, ele era o tal. Deu vontade de conversar isso com você porque lendo o Navegação de Cabotagem achei a Zélia Gattai, mulher do Jorge, parecida com você em gênio, mulher decidida, que sabe o que quer, que domina, porém que não perde a feminilidade, a doçura. E o jeito com que eles se tratam, meio 'moleque', lembrou-me nossos melhores tempos.

P.S.: ainda espero, sem pressa, a devolução do meu Gabriela Cravo e Canela.

BILHETE PARA ESPERANÇAR SOPHIA

Sophia, era exatamente isso o que temíamos, e veja só o que nos tornamos, vazios e desnudos, bolhas em aparência e existência, cópias baratas de nossas repulsas. Buscamos tanto, embora tímidos, tomar as rédeas de nossa vida, domar nosso destino, como poderíamos prever o que nos aconteceria? Todo o fervor ao descobrir o existencialismo de Sartre, quando pudemos crer que, sim, somos resultado das nossas escolhas, sumiu depressa, não nos reconhecemos mais. Ainda temos a nossa juventude e a acolhemos no colo como a um filho doente, deixemo-na aquecida enquanto esperamos nosso tempo, que no mais tardar será amanhã.

CITAÇÃO


"Amo e padeço como qualquer um, odeio, divirto-me, e, boa ou má, sou uma verdade estabelecida entre os outros, e não uma fantasia." 

Cardoso, Lúcio, 1912-1968
      Crônica da casa assassinada / Lúcio Cardoso. - 12ª edição - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. Pg. 61.

BREVE DESPERTAR

Daqui a pouco vou para o condomínio de uma amiga com outra amiga que conheço a pouco tempo. Curtir a piscina, tomar cerveja, o domingo está quente. Estranho toda essa coisa das relações entre as pessoas, algumas parecem tão intransponíveis, inatingíveis, duras, ao passo que outras se abrem com uma facilidade surpreendente. Acordei nostálgico, vinha de sonhos bons, mas distantes da realidade. Talvez nos sonhos conseguimos ser tudo o que não somos e que queríamos ser na realidade. Em um dos sonhos eu era piloto de bobsled, em outro não havia magoado uma pessoa que magoei e afastei de mim. O calor, o fim do horário de verão, o início das aulas, essas coisas me deixam comovido como o diabo. Não é para tanto. “As agruras da vida, ai!”

SILÊNCIO

Nada vem à cabeça, um silêncio repousa violento sobre os ombros, comprime-os para baixo, faz com que todo um universo insignificante resuma-se apenas a uma sala com um corpo cansado sentado frente a uma máquina de escrever Olivetti Lettera. Como o tempo muda os hábitos e a forma de pensar não se sabe, ou se sabe, mas não tem conhecimento de tal pesquisa científica feita com diferentes espécimes do homo sapiens em diversas regiões do mundo, incluindo os aborígines australianos, as tribos peladas Kualulu e Kanun ao norte de algum país africano e os bons homens da Baviera. Fato é que não pensa como costumava pensar, não tem os mesmo hábitos ditos intelectuais, tampouco mantém o mínimo de organização socialmente exigido. Força relações infrutíferas, casos de amor frios e superficiais, amizades pífias. Há todo um universo na sala com o corpo e a máquina de escrever, que ganha forma nos pequenos objetos que o tomam sorrateiramente. Um boné velho ao lado esquerdo da máquina de escrever, em cujo lado também se encontra um frasco de perfume vencido, uma câmera fotográfica, um relógio de pulso que marca horas minutos segundos, um creme dental, cinco discos - dois de grupos desconhecidos -, remédio antialérgico, uma lanterna, a carteira, uma pilha de livros intocados por meses. Ao lado direito da máquina se encontra um óculos corretivo, um livro sobre jovens suicidas, uma caneta, um telefone, outros dois livros, uma luminária, algumas contas atrasadas. É um universo insignificante e silencioso, que primeiro existe por conta de um corpo e uma máquina datilográfica e que depois se expande em objetos perdidos, dispostos aleatoriamente com o passar do tempo, com o repouso do espírito inquieto, conformado a força. O corpo joga a cabeça para trás, frente aos olhos erguem-se prateleiras cheias de livros, milhares de páginas pensadas, escritas, inspiração. Olha para a máquina, a página em branco, o pensamento em branco, conclui que chegara ao fim daquela história, digita o ponto final.

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CARNAVAL

Antes que eu vá tomar cerveja, um voo curto me veio à cabeça, havia me esquecido de falar sobre o carnaval. Bem, como no carnaval tudo acontece e ninguém fica sabendo, uma vez que os foliões estão na rua se embriagando como se fosse o dia do juízo final, muitas histórias surgem, muitos mitos, direi alguns que tomei conhecimento enquanto bebia todas em Diamantina: “a Hebe Camargo morreu, metástase, é muito comum isso acontecer”; “a Beyoncé foi atingida por uma bala perdida no Rio de Janeiro”; “o Tomate, cantor de axé, sofreu uma overdose em cima do trio em Salvador”; “o Dourado do BBB foi expulso do programa após bater em Dicésar, o travesti” etc. Bem, em relação à mentirada, é coisa de carnaval, não me assusta. O que me põe medo é o que nenhum de nós ouviu, é o aconteceu nos corredores da política, falcatruas disfarçadas com espuma, confetes e purpurina, enquanto toda uma nação se embriagava feliz da vida.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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