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Como se estivesse em pranto, mas ao contrário, não chorava e o que era expelido seguia de fora para dentro. A preferência por pessoas eloquentes é nítida e talvez uma contradição, já que tímido – mas há um propósito: evitar o silêncio. Não que o silêncio seja um problema, quando só é necessário suportar sua verdade, e isso domina bem. Então as palavras saíam em sentido inverso ao do não-choro. E pareciam tão mais abstratas, estavam soltas sem meio de comunicação; sem destino. Nada que as justificasse, embora fossem necessárias. Dizer o que realmente quer dizer é menos importante que dizer a quem quer dizer o que quer que seja; ainda que sem destino. Compreender também não é tão importante. Surpreender e daí receber um sorriso em resposta, eis o mérito.


Milito não se queixa, apenas dá sua opinião. E não espera que concorde com ele, isso eu sei pelo tom de sua voz. Não suporto ir a festas na intenção de preencher com vazio o vazio que sinto em mim. Não suporto ficar em casa e tentar preencher o vazio que sinto em mim fechado em meu quarto mal ventilado, abarrotado de livros – alguns nunca lidos – e pó. Acho deprimente os manequins vivos nas vitrines das lojas, até a prostituição acho mais digna. Aquela menina cheia de espinhas que evita encarar as pessoas, parada no ponto de ônibus, vestida com o uniforme do time de vôlei... é tão... bonita. O centro da nossa cidade possui todo o caos do trânsito da Índia que nos mostra a TV, apenas não notamos, estamos acostumados a essa baderna. Não entendo o hype do Bolaño, apesar de nunca o ter lido.



O tempo e a distância sempre atuantes:
(I) “Aqui, vocês têm o relógio; lá, temos o tempo”. Não tenho o tempo, e apenas sei das horas para chegar atrasado e perder prazos.
(II) Parti muitas vezes por não saber o fim da história, essa a distância em mim.
Qual a força do tempo sobre nós? Conceitos mudam, imagens são distorcidas... Como justificar o que fica? A distância em meus ombros... Como entender uma presença invisível? Ansiedade...
Cidades crescem enquanto dormimos, pessoas nascem, pessoas morrem. Ouvi histórias absurdas, vivi estórias igualmente absurdas, como se a minha realidade transcendesse esse plano. Por isso perdi a clareza. A minha predileção pelo absurdo tem aumentado. As pessoas tendem a desaparecer, buscar pessoas que as vejam de forma diferente, mas é impossível quando se é uma só imagem a estampar um corpo de aparência frágil, facilmente manipulada, que se entrega tanto. Ontem eu tive um sonho, por isso resolvi lhe escrever. Sou um sonho.
Você é uma casa em que residi e da qual me mudei. Acontece que antes eu deveria ter escutado você-casa dizer:
“- Não, você não será a mesma pessoa depois que sair desta casa. Avisei-lhe antes, porém veio. Aqui esteve. Esta casa sente a sua partida. Se o que lhe resta é ir embora... Mas vá sabendo que esta casa está em você.”




Nasci e cresci em cidade pequena, onde não havia livraria, não havia teatro, não havia cinema, não havia nada além da biblioteca. E mesmo a biblioteca era de uma modéstia arrogante. Por volta dos onze anos, em uma tarde na biblioteca pesquisando algo para escola, fui descoberto por um livro erroneamente colocado na seção de literatura estrangeira (várias foram as vezes em que o coloquei na sua seção correta, mas sempre voltava para ao lugar ao qual o nome da autora sugeria pertencer), “Corações Mordidos”, da catarinense Edla Van Steen. Esse livro marcou o início de minha adolescência, um romance esquizofrênico, que se passa em um lugar “ilhado”, em que personagens se confundem, cujo fim até hoje me recordo: a personagem principal está sentada em uma cadeira, uma vela ou um cigarro cai no tapete que começa a pegar fogo, ela vê e nada faz para apagar, apenas deixa o fogo se alastrar pela casa. Depois desse dia me transformei em sócio da biblioteca. Li o que a minha rinite alérgica permitiu de Érico Veríssimo, Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meireles, Sérgio Porto etc. A bibliotecária tentava me mostrar escritores estrangeiros, mas eu me negava, justificava dizendo que só conseguia imaginar as histórias no Brasil. Com exceções de algumas poucas leituras como Sartre, Shakespeare, Kafka, Tchekov, pouco me interessava o que não era escrito no Brasil, ou ao menos por brasileiros, com exceção também para as minhas fixações juvenis que foram as histórias surpreendentes do Conan Doyle e do C.S. Lewis. Fui envelhecendo (!) e li todos romances do Graciliano Ramos, muita coisa do Jorge Amado, li também João Ubaldo, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos, Machado, Mário e Oswald, Lima Barreto, Adélia Prado, Hilda Hilst... Mas em relação ao que foi escrito ao redor do mundo e que influenciou meus compatriotas, permaneci quase virgem.
Há menos de um ano descobri Borges, e, através dele, Cortázar. Literatura de altíssimo nível, fantástica. Dá-me uma saudade da Argentina que jamais conheci ao lê-los... Outro dia fui encontrado pelo “Continente Submerso – perfis e depoimentos de grandes escritores de Nuestra América”, de Leo Gilson Ribeiro, enquanto procurava um livro de ensaios do T.S. Eliot – ou terá sido do Walt Whitman? – na decadente biblioteca da Universidade em que estudo. Serviu apenas para aumentar meu fascínio e inveja pela genialidade que raras vezes vemos surgir na literatura de nosso país.

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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