BILHETE


"Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,

enfim,

tem de ser bem devagarinho, Amada,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."


QUINTANA, Mário. Poesia Completa. p. 473.


RE: POSTAL

(Em resposta ao postal que me foi enviado através do correio por Laura Cohen)


Estranho conhecer a rotina sexual dos vizinhos de cima que sequer conheço: sexta e sábado, por volta das vinte e três horas, uma cama que fica no cômodo acima do meu quarto provoca um barulho muito característico, e se ponho a cabeça para fora da janela consigo ouvir os gemidos tímidos. Será que são casados? Namorados que se encontram apenas no fim de semana? Não costumo refletir muito sobre o assunto... Se o barulho me incomoda, vou para a sala e assisto a um filme, inicio a leitura de um livro – que não será lido até o fim. Tempos estranhos, porém de otimismo. A sala é o cômodo do apartamento que mais gosto, lá se encontra a minha estante de livros (agradáveis ou não; alguns velhos, outros ainda embalados), e tem uma vista incrível da cidade (cidade estranha, cidade quente) que me faz sentir com o poder de encará-la. Nada em mim me atrai – apesar de ouvir elogios constantemente – a não ser a minha estante, pois a considero uma extensão do que sou. Perderia tudo, roupas, sapatos, carteira, celular, computador, e aceitaria bem, mas creio que não seria fácil me desfazer dos meus (poucos) livros (sentimento mesquinho?). Por isso desejo que as pessoas venham à minha casa, para que vejam a minha face mais bonita, mas quase nunca reparam nela... Tive a péssima ideia de colocar a televisão entre os volumes brochados, certamente esse foi meu grande erro. Quanto à paisagem, essa é mais facilmente admirada, entretanto tenho mantido a cortina fechada, sem saber o motivo. Solto as informações sem nexo nem parágrafo para que entenda o que quero dizer quando falo em “criar cabras”: não quero fazer sentido, não quero ser literato... Quero levar uma vida normal, consciente das minhas ações e de suas prováveis consequências, como quem cria cabras, como Raduan Nassar. E o amor é uma magnífica forma de alcançar esse objetivo. Acredito ter encontrado o amor, por isso escrevi meu primeiro poema "sobre" amor, que os anteriores foram apenas imitações do sentimento. As minhas mulheres... Dissiparam-se porque tudo era apenas sonho. Não pregaram botões em minhas camisas, mas em minha pele, e quase acreditei que existissem. São uma só porque se chamam imaginação, e esta não aceita plural. Existe essa musa que há poucas semanas me fez mudar concepções e novamente crer no amor, aquele sincero e doce, por essa não temo rótulos, já que não carrega intermitência consigo, ao contrário, é perene como os rios mais belos.

P.S.: Laura, eu tenho motivo para tornar pública esta carta em resposta ao seu postal: o carteiro e o porteiro passaram a me olhar com intimidade, como se compartilhássemos um segredo. Achei fantástica essa aproximação silenciosa com desconhecidos, portanto nada mais pertinente que intentar alcançar resultado semelhante via internet.





[Ciclovia do Tejo (Cais do Sodré - Belem) - Passeio de bicicleta na margem norte do Tejo ao som de "Cais" do projeto "Os Poetas" de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes. Filmado por Nuno Trindade Lopes. Editado por Abilio Vieira.]

A DAMA DE ELCHE


"[...]

A força em silêncio resumida

Te gerou e perfez; compacta.

Ao te defrontar, dama de Elche:

Por esse rigor e melancolia

Ibérica serás? Muda decerto."


MENDES, Murilo. Tempo Espanhol. p. 25.


PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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