(Em resposta ao postal que me foi enviado através do correio por Laura Cohen)
Estranho conhecer a rotina sexual dos vizinhos de cima que sequer conheço: sexta e sábado, por volta das vinte e três horas, uma cama que fica no cômodo acima do meu quarto provoca um barulho muito característico, e se ponho a cabeça para fora da janela consigo ouvir os gemidos tímidos. Será que são casados? Namorados que se encontram apenas no fim de semana? Não costumo refletir muito sobre o assunto... Se o barulho me incomoda, vou para a sala e assisto a um filme, inicio a leitura de um livro – que não será lido até o fim. Tempos estranhos, porém de otimismo. A sala é o cômodo do apartamento que mais gosto, lá se encontra a minha estante de livros (agradáveis ou não; alguns velhos, outros ainda embalados), e tem uma vista incrível da cidade (cidade estranha, cidade quente) que me faz sentir com o poder de encará-la. Nada em mim me atrai – apesar de ouvir elogios constantemente – a não ser a minha estante, pois a considero uma extensão do que sou. Perderia tudo, roupas, sapatos, carteira, celular, computador, e aceitaria bem, mas creio que não seria fácil me desfazer dos meus (poucos) livros (sentimento mesquinho?). Por isso desejo que as pessoas venham à minha casa, para que vejam a minha face mais bonita, mas quase nunca reparam nela... Tive a péssima ideia de colocar a televisão entre os volumes brochados, certamente esse foi meu grande erro. Quanto à paisagem, essa é mais facilmente admirada, entretanto tenho mantido a cortina fechada, sem saber o motivo. Solto as informações sem nexo nem parágrafo para que entenda o que quero dizer quando falo em “criar cabras”: não quero fazer sentido, não quero ser literato... Quero levar uma vida normal, consciente das minhas ações e de suas prováveis consequências, como quem cria cabras, como Raduan Nassar. E o amor é uma magnífica forma de alcançar esse objetivo. Acredito ter encontrado o amor, por isso escrevi meu primeiro poema "sobre" amor, que os anteriores foram apenas imitações do sentimento. As minhas mulheres... Dissiparam-se porque tudo era apenas sonho. Não pregaram botões em minhas camisas, mas em minha pele, e quase acreditei que existissem. São uma só porque se chamam imaginação, e esta não aceita plural. Existe essa musa que há poucas semanas me fez mudar concepções e novamente crer no amor, aquele sincero e doce, por essa não temo rótulos, já que não carrega intermitência consigo, ao contrário, é perene como os rios mais belos.
P.S.: Laura, eu tenho motivo para tornar pública esta carta em resposta ao seu postal: o carteiro e o porteiro passaram a me olhar com intimidade, como se compartilhássemos um segredo. Achei fantástica essa aproximação silenciosa com desconhecidos, portanto nada mais pertinente que intentar alcançar resultado semelhante via internet.