“Most people don't see what's going on around them. That's my principal message to writers: for God's sake, keep you eyes open. Notice what’s goning on around you (…).”

BURROUGHS, William S. The Paris Review - The Art of Fiction, no. 36, pg. 15. 

Escritor multifaceta que conheci no Jabuticabas, cuja entrevista encontrei no The Paris Review, mais especificamente aqui.

ISTO NÃO É UM HINO PARA UMA MULHER DE VINTE E POUCOS ANOS DE IDADE


Soaria falso dizer que crê no amor adocicado das comédias românticas ou no amor incondicional dos dramalhões – não, não crê, além de enxergar na falsa naturalidade de tais gêneros cataclismos absurdos. Todavia crê no amor, o cru, o repetitivo, que preenche vazios com sexo, que se torna amizade, apenas, sem trepidações no coração. Insiste em dizer que não há nada mais catastrófico e belo que o início e o fim dos romances. Park that car / drop that phone / sleep on the floor / dream about me [1]. O amor tinha sabor, cheiro e textura de sexo, o restante parecia-se mais com amizade. A ideia de limitar a vida a uma pessoa – uma única – amedrontava a pobre garota de dezessete anos que queria ser considerada mulher, porque mulher que é mulher, madura, sabe manter um relacionamento, herança de fracassos anteriores. Os pais sempre foram liberais quanto ao sexo, mas ela sabia de certos limites que não diziam a respeito de posições ideológicas: quando transava em seu quarto ligava o estéreo em volume alto que permitisse os gritos e impedisse a audição dos ruídos de amor. Gostava de transar ao som de Francis A. Sinatra & Edward K. Ellington, vinil que herdou do avô – disse ao menos uma vez, em sussurros, aos três namorados com os quais transou ao som desse vinil “querido, sou sua”. And if she’ll say, “My darling, I’m yours” / I’ll throw away my striped tie / and my best pressed tweed / all I really need is the girl [2]. O amor às vezes vem precoce, absorve a adolescência e persegue enquanto houver vida, e da paciência que surge, esperançosa, escuta-se sempre um ruído triste que ocupa as noites que outrora foram preenchidas por ruídos de amor. Concordou com Nietzsche com veemência em relação ao tópico (assim por ela chamado) 415 denominado “AMOR” de Humano, Demasiado Humano, não sem antes, dois anos antes, condená-lo pelo mesmo tópico. Concordara com o filósofo nos dois momentos quanto aos tópicos 400 e 401, pois as mulheres se tornam por amor exatamente o que elas são no pensamento dos homens por quem são amadas e, na maioria das vezes as mulheres amam um homem de valor, de modo que querem tê-lo só para si. Elas o deixariam de bom grado em cárcere privado, se sua vaidade não as dissuadisse: esta quer que apareça a outras também como um homem de valor [3]. O primeiro namorado foi ela quem conquistou e também foi ela quem se cansou, o amor terminou por ócio, e embora a virgindade perdida mutuamente houvesse tido sabor mágico, não foi suficiente para prendê-la a ele. O segundo foi explosivo, durou um mês, suficiente para declarações de amor eterno, sexo diário (inclusive tentativa de sexo anal) e declarações de ódio eterno; o amor acabou em seu aniversário de dezesseis anos. O terceiro foi o mais intenso, all these people drinking lover's spit / swallowing words while giving head / they listen to teeth to learn how to quit / take some hands and get used to it [4], houve comemoração de aniversário de namoro e planos de vida – separados – e nisso se entendiam. Mas de que adiantaria parar naquele homem com pouca barba, pouca experiência, pouca idade, pouco tudo? Queria ser mulher inteira, experiente, e tinha apenas dezessete anos – que já não os tem. Resolveu que para amadurecer precisaria sofrer no mínimo três anos o amor perdido, assim amaria de verdade outras vezes mais. Passou os três anos dedicando-se a um estudo – inútil? – sobre os reflexos da Lei da Anistia (que concedeu perdão tanto aos civis que cometeram crimes políticos nos anos de ditadura, quanto aos militares que a impuseram) no estado democrático de direito. O estudo quedou-se inacabado. Transou com semi-conhecidos e desconhecidos, não obtendo satisfação compensatória. Em seu aniversário de vinte e um anos não convidou os amigos para a festa que não aconteceu, apenas tocou no estéreo um rock triste, que apenas era triste porque assim queria, e não se emocionou. Não havia motivo. Metal heart you're not worth a thing [5].





[1] Broken Social Scene - Anthems For A Seventeen Year-Old Girl.
[2] Frank Sinatra & Edward K. Ellington – All I Need Is The Girl.
[3] Nietzsche – Humano, Demasiado Humano.
[4] Broken Social Scene – Lover’s Spit.
[5] Cat Power – Metal Heart.

HOTEL PARADISE: SUÍTE 141

in memoriam de William Wordsworth e William Shakespeare

O tempo que há em tudo
reside em mim, por conseguinte
persegue-me no absurdo
tornando-se presente no interior
deste quarto que insiste em ser lugar-comum
Hotel Paradise: suíte 141

so I am as the rich whose blessed key
Can bring to me this sweet up-locked treasure*

A chave do tempo
ferrolho do que é inanimado
persegue-me nestes dias de inverno
“ah, dia marrom”
grita a camareira do meu hotel chinfrim –
é preciso assear o que me estende

Ratifico o que escreveu Shakespeare, por fim
pois, sendo eu apenas rico de coração
tenho 10 reais e a compaixão da camareira 
que me observa, nu na cama
com intimidade que me estranha
e que, embora próxima dos 50 anos
ainda pode me glorificar com seu doce tesouro trancafiado.

*Versos de abertura do soneto LII de Shakespeare.

ENQUANTO DAISY LOWE DANÇA PARA A ESQUIRE OU "A WOMAN WE LOVE"

para Rodrigo

Youre so cool / Youre sweet and rude /Youre so plain that it's special / It's nuttin like you / Well, aww hoo / oo-oooo-oo-ooo / You make me stand up, and holla ‘do the hoochie coo!’ / Youre so cool.
Mila Kunis talvez não seja tão bonita quanto imagino e me lembro. Quem sabe ler O Tratado do Desespero e da Beatitude seja mais interessante que admirar Mila Kunis na capa da Esquire americana de fevereiro? Renata me disse que buscamos o equilíbrio entre alma, coração, mente e razão, algo assim; estávamos bêbados, não entendi muito bem e ri dela, embora concorde com o que ela disse (?). Algo como acordar no meio da madrugada e ver Mila Kunis, no prédio ao lado, entrar em seu apartamento de janelas gigantes e escancaradas e despir-se, despretensiosamente, talvez exemplifique a minha maneira de conceber o voyeurismo. O amor não se explica, não se compreende, não creio que a filosofia alcance o significado do amor. Prefiro senti-lo, ainda que em imagens, ainda que na imaginação – fitando uma parede branca. À noite prefiro as mulheres aos filósofos, perdoem-me aqueles que consideram a minha heresia.

NAQUELA OCASIÃO OU "TODO ÓDIO DA VINGANÇA DE JACK BUFFALO HEAD"


Hoje, após não sei quantos anos – consigo me lembrar apenas do dia, 08, e do mês, março – encontrei um discurso que começamos a escrever juntos e que nunca terminamos, sobre uma tal de política, um discurso social do qual nada sabíamos, mas que insistimos em escrever inspirados em Darcy Ribeiro, “Notícia de última década: a canalha impera, robusta como um touro. Somos uma nação entregue aos interesses de uma elite politizada, porém insignificantemente humanizada, que não tem no seu encalço revoltosos efetivos, altruístas, embebidos do sentimento de nação; os poucos que se revoltam o fazem egoisticamente, e, em geral, são estereotipados, ‘marxistas de ouvido’, ineficazes...”. Encontrei-o dobrado dentro de um envelope grande cheio de recordações dos meus meses no exílio em São João Del-Rey – adquiri a mania de guardar bagulhos depois de assistir um documentário sobre o Andy Warhol, que encaixotava tudo que parecia ser trivial – e com isso ressuscitei você, cujo destino eu desconheço completamente.
Era uma festa de república, não me lembro o nome, porém sei que era uma república feminina e que ficava próximo ao Bar 70, esquina com a Avenida Leite de Castro (lembro de você rindo por eu achar que a avenida se chamava Lady Castro). Você chegou perto de mim, pediu um trago do meu baseado e eu ri, você não tem idade para isso, afirmei. Descobrimos que na verdade você era mais velha que eu oito meses e que eu era quem ainda não tinha idade para aquilo. Ofereci meu Johnnie Walker Black Label, era a bebida adequada para o Matanza que tocava no estéreo da casa, e você discordou, disse que rum ou gim seriam os adequados, deu um trago direto da garrafa, você disse ser falsificado, parecia-se mais com licor de pequi – nisso nos descobrimos conterrâneos, nascidos no mesmo hospital, Santa Casa de Misericórdia –, preferiu permanecer na garrafa de Jose Cuervo que bebia com suas amigas.
Após horas de conversa combinamos que iríamos percorrer a Estrada Real juntos, conhecer a América do Sul e o caminho místico de Santiago de Compostela. O que mais aconteceu caberia contar aqui? Seu nome ficou perdido entre as consoantes do alfabeto, logo na primeira letra, nenhum beijo ou sobrenome resta a ser contado. Uma transa em Tiradentes? Uma fantasia... Andarilhos. Busco um endereço, um remetente, talvez encontre apenas a minha esquizofrenia (não detectada) e nela os meus personagens inúteis – tanto quanto a excessiva des(dis)crição.

MINHAS PELÚCIAS OU "GOT A DEVIL'S HAIRCUT IN MY MIND"


De pouco vale – quase nada – que o pai explique a ele que os tapas que dá na mãe não são violentos, que os puxões de cabelo são ocasionais, papai anda muito cansado do serviço e mamãe não o ajuda porque fica sempre perguntando como foi seu dia se quer o jantar agora e ela sabe que o dia foi péssimo porque o trabalho de papai é estressante e não é tão bom quanto as idas ao parque nos domingos de manhã pra andar de pedalinho e comer pipoca doce e algodão doce e beber coca-cola.
Na hora das brigas, que ocorrem geralmente três vezes na semana, em dias alternados, mais especificamente nos dias pares – que sábado é dia de transar e domingo tem parque e depois papai vai beber cerveja que tem gosto amargo no bar com os amigos e sempre volta com muito cheiro de cigarro – ele tampa os ouvidos com duas pelúcias, o tigre Tigo, e o sapo Jão, e se esconde em baixo da cama, espiando o pouco que consegue ver pela fresta da porta do quarto dos pais que fica em frente ao seu. Ele chora, às vezes, quando a mãe pede para parar e o pai a chama de puta e lhe esbofeteia o rosto, porque acontece o mesmo com ele quando ele pede que a mãe pare de lhe bater, e ela o chama de moleque e de estorvo, esbofeteando-lhe o rosto com a mão doente de costureira.
Durante um tempo papai ficou bonzinho porque mamãe tava ficando gorda. Ele vai ganhar um irmão, a mãe diz que a barriga dela crescerá quase tanto quanto a barriga do pai, não porque ela está comendo muito, mas porque ela está gerando um filho, da mesma forma que o gerou, quatro anos atrás. Ele não compreende muito, mas coloca a mão na barriga da mãe e espera por um chute. Pergunta se o bebê chuta por não gostar dela, claro que não, ele ama mamãe assim como você me ama, porque por nove meses somos uma só pessoa. Ele acha estranho, como que mamãe carrega uma coisa dentro dela que tá crescendo e chutando sua barriga e comendo o que ela come e fazendo xixi e cocô dentro dela? Seria partindo disso que ele poderia ter entendido o amor anos depois.
É aniversário de vinte anos da mãe e tem festa, sábado é um dia bom. Todos estão lá, até mesmo o primo da mãe com quem ela havia perdido a virgindade aos treze anos, e o pai sabe disso. Ele ouve a avó e a mãe conversarem, a avó diz que vinte anos é uma idade importante, simboliza a entrada na vida adulta, embora ela já tivesse amadurecido bastante ao ganhar o primeiro filho – e amadurecerá muito ao ganhar o segundo, daqui a três meses, você verá. Ele não sabe se será menino ou menina, nem mesmo nome ainda deram ao bebê, ou, se deram, não lhe contaram.
No fim da festa papai tava muito bêbado porque passou o dia todo bebendo pinga com os amigos que foram na festa e beberam muita pinga e cerveja também. O pai não cumprimentou o primo da mãe, o ignorou. Na saída, viu que a mãe e o primo conversaram algo e sorriram, depois se abraçaram e ele foi embora. Ao entrar em casa para arrumar a bagunça da festa, quando todos já haviam ido embora, o pai perguntou à mãe o que ela conversou com o primo. Ela disse que nada demais, que ele apenas desejou felicidade à família e ao bebê que estava por vir. O pai a chamou de mentirosa e disse que os dois estavam marcando um encontro, então deu um soco no rosto da mãe, que caiu desvairada no chão. Papai chutou mamãe umas quatro vezes na barriga igual quando ele me levava para ver o jogo de futebol e que ele chutava muito a bola e marcava gols. Depois arrastou a mãe pelo o cabelo e lhe deu um tapa no rosto, mas ela já havia desmaiado. Quando o pai viu que sangrava por entre as pernas da mãe, libertou-se da embriaguez e se desesperou. Ligou para o um-nove-três, pediu uma ambulância com urgência, a mulher estava grávida, havia tropeçado e caído violentamente no chão, achava que ela havia abortado. Quando a ambulância chegou o pai recusou a acompanhar a mãe alegando que o filho não poderia ficar sozinho em casa, também não poderia ir ao hospital porque o filho tinha medo. A ambulância levou a mãe, porém os médicos desconfiaram dos ferimentos e ligaram para a polícia relatando o que suspeitavam que havia acontecido. Papai sabia que iria ser preso e se desesperou chorando muito e eu nunca vi ele chorando e ele chorava mais que eu quando apanhava e ele gritava não que ele matou o filho dele mas eu disse que eu tava bem que eu tava vivo mas papai disse que eu não era filho dele devia ser filho de algum outro homem porque mamãe era uma puta depois disse que amava mamãe muito que ele tava na merda que a polícia ia prender ele e agora ele tinha que fugir mas a polícia bateu no portão e ele não quis abrir e os vizinhos gritavam assassino e a polícia quebrou o portão e entrou e papai tentava fugir pulando o muro mas os vizinhos pegaram ele e a polícia o levou e eu fui dormir na casa de titia que fica perto de casa mas não tem papai nem mamãe só Tigo e Jão que agora ficam nas minhas orelhas o tempo todo.







HISTÓRIA DE QUINZINHO

'quizinho era um louco que fazia
o trajeto montes claros-janaúba,
no norte de minas

pra alegrar suas caminhadas
construiu um caminhãozinho
de madeira, transportando nele
várias mercadorias, todas vindas
de suas fazendas, dizia

gado, arroz, carvão, pequi e, mais
recentemente, soja. tudo muito
bem arrumado no seu
caminhãozinho de brinquedo

quinzinho morreu atropelado perto
de capitão enéas quando trocava
o pneu do seu caminhãozinho
no acostamento'

Nicolas Behr, Primeira Pessoa

Homenagem (?) às minhas cidades, Montes Claros e Janaúba, e a Capitão Enéas, a pior parada possível da linha Montes Claros-Janaúba. 




PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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