blue monk

“Antes de dormir, Carlos Fuentes resolveu perguntar a Julio Cortázar como, em que momento e por iniciativa de quem foi introduzido o piano na orquestra de jazz. A pergunta era casual e não pretendia conhecer mais que uma data e um nome, mas a resposta foi uma aula deslumbrante que se prolongou até o amanhecer, entre enormes canecos de cerveja e salsichas com salada de batatas. Cortázar, que sabia medir muito bem suas palavras, nos fez uma reconstituição histórica e estética com uma erudição e uma simplicidade que culminou com as primeiras luzes em uma apologia homérica a Thelonious Monk.”
Gabriel García Márquez – 12 de fevereiro de 1994







Milito não se queixa, apenas dá sua opinião. E não espera que concorde com ele, isso eu sei pelo tom de sua voz. Não suporto ir a festas na intenção de preencher com vazio o vazio que sinto em mim. Não suporto ficar em casa e tentar preencher o vazio que sinto em mim fechado em meu quarto mal ventilado, abarrotado de livros – alguns nunca lidos – e pó. Acho deprimente os manequins vivos nas vitrines das lojas, até a prostituição acho mais digna. Aquela menina cheia de espinhas que evita encarar as pessoas, parada no ponto de ônibus, vestida com o uniforme do time de vôlei... é tão... bonita. O centro da nossa cidade possui todo o caos do trânsito da Índia que nos mostra a TV, apenas não notamos, estamos acostumados a essa baderna. Não entendo o hype do Bolaño, apesar de nunca o ter lido.



O tempo e a distância sempre atuantes:
(I) “Aqui, vocês têm o relógio; lá, temos o tempo”. Não tenho o tempo, e apenas sei das horas para chegar atrasado e perder prazos.
(II) Parti muitas vezes por não saber o fim da história, essa a distância em mim.
Qual a força do tempo sobre nós? Conceitos mudam, imagens são distorcidas... Como justificar o que fica? A distância em meus ombros... Como entender uma presença invisível? Ansiedade...
Cidades crescem enquanto dormimos, pessoas nascem, pessoas morrem. Ouvi histórias absurdas, vivi estórias igualmente absurdas, como se a minha realidade transcendesse esse plano. Por isso perdi a clareza. A minha predileção pelo absurdo tem aumentado. As pessoas tendem a desaparecer, buscar pessoas que as vejam de forma diferente, mas é impossível quando se é uma só imagem a estampar um corpo de aparência frágil, facilmente manipulada, que se entrega tanto. Ontem eu tive um sonho, por isso resolvi lhe escrever. Sou um sonho.
Você é uma casa em que residi e da qual me mudei. Acontece que antes eu deveria ter escutado você-casa dizer:
“- Não, você não será a mesma pessoa depois que sair desta casa. Avisei-lhe antes, porém veio. Aqui esteve. Esta casa sente a sua partida. Se o que lhe resta é ir embora... Mas vá sabendo que esta casa está em você.”


O PELICANO



"Um dia vi um navio de perto
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi – como vi o navio – um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
– a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria.
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio."

O Pelicano - Adélia Prado

the widow says: I broke her first
of course I say just the reverse
and we can't get the past this

something she did
on the 14th of June
because of something I said
on the 13th of June
and we can't get past this

and if we could lock our lips
and block our noses
and swim beneath the barriers
and come up clean
on the other side
but we can't get past this







Observa os carros e eles passam
atentos à mão inglesa da ponte
que passa por cima de uma avenida
por onde outros carros passam
com faróis de diferentes intensidades
Veja, veja aquele, é japonês
construído por mãos e máquinas japoneses
em alguma fábrica de alguma cidade
do pequeno país localizado no pacífico
Agora há uma carta ao motorista do carro japonês
recebida há vinte anos, quando eram de costume
dizendo que ele tem uma filha na sua cidade
em que cresceu e viveu até os vinte anos
e ela morreu faz pouco tempo
suas amídalas cresceram e obstruíram, aos poucos
a passagem do ar
ela não pôde respirar enquanto dormia
Atenção a como o pneu de seu carro passa sobre o buraco
– consequência das chuvas – e estoura
o homem perde o controle da direção e o carro bate
em um poste de ilumição – o air bag não suporta seu peso
O homem talvez imagina um rosto para a filha.

japoneses


"Não creio que o destino do japonês seja muito melhor. Na realidade, chego a pensar o contrário. A japonesa tem pelo menos a possibilidade de livrar-se, casando, do inferno da empresa. E não trabalhar numa empresa japonesa já me parece um fim em si.
Mas o japonês não é um asfixiado. Não se tratou de destruir nele, desde a mais tenra idade, qualquer indício de ideal. Ele está de posse de um dos direitos humanos mais fundamentais: o de sonhar, de nutrir esperanças. E não se priva dele. Imagina mundos quiméricos nos quais se sente livre e dono de seu nariz.
A japonesa não tem este recurso, se tiver sido bem educada – o que é o caso da maioria. Foi por assim dizer amputada dessa faculdade essencial. Por isto é que proclamo minha profunda admiração por toda japonesa que não se suicidou. De sua parte, permanecer em vida é um ato de resistência de uma coragem tão desinteressada quanto sublime."

Medo e Submissão - Amélie Nothomb

CANTO TERCEIRO - V


“(...)

os cabelos deles são corredios
e tinham bons rostos e bons narizes
e andavam tosquiados, de tosquia alta
raspados todavia por cima das orelhas
e subiram à nau e o Capitão estava
sentado em uma cadeira
aos pés uma alcatifa por estrado,
bem vestido, com um colar de ouro mui grande no pescoço
e Sánchez de Tovar e Simão de Miranda
e Nicolau Coelho e Aires Correia
e nós outros, sentados no chão sobre a alcatifa.

Um deles fitou o colar do Capitão
e ficou a fazer acenos com a mão
em direção a terra
como se quizesse dizer que havia ouro na terra
e olhou um castiçal de prata e assim mesmo
acenou para terra
mostraram-lhe um papagaio pardo
que o Capitão trazia consigo
e todos acenaram para terra
e a terra era a Terra dos Papagaios
mostraram-lhes um carneiro
não fizeram caso dele – mostraram-lhe uma galinha
e tiveram medo dela
deram-lhes taças de vinho
não gostaram dele
tomaram água para enxaguar a boca
e então estiraram-se de costas na alcatifa
a dormir
e não procuravam encobrir suas vergonhas
(vergonha – de verga)
que não eram fanadas
e as cabeleiras delas estavam bem raspadas e feitas
e o Capitão mandou pôr
na cabeça de cada um seu coxim
e um de cabeleira esforçava-se para a não estragar
e deitaram um manto por cima deles
e aconchegaram-se
e adormeceram.”

A Invenção do Mar – Gerardo Mello Mourão

MOURÃO


in memoriam de Gerardo Mello Mourão
Inventaram o que eu não sabia
inventaram o mar
Um homem quase secular
de nome quase errado:
Gerardo
Tudo que há nele, não há em mim
ele que é grandioso como o Atlântico
o mesmo que cantou ver
os portugueses atravessarem
Mas sou índio
mas sou português
mas sou negro
não sei qual o meu lado na história
Talvez eu goste dessa miscigenação toda
esse calor ferro-em-brasa
esse amor pelo sexo
Quisera eu ter o talento que tinhas
Gerardo
e cantar a epopéia do amor-suor.



"Os contos hispano-americanos foram produzidos ao longo de muitos anos e são exponenciais de toda uma literatura vitalíssima. Os brasileiros sucumbiram (..) ao absurdo critério da atualidade. O resultado é que se defrontam grandezas quase antípodas. Para os lances de um Alejo Carpentier, de um Juan Rulfo, de um Juan José Arreola era preciso colocar nesse tabuleiro de xadrez peças equivalentes: O Meu Tio, O Iauretê de Guimarães Rosa ou seu A Terceira Margem do Rio é que poderiam aparecer ao lado de tais prodígios. E uma Clarice Lispector responderia a um Borges ou um Cortázar, uma Hilda Hilst a um Roa Bastos ou a um José Revueltas, uma Nélida Piñon de O Tempo das Frutas a um Bioy Casares, Um Vampiro de Curitiba de Danton Trevisan a um Juan Carlos Onetti.
Os Contos de Rubem Fonseca e Roberto Drummond (...) parecem pigmeus em terras do Gulliver lembrado por Borges em seu O Relato de Brodie, tal a sua banalidade e ausência de significado mais autoelogiável do que antologiável. (...) Sérgio Sant’Anna defende bem seu ângulo mineiro, mas comparar quem há-de? com um mero Carlos Fuentes ou um Vargas-Llosa em dia de pouca inspiração?"

(O Continente Submerso, Leo Gilson Ribeiro)



Nasci e cresci em cidade pequena, onde não havia livraria, não havia teatro, não havia cinema, não havia nada além da biblioteca. E mesmo a biblioteca era de uma modéstia arrogante. Por volta dos onze anos, em uma tarde na biblioteca pesquisando algo para escola, fui descoberto por um livro erroneamente colocado na seção de literatura estrangeira (várias foram as vezes em que o coloquei na sua seção correta, mas sempre voltava para ao lugar ao qual o nome da autora sugeria pertencer), “Corações Mordidos”, da catarinense Edla Van Steen. Esse livro marcou o início de minha adolescência, um romance esquizofrênico, que se passa em um lugar “ilhado”, em que personagens se confundem, cujo fim até hoje me recordo: a personagem principal está sentada em uma cadeira, uma vela ou um cigarro cai no tapete que começa a pegar fogo, ela vê e nada faz para apagar, apenas deixa o fogo se alastrar pela casa. Depois desse dia me transformei em sócio da biblioteca. Li o que a minha rinite alérgica permitiu de Érico Veríssimo, Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meireles, Sérgio Porto etc. A bibliotecária tentava me mostrar escritores estrangeiros, mas eu me negava, justificava dizendo que só conseguia imaginar as histórias no Brasil. Com exceções de algumas poucas leituras como Sartre, Shakespeare, Kafka, Tchekov, pouco me interessava o que não era escrito no Brasil, ou ao menos por brasileiros, com exceção também para as minhas fixações juvenis que foram as histórias surpreendentes do Conan Doyle e do C.S. Lewis. Fui envelhecendo (!) e li todos romances do Graciliano Ramos, muita coisa do Jorge Amado, li também João Ubaldo, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos, Machado, Mário e Oswald, Lima Barreto, Adélia Prado, Hilda Hilst... Mas em relação ao que foi escrito ao redor do mundo e que influenciou meus compatriotas, permaneci quase virgem.
Há menos de um ano descobri Borges, e, através dele, Cortázar. Literatura de altíssimo nível, fantástica. Dá-me uma saudade da Argentina que jamais conheci ao lê-los... Outro dia fui encontrado pelo “Continente Submerso – perfis e depoimentos de grandes escritores de Nuestra América”, de Leo Gilson Ribeiro, enquanto procurava um livro de ensaios do T.S. Eliot – ou terá sido do Walt Whitman? – na decadente biblioteca da Universidade em que estudo. Serviu apenas para aumentar meu fascínio e inveja pela genialidade que raras vezes vemos surgir na literatura de nosso país.

eu, submerso?



"Após passar a manhã dando aula, Sartre e Beauvoir instalavam-se num café para escrever. O preferido era o Flore, no Boulevard Saint-Germain, com suas cadeiras vermelhas e seus espelhos. O café não era muito conhecido na época, e os soldados alemães quase nunca lá punham os pés. Mas o melhor era o aquecimento da casa. Os quatro invernos da Ocupação seriam mais severos que o normal, com neve e gelo nas ruas de Paris. O carvão era racionado e os cortes de energia elétrica eram comuns. No meio do Flore, havia um enorme fogão de sala, que o proprietário mantinha bem abastecido com seu estoque de carvão comprado no mercado negro.
Sartre e Beauvoir trabalhavam em geral no segundo andar, onde era mais silencioso. Sentavam-se em extremidades opostas da sala para não caírem na tentação de conversar e – envoltos em fumaça de tabaco, em meio ao tilintar das xícaras de café, ao burburinho das conversas e à distração do movimento das pessoas que iam ao banheiro ou falar ao telefone – escreviam. Ambos usavam canetas-tinteiro. A letra de Sartre era pequena, regular e profissional. A de Simone, irregular, era quase impossível de decifrar. Até mesmo Sartre se queixava.
Na mesa ao lado da pilha de papéis do casal havia um pequeno bule de chá, uma xícara, um pires e um cinzeiro. Como todo mundo, eles fumavam. O tabaco era escasso durante a guerra, e Sartre vasculhava o chão do café à cata de guimbas de cigarro para abastecer seu cachimbo. Beauvoir gostava da sensação de um cigarro na mão, mas não tragava, nem se importava de ficar sem cigarros."

(Tête-à-Tête, Hazel Rowley)

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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