“Um
homem com músculos e os nervos à mostra. Ferido por tudo e por todos.
Inadaptado ao seu tempo e à sua gente. Mas insatisfeito com essa inadaptação.
Procurando a todo transe compreender, mas não compreendendo a linguagem dos
seus contemporâneos. Fechando-se em sua solidão para resguardar a sua
independência. Mas sem nada de misantropo e de desesperado, antes amando
profundamente os homens e a vida.”
(Tristão
de Athayde sobre Lúcio Cardoso)
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“Que
é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto
da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de
sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante
dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria
longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre,
escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentido e sem
chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha
própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo –
não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura
de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos
achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que
modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente
inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se
consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar
que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou
a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao
geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”
CARDOSO,
Lúcio. Crônica da Casa Assassinada.
