Na aridez do meu peito encontro conceitos e não pessoas - não entendo. Há tantas ideias apaixonantes, entretanto insistem na concepção exata, rígida e cruel.
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#07
Um amigo desconhecido me contou um dia que toda a ventania iria acabar. Era sonho, pura fantasia, um livro cheio de carneiros a me apoquentar. Estou ouvindo modas de viola, sorrindo o riso dos outros, não sei falar de amor, estou embromando. Parece até que a lua na minha janela diz quão bela ela é, mas é só resquício de uma companhia que me deu um abraço tonto anos atrás. Ontem foi o dia em que a ventania por um minuto parou. Um beijo tímido, de surpresa, de quem queria e não queria: ela é flautista, toca piano e me faz sorrir. Seu nome tem apenas duas letras que se repetem duas vezes, ela é linda, mas não sei falar de amor.
bêbado, assistindo oswaldo montenegro cantar no programa do rolando boldrin (!).
#06
Ai, que me cansam... Risos frouxos, dentes, alegria, alegria! O ridículo da ultra-exposição, ah, péssimos discos, péssimos livros, péssimos filmes, péssimos... A arte é uma bofetada que vale quinze minutos. Bundas, seios, coxas, músculos, grandes, torneados... Nada me parece mais estúpido que um manequim vivo, sorridente, inconsciente de si. Dêem quanto podem, enquanto fico aqui, desejando apenas um travesseiro e neosaldina.
ah, como estou irado.
#03
Estou parado, em pé, no meio-fio do canteiro central. O sol me torra o rosto, mas eu o encaro, a única coisa que vejo é o barulho – duvido das verdades. Mentira nenhuma é tão dolorida quanto as certezas. Buzinas me alertam.
#01
Tenho dois nomes, sou réu confesso do crime de falsidade ideológica. Tenho duas pernas, dois braços, duas faces. Perguntam-me como consigo, digo que eles não existem, são invenções minhas. Ninguém se importa com duas, três faces, contanto que a que exponho agrade à geral. Não me agrada nenhuma das duas e a verdadeira ainda não veio à tona.
Há no calor excesso de vida, o suor é absurdo. As pessoas se mostram grotescas, porém as máscaras permanecem intactas, produtos made in de plástico acrílico, resistentes.
DOMINGO
Querem acabar com meu domingo, mas não permito, não cedo, afinal, essa é uma tarefa que cabe a mim mesmo, e ninguém a faz melhor. O domingo está para mim como um pato em meio a meia dúzia de galinhas, ou – intentando uma comparação mais esdrúxula – um agnóstico em meio a meia dúzia de evangélicos, e com o mesmo grau de descaramento: não há moralidade no domingo que carrego em mim. O domingo é tudo, menos careta. Por isso querem tanto acabar com ele. Há todo o desespero que entremeia o hedonismo do sábado e a caretice da segunda, de forma tal que, em certos domingos, surto, desregulo meus horários, cometo exageros – domingo é lindo. Mas, então, uns poucos que não o entendem chegam em mim e em minha concepção loquaz querendo acabar com tudo. Como diz a malandragem, don’t fuck up the rotation.
MENTIRA DE QUATRO LINHAS
Enquanto olho para frente e anseio pelo que está por vir, apagam-se da lembrança, em cadência, rostos, medos e fraquezas. Está aí, justamente no que deixo para trás, a fonte da minha força e da minha felicidade.
CORTANDO CABEÇAS
Amanhã pela manhã darei um sumiço no modem, ficarei sem internet, espero que por um bom tempo - é difícil, eu sei. As aulas na faculdade retornaram há um mês, ainda não toquei em livro, o estágio está me matando, não posso me render à internet, torná-la lazer. Vou variar minha rotina, ler algum contista - quero me aventurar mais na literatura estrangeira -, voltar à natação, estudar para a faculdade, para os concursos, esquecer a internet. Espero escrever mais também, quando voltar publico tudo. A internet nos torna burros, sinto meu cérebro atrofiando aos poucos. Bacio, malandragem.
INTERTEXTUALIDADE
Estou profundamente decepcionado comigo mesmo. A internet é a minha derrocada. A morte dos livros, a morte dos filmes, a morte do que sou e creio. Liberdade, qual seu preço?
TANGO DESCOMPASSADO
Dá em tudo e não dá em nada, eis a desmedida do amor. Citando um velho poeta plebeu que acabo de criar, ‘há o grande frente à noite tenra, infante noite, jaz pequena’. Toca o tango e os passos ritmados, troco o santo por uma dose de rum. Porque não dá em nada se dá em tudo, a morte, o fim, c’est fini, o riso curto. Desdizem o que cantam, não dá em nada, embora caiba em tudo.
01:08
Penso que seja verdade, porém me calo. Enquanto existirem as palavras, será uma voz a permear o absurdo. Quando for tarde, um grunhido irá fortalecer o que ainda é real.
PLANOS PARA MARÇO
01 – Ler ‘Crônica da Casa Assassinada’ do Lúcio Cardoso e terminar ‘Navegação de Cabotagem’ do Jorge Amado.
02 – Assistir um Godard por fim de semana.
03 – Usar menos a internet.
04 – Telefonar para os amigos distantes e dizer que sinto saudades.
05 – Escutar ‘Acabou Chorare’ dos Novos Baianos em alto e bom som.
06 – Planejar uma viagem a Salvador para conhecer o Pelourinho, o elevador Lacerda, o Olodum, e a casa do Rio Vermelho de Jorge Amado.
07 – Estudar pelo menos duas horas por dia.
08 – Comprar as séries ‘Criminal Minds’ e ‘CSI: Miami, Los Angeles e NY’.
09 – Dormir mais e melhor.
10 – Ir ao urologista.
CRÔNICA DE UMA MANHÃ
Como um cão ele ressurgiu, covarde a convidou para sair, macho que precisa do mijo para demarcar território. As mãos dadas, hand to hand, eu perdia mais uma semana, obstaculizou-se o meu ‘oi’ inútil, o sorriso tímido sequer saiu. Como um cão, mais uma semana.
Sou como a crítica musical inglesa que a cada semana elege uma nova banda que irá salvar o rock: a cada semana elejo uma mulher que irá me salvar a vida. Ela tem um sorriso bonito, mulher simpatia, mas tem o cão, e o cão mija. Mais uma semana por vir.
MEMÓRIA
Hoje, 23 de fevereiro, é aniversário do meu pai, 41 anos. Não me lembrava. Às 17h minha mãe me liga, lembrete infalível é Irene. Relembrado, ligo para o xará, dou os parabéns. Até aí, tudo normal. Às 23h meu pai liga para a minha avó, lembra a ela do aniversário dele. Depois do telefonema ela me chama, reclama que eu não a avisei. “Ah, vó, você o pare e eu é que tenho que te lembrar?”
BREVE DESPERTAR
Daqui a pouco vou para o condomínio de uma amiga com outra amiga que conheço a pouco tempo. Curtir a piscina, tomar cerveja, o domingo está quente. Estranho toda essa coisa das relações entre as pessoas, algumas parecem tão intransponíveis, inatingíveis, duras, ao passo que outras se abrem com uma facilidade surpreendente. Acordei nostálgico, vinha de sonhos bons, mas distantes da realidade. Talvez nos sonhos conseguimos ser tudo o que não somos e que queríamos ser na realidade. Em um dos sonhos eu era piloto de bobsled, em outro não havia magoado uma pessoa que magoei e afastei de mim. O calor, o fim do horário de verão, o início das aulas, essas coisas me deixam comovido como o diabo. Não é para tanto. “As agruras da vida, ai!”
SILÊNCIO
Nada vem à cabeça, um silêncio repousa violento sobre os ombros, comprime-os para baixo, faz com que todo um universo insignificante resuma-se apenas a uma sala com um corpo cansado sentado frente a uma máquina de escrever Olivetti Lettera. Como o tempo muda os hábitos e a forma de pensar não se sabe, ou se sabe, mas não tem conhecimento de tal pesquisa científica feita com diferentes espécimes do homo sapiens em diversas regiões do mundo, incluindo os aborígines australianos, as tribos peladas Kualulu e Kanun ao norte de algum país africano e os bons homens da Baviera. Fato é que não pensa como costumava pensar, não tem os mesmo hábitos ditos intelectuais, tampouco mantém o mínimo de organização socialmente exigido. Força relações infrutíferas, casos de amor frios e superficiais, amizades pífias. Há todo um universo na sala com o corpo e a máquina de escrever, que ganha forma nos pequenos objetos que o tomam sorrateiramente. Um boné velho ao lado esquerdo da máquina de escrever, em cujo lado também se encontra um frasco de perfume vencido, uma câmera fotográfica, um relógio de pulso que marca horas minutos segundos, um creme dental, cinco discos - dois de grupos desconhecidos -, remédio antialérgico, uma lanterna, a carteira, uma pilha de livros intocados por meses. Ao lado direito da máquina se encontra um óculos corretivo, um livro sobre jovens suicidas, uma caneta, um telefone, outros dois livros, uma luminária, algumas contas atrasadas. É um universo insignificante e silencioso, que primeiro existe por conta de um corpo e uma máquina datilográfica e que depois se expande em objetos perdidos, dispostos aleatoriamente com o passar do tempo, com o repouso do espírito inquieto, conformado a força. O corpo joga a cabeça para trás, frente aos olhos erguem-se prateleiras cheias de livros, milhares de páginas pensadas, escritas, inspiração. Olha para a máquina, a página em branco, o pensamento em branco, conclui que chegara ao fim daquela história, digita o ponto final.
PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CARNAVAL
Antes que eu vá tomar cerveja, um voo curto me veio à cabeça, havia me esquecido de falar sobre o carnaval. Bem, como no carnaval tudo acontece e ninguém fica sabendo, uma vez que os foliões estão na rua se embriagando como se fosse o dia do juízo final, muitas histórias surgem, muitos mitos, direi alguns que tomei conhecimento enquanto bebia todas em Diamantina: “a Hebe Camargo morreu, metástase, é muito comum isso acontecer”; “a Beyoncé foi atingida por uma bala perdida no Rio de Janeiro”; “o Tomate, cantor de axé, sofreu uma overdose em cima do trio em Salvador”; “o Dourado do BBB foi expulso do programa após bater em Dicésar, o travesti” etc. Bem, em relação à mentirada, é coisa de carnaval, não me assusta. O que me põe medo é o que nenhum de nós ouviu, é o aconteceu nos corredores da política, falcatruas disfarçadas com espuma, confetes e purpurina, enquanto toda uma nação se embriagava feliz da vida.
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- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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