Nada vem à cabeça, um silêncio repousa violento sobre os ombros, comprime-os para baixo, faz com que todo um universo insignificante resuma-se apenas a uma sala com um corpo cansado sentado frente a uma máquina de escrever Olivetti Lettera. Como o tempo muda os hábitos e a forma de pensar não se sabe, ou se sabe, mas não tem conhecimento de tal pesquisa científica feita com diferentes espécimes do homo sapiens em diversas regiões do mundo, incluindo os aborígines australianos, as tribos peladas Kualulu e Kanun ao norte de algum país africano e os bons homens da Baviera. Fato é que não pensa como costumava pensar, não tem os mesmo hábitos ditos intelectuais, tampouco mantém o mínimo de organização socialmente exigido. Força relações infrutíferas, casos de amor frios e superficiais, amizades pífias. Há todo um universo na sala com o corpo e a máquina de escrever, que ganha forma nos pequenos objetos que o tomam sorrateiramente. Um boné velho ao lado esquerdo da máquina de escrever, em cujo lado também se encontra um frasco de perfume vencido, uma câmera fotográfica, um relógio de pulso que marca horas minutos segundos, um creme dental, cinco discos - dois de grupos desconhecidos -, remédio antialérgico, uma lanterna, a carteira, uma pilha de livros intocados por meses. Ao lado direito da máquina se encontra um óculos corretivo, um livro sobre jovens suicidas, uma caneta, um telefone, outros dois livros, uma luminária, algumas contas atrasadas. É um universo insignificante e silencioso, que primeiro existe por conta de um corpo e uma máquina datilográfica e que depois se expande em objetos perdidos, dispostos aleatoriamente com o passar do tempo, com o repouso do espírito inquieto, conformado a força. O corpo joga a cabeça para trás, frente aos olhos erguem-se prateleiras cheias de livros, milhares de páginas pensadas, escritas, inspiração. Olha para a máquina, a página em branco, o pensamento em branco, conclui que chegara ao fim daquela história, digita o ponto final.
PILOTO
- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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