-“Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, já ouviu?
- Não. De quem é?
- Otto. Vou comprar.
- Hm.
Gregor um dia acorda transformado em um inseto, não transcrevo a cena porque das duas vezes que li, li de diferentes traduções. Gregor era um vizinho meu que não tinha televisão e escrevia duas vezes ao dia frases desconexas na parede do seu quarto – composto de cama e criado-mudo, só. Eu queria ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, mas o livro era uma chapa única de papel, de espessura significativa, sem páginas ou explicações. Joguei o livro contra a janela que se partiu e por ela entrou a mesma pessoa que não quero, mas quero, e que me persegue todas as noites. Procurou por seus discos da Edith Piaf e da Janis Joplin que ficaram comigo, sem pedir licença. Não há distância significativa entre os sonhos e a realidade, se desconsiderarmos a comunhão de lembranças permitida pela realidade. São planos distintos que coexistem, portanto a transa daquela noite foi computada entre as várias ocorridas no plano da realidade. Achou os discos e foi embora, por uma janela jamais quebrada por um livro chapa única de papel.
- O Otto e a Alessandra Negrini se separaram, ficou sabendo?
- Ah, é? Fiquei não.
- O disco foi inspirado na obra do Kafka.
- Hm.
