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V
Apenas elogiou os meus olhos por terem sido os primeiros a se fixarem nos seus sem receio enquanto falava de si mesma com convicção e desespero. Eu não era nada além de um estranho.

- Seus olhos são bonitos.

Após o furto forjei o acaso. Desfiz-me do que não era necessário, guardei comigo somente seus documentos e um cartão com seu telefone. Cortei o cabelo para que não me reconhecesse, marquei um encontro para entregar os documentos que havia encontrado na rua. Quando nos encontramos me agradeceu aliviada, não se importava em perder a bolsa e as quinquilharias que estavam dentro dela. Sentamos em um bar, tomamos alguns chopes, conversamos por horas sem mudar o foco do assunto: ela.

- Já assistiu “Amor em fuga”, do Truffaut?, ela me perguntou, por fim.
- Não, por quê?

Não me escondeu nada desde o primeiro momento. Era atriz pornô, não vacilou em dizer a mim, estranho. Disse que jamais imaginaria isso, não correspondia ao estereotipo de atriz pornô, entretanto não me espantava, para mim é uma profissão tão digna como a medicina, eu disse. Perguntou-me se eu era cineasta, mas a decepcionei, fui muita coisa, hoje sou apenas um escritor.

- Que droga, se você fosse eu seria sua Anna Karina e você meu Godard.
- Como escritor que sou posso lhe dar vida em um romance, ou escrever um roteiro em que você é minha musa.
- De que adianta se não farei parte fisicamente de sua obra?

Conheço um aspirante a cineasta, fomos colegas na faculdade, dirigiu alguns curtas, recebeu alguns prêmios. Há dez anos não nos falamos, mas o tempo jamais foi uma agravante. O assunto tomou outro rumo, sempre girando ao seu redor, sempre meus olhos nos seus. “Uma obsessão”, eu pensava.


IV
- Você me acha parecida com Anna Karina?
- Não.
- Sou mais bonita?
- Eu te amo mais.
- Quer dizer que não sou mais bonita que ela?
- Quero dizer que, independente de se parecer ou não com Anna Karina, você continua sendo minha atriz preferida, mais versátil que todas as outras.
- Diga para mim, oui, mon trésor! quando eu te perguntar se me ama, ok?
- Aham.
- Edgar, você me ama?
- Oui, mon trésor!
- Ai, me beije, Edgar.

Não estranho tê-la aqui comigo por dias incontáveis, facilmente se tornou uma obsessão. Talvez goste de sua companhia, ela não pergunta o motivo do meu silêncio, ela nunca quer saber sobre mim. Digo a ela que será personagem do meu livro, ela apenas concorda, sem entrar em minúcias. Impossível conceber literatura com temor, por isso me sinto bem com ela; prolífico, até.

- “Antes de tudo é necessário conhecer os homens tais como são”, Edgar, por isso estou aqui com você.

Eu também evito me aprofundar em suas palavras, entretanto as anoto em meu caderno vermelho, e a encaro como um quebra-cabeça. Dentre as poucas coisas que trouxe para passar alguns dias comigo há um pôster de uma pintura do Renoir, sobre o qual nada perguntei, mas que me rendeu três dias de reflexão, em que busquei entender a necessidade de sua presença na estadia temporária. Cheguei a algumas hipóteses:
(1) – Ela o comprou quando vinha para o meu apartamento;
(2) – É presente de uma pessoa querida, o pai ou um antigo namorado;
(3) – Ela é admiradora do impressionismo, considerando seu mais genioso expoente Pierre-Auguste Renoir...
Não precisei de três dias para chegar a tais conclusões, bastaram-me algumas horas. Qualquer exagero significa amor, l’amour fou.


III
Conheci Fernanda enquanto ela filmava seu trigésimo-alguma-coisa filme no ano; Mantinha a média incrível de atuar em um filme por semana, e apesar de ter dificuldade em se lembrar do texto, isso não se mostrava um obstáculo para sua extraordinária atuação – e para seu consequente sucesso. Não sou dado ao lirismo, o modo como se deu nosso encontro é um exemplo prático disso (há dez anos me descobri inepto a qualquer inclinação lírica, quando ainda cria na poesia e em todo universo que dela emerge, renegando meus ídolos, incinerando meus versos livres que apenas retratavam o pesar que jamais existiu em mim). Ela alongava a perna em uma barra – suas pernas formavam um ângulo de noventa graus –, vestida de bailarina, enquanto um homem de um metro e noventa, musculoso, lhe penetrava. O que eu fazia ali? Apenas curiosidade ou para presenciar a vida acontecer por outro ponto de vista, o da lascívia desmedida, e encontrar inspiração para meu romance de estreia; ou isto ou aquilo. Enquanto contorcia seu corpo, seus olhos encontraram os meus em meio à multidão e neles se fixaram; Experimentei uma espécie de hipnose, que durou cinco minutos até o diretor gritar “corta” para que pudessem mudar de posição. Fui até uma sala ao lado do set de filmagem, vi uma bolsa sob uma toalha, remexi seu interior, achei um documento “Fernanda”, fechei a bolsa e a coloquei embaixo do braço, esperei mais três minutos e fui embora sem ser notado.


II
Lembro-me do sonho da noite passada, um haraquiri. Busco no dicionário seu significado para ter certeza de que foi o que eu realmente sonhei: modalidade japonesa de suicídio, em que se rasga o ventre a sabre. É, foi isso. Com Jung sistematizei minha criatividade, hoje em sonhos encontro inspiração para tentar superar meu fracasso como literato, dá a volta por cima – me valho agora de recurso que abomino: o lugar-comum, e prolongo a minha estadia na subliteratura. Enquanto penso isso entro em meu apartamento; Chamo-o de “minha gaiola” que é com o que se parece, limitado a um quarto, um banheiro, sala conjugada com cozinha, área de serviço e uma pequena varanda com uma mureta de menos de um metro, a que evito absolutamente. Guardo as compras; Coloco o pacote de folhas A4 sobre a mesa, e as cinquenta gramas de maconha na geladeira. Olho ao meu redor, a mudança ainda encaixotada, para fora apenas o pouco que preciso para passar o mês “essa ideia maluca se dissipará logo”, mantenho a esperança, reluto em aceitar a mudança como definitiva. Enxáguo o rosto com insistência; Que ideia maluca; Vejo que não retirei a toalha da mala, seco o rosto nas mangas da camiseta. Controlo o furor, busco em cada palavra e gesto o método; A forma perfeita, a razão; Controlo a febre.


I
Ouço o burburinho que se inicia logo abaixo de mim, as pessoas continuam a chegar; Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada, a sala está longe de sua lotação, há uma maior concentração nas fileiras do meio, o público, noto, é homogêneo, jovens entre vinte e vinte seis anos, menos pela temática – que, aliás, não lhes é típica – que pelo hype do diretor, hoje meu inimigo, pouco antes meu amigo, muito antes meu desconhecido; Se penso no diretor a imagem que me vem é ele sorrindo, imponente como é, ajeitando o cabelo atrás da orelha, que revela o brinco de pirata com uma pedra brilhante, a mesma encontrada no anel pertencente ao seu indicador direito; O cheiro de pipoca me dá ódio, o abrir das latas me dói os ossos; Sinto meu corpo prestes a explodir, impossíveis que são as risadas hedonistas minutos antes do dramático de minha obra, a única digna de aplausos meu enredo wertheriano, enredo de minha vida, minha mão imprudente que esgana com todo o lirismo de meu poeta alemão; Há o horror em minha boca, o cheiro acre em minhas mãos; Espero as estrelas da noite, espero o momento certo para meu pulo sobre seu ventre, ah, ventre maculado!; Agora há o suor sendo expelido de todos os meus poros; A noite, a vida passageira; Ah ah ah ah ah!; Há essa jovem bonita que se senta próxima a mim, sinto seu perfume doce, e, por suas mãos vazias, tenho a sensação de que se a tivesse conhecido três ou dois dias antes poderíamos estar deitados no gramado do parque mas que assunto é esse?, o parque a essa hora já está fechado, então estaríamos deitados, nus, na cama de seu apartamento que prevejo pequeno , e ela leria para mim poemas oceânicos e diria que me ama mais que a mãe que perde o filho na confusão do trânsito, quando o filho, que se segurava na mãe, vê do outro lado da rua o ambulante de sorvete e sai em disparada para atravessar a avenida congestionada de autos que querem também chegar a algum lugar; Mas não há mais tempo para isso, há tempo apenas para a orquestra que se inicia em meu corpo, a orquestra da culpa, da culpa de Kafka, da culpa de Dostoievski, tão diferentes; Sou feito de antagonismos catastróficos; O cabelo loiro da mulher que diz ser princesa em um reino feito de pedra e de sal; Os princípios que me edificam cerram minhas mãos repetidas vezes; As luzes se acendem e todos olham para a porta que dá para o corredor, de onde surgirão minha musa e o diretor; A ansiedade toma conta do público e em cadeia as pessoas se levantam; Aproximo-me furtivamente; Ah, a doce demência que me toma os atos, mas sinto vontade de me desfazer em riso e pranto; Sou obrigado a engolir a seco o desespero ao ver meus algozes surgirem pela porta e serem efusivamente aplaudidos. Há momento especial para o crime?

"et tout le reste est littérature"

Eu me erro e creio que não seja por desleixo. Sinto que há uma conspiração contra mim, uma coisa maior, talvez divina. Tentei entender os motivos dos diferentes caminhos pelos quais seguem diferentes vidas, mas concluí que há um mínimo ponto de convergência que faz com que os caminhos sejam apenas aparentemente diferentes. É uma desgraça o que me persegue, me faz roto, todo errado. A minha vida alcançou um ápice natural, uma frágil estabilidade e agora pende à ruína. Não sobrou quase nada, e o pouco que resta está sujo e me enoja. Força pra me erguer nunca tive, não seria em um momento de fraqueza que eu seria forte. Também nunca tive fé que me levasse ao caminho da salvação, se é que esse realmente existe. Há uma só saída já buscada outras vezes por meios ineficazes, mas que me parece tão covarde que até nisso não encontro sossego. Os problemas pequenos escondem, resumem um inferno maior que existe por trás de mim, ou por dentro de mim, ou por fora, tanto faz, que é maior que o cotidiano, e acumulado desde existências anteriores. O meu legado está todo neste último lapso de racionalidade, apesar de me aparentar uma racionalidade confusa: é o meu máximo. Saio de cena sem deixar saudade, mas deixo muitos vestígios, muito impacto. Se a vida de um homem pode ser resumida em um dia, será este dia o mais perfeito resumo da minha vida, que outro dia não seria resumo, não falaria por mim. O que eu penso das árvores? São seres monótonos, parados frente ao tempo, tal como eu. E das crianças, o que penso? Condenadas por um pecado inexistente, impossível. Se me vou agora, felicito-me por não deixar filhos, agradeceria se fosse colocado sob uma árvore. Não há tempo, espaço, lugar; há, tão somente, esta existência bruta. Este é o meu fim e a minha descontribuição. Apagam-se as luzes sem deixar saudade e sem levar saudade, de nada nem de ninguém.

sábado

Na manhã nublada do sábado Edgar está sentado no sofá, a televisão desligada, pensando por onde começar e se sentirá saudade de tudo o que passou naquele apê/kitnet. Talvez sinta, então começa a arrumação, primeiro a estante de livros, mas antes liga o estéreo, coloca um disco dos Beatles, Rubber Soul, quer ouvir Wait pela última vez naquele lugar, pela última vez cantar “it’s been a long time, now I’m coming back home. I’ve been away now, oh how I’ve been alone”.
Disco rodando, começa então a guardar os livros, pega um por vez, abre-o, olha a data anotada sempre ao fim da leitura, relembra o que sentira ao ler cada um dos livros, é uma viagem ao passado. Viaja também por todo o Brasil, pela Terra. Ali há pedaços de baianos, alagoanos, mineiros, fluminenses, paulistas, gaúchos, americanos, russos, ingleses, espanhóis, argentinos, chilenos, alemães, portugueses, italianos, é a torre de Babel feita de papel. Sente saudade do que sentia enquanto os lia, alguns com marcas de desconhecidos, comprados de terceiros, não por isso de menor valor. Guarda-os, e junto deles ainda coloca algumas revistas, livros da faculdade, a máquina datilográfica. Encaixota agora tudo que está solto por cima de qualquer coisa, contas, um grampeador, um pinguim de plástico, quatro baralhos, algumas pequenas estátuas nordestinas de barro, para nos porta-retratos. Lembra-se do dia da foto com o sobrinho e com o cunhado, em que o sobrinho lhe dissera que o pai era mais velho que Edgar porque seu pai era maior que ele. Não era mais velho, mas não o corrigiu, tampouco tentou explicar, aceitou, talvez fosse verdade. Em outra foto revive a juventude, os amigos que há muito tempo ele não vê, distantes em outras vidas, em porta-retratos de outras pessoas. Depois foi a vez das roupas, tranquilamente arrumadas na mala. Quando terminou de colocar tudo nas caixas, sentou-se no sofá, ligou a televisão. Esperaria o dia acabar, dormiria ali mesmo, não iria a lugar algum. Acordaria no domingo, tiraria tudo das caixas, colocaria cada coisa em seu lugar. Repetiria tudo no fim de semana seguinte, a mesma coisa que tem feito desde o primeiro fim de semana que passou naquele apê/kitnet mal iluminado.

09/2009

despedida





Se não procedi nos conformes me arrependo e peço perdão. Pois que sabem da minha robustez, do meu caráter rochoso, não suportaria a vexação e o mordimento - danado bicho-da-consciência - ao avistá-los, seria demais para mim. Perdão Jandira, Sebastião, Manu (grande Emanuel)! Perdão Jacinta, Eleonora, Valdemar, Claudir! O peso que me esmaga tem alcance além do meu corpo, esmaga a minha alma, de tal forma que inculcado acredito ser isto o purgatório. Deixo vocês como autopenitência, já que remédio não há. Deixo-lhes e é para sempre, não tenho mais o tempo de vida vivida, não esperanço começar uma vida em outro lugar, este eu busco mas é para descansar a cabeça e repensar os erros, culpar-me, talvez encontrar a paz. Foram meus companheiros de vida, minha família, pois que sempre solitário, família própria não constituí. Os irmãos, todos mais velhos, há décadas se foram para São Paulo, nem lembro de suas fisionomias. A mãe e o pai, forasteiros neste lugar esquecido por Deus, se foram no mesmo ano, em mortes diferentes, eu ainda mocinho. Criei-me sozinho, com ajuda das negrinhas que cuidavam da Jacinta. E só agora, meio século depois, lhes revelo: Jacinta, meu primeiro amor, uma das negrinhas, minha pureza perdida. Jacinta foi minha namoradinha, sim, mas nunca soube. Desculpe-me Claudir, se ofendo-lhe a honra, mas isso foi coisa de criança, além do quê, Jacinta nunca soube. Sebastião, Tiãozinho do fubá, meu primeiro amigo, quando ainda mal balbuciávamos, amizade nas onomatopéias! Companheiros nas pândegas, boêmio dos boêmios, que saudade daqueles tempos. Lembra da Carlotinha? Naquela noite em que descobrimos o que uma mulher traz consigo entre as pernas? Safado assaltou-me a vez, persuasão qual nada! Manu, porque de Emanuel não te encontro, parceiro de cartas e bilhar, fincou-me no vício dos jogos e do cigarro, deu-me apoio sempre que precisei. Jandira, eu e o Claudir lhe vimos nua e crua, isenta de pelos – para a nossa surpresa! -, um dia, enquanto banhava-se no rio sob um luar mágico. Apaixonei-me por você (também!) , mas era tão doce, tão pura, demais para mim. Valdir e Eleonora, meus pais adotivos, embora, pela idade, fosse impossível serem meus pais. Com vocês aprendi, tornei-me algo melhor do que poderia ter sido, não tão bom, mas razoável, e isso é um grande feito. Vocês foram o que foram para este velho rabugento, e de rabugice fiz o que fiz, arruinei tudo, e deu no que deu, fazer o quê? Paciência, por isso vou-me embora. Todos criaram família, têm filhos, netos, somente eu permaneci sozinho, então creio que a dor da perda não existirá, e se vier a existir irá esvair-se ligeiro.
O homem caminha rumo ao fim, que pena só perceber isso agora, viveria mais, sofreria menos. Na idade em que me encontro, tornamo-nos complacentes, os absurdos não nos incomoda mais, não há tempo para raivas desnecessárias, lutamos o quanto pudemos, agora queremos descanso, os mais jovens que encontrem as soluções. Mas não me abstive de tudo, velho com modos de jovem, dá pra ser? A sabedoria que esperei adquirir em livros, adquiri em vida. É a minha bagagem nessa viagem em busca de mim mesmo, da minha querência, de caminho esquecido em um ano qualquer, ébrio entre sorrisos e lágrimas. Em um queremismo não-altruístico, tampouco patriota, gritam os muitos eus, enjaulados em mim: “Queremos sossego!”. Pois que quase alcançado, o sossego veio a ter-me repulsa, decorrência de um único louco ato.
Para onde vou não direi, mas mandarei notícias, se o perdão for realmente válido, mesmo que não, se sentir a falta dos desabafos, serão alcançados, incomodados, saberão de tudo. Repito: não tenho ninguém! Não se preocupem com a possibilidade de tornar-me um vagabundo, a vadiar sem rumo pelas ruas de um lugar qualquer. Vendi o que tinha, acresci ao que sempre guardei para no caso de um dia precisar, assim conseguirei viver alguns anos, humildemente bem, creio que serão os poucos que me restam.
Quando criança quis saber de onde eu vinha, questionava-me constantemente sobre a minha concepção, o motivo da minha existência - creio que toda criança já se perguntou isso. Perguntei a quem pude, todos me sorriam e diziam: “não tenha pressa em saber isso, um dia descobrirá sozinho, naturalmente”. Hoje acredito que essa era a resposta sempre ouvida porque aqueles a quem eu inquiria ainda não tinham descoberto, talvez nunca conseguissem, eu não consegui. Mas eu, criança sonhadora e inquieta, não satisfeito com o conselho, continuei no intento, e procurei em cima de árvores, embaixo de pedras, subi morros, adentrei matas, conversei com lagartas, preás, tatus, cantei aos pássaros, suei e cansei, talvez estivessem certos, eu devia era esperar, sem pressa, não dar importância à delonga. O problema é que tal delonga perdura até hoje, e o turbilhão em que lancei nossas vidas pacatas me serve, agora, de incentivo para dar continuidade à empreitada dos tempos de menino, em busca de uma explicação. Portanto, não será uma fuga, um exílio, será uma busca, uma permissão para o coração voltar a conversar com os bichos, uma vez mais.
Não cultivem mágoa, ódio. Deixem-me sozinho nessa dor, por mim provocada, pois sou eu o único merecedor desse fardo. Fiquem com as boas lembranças de todos nós, juntos, feito irmãos, por mais de meio século. Pecado seria não levar conosco ao túmulo tais lembranças. Eis que é chegada a hora de dizer adeus (para sempre?). Levo todos comigo com muito amor, muito carinho. Até mais adiante, se o adiante existir.

hidra

Eu deveria ter ouvido melhor os conselhos da minha irmã, é o que digo de início, talvez não explicite o motivo. Depois de uma queda na escadaria do Morro da Forca, em Ouro Preto, em que bati a cabeça em uma árvore, um zumbido me incomodava diuturnamente, até mesmo nos sonhos, quando me via neles, sei que o ouvia. Não procurei médico porque não gosto de ir ao médico, qualquer que seja, exceto uma vez em São João Del-Rey em que fui obrigado, já que desgraçadamente míope, a ir à oftalmologista, uma loira estonteante, com menos de trinta anos, lábios carnudos, rosto retangular, de maxilar firme, nariz fino e reto, olhos castanhos. Gostei apenas dessa consulta, aliás, não da consulta, da médica, que vestia uma calça branca, levemente transparente, colada ao corpo, cuja calcinha fio-dental era possível de se distinguir. Todas as outras vezes foram torturantes. Onde eu estava? Ah, sim, no zumbido.
Dores às vezes me são agradáveis, não pelo fato de gostar da dor, mas pelo fato delas me fazerem sentir vivo. Não respondo a estímulos externos com facilidade, um “oi, tudo bem?” passa por mim batido, e isso dificulta a minha convivência com os demais da minha espécie. Não respondo e quase nunca falo, apenas observo. Mesmo enquanto observo, o torpor me invade a consciência, então não penso em nada. De fato penso, mas é um pensar estúpido, não-reflexivo. Por isso as dores me são agradáveis. Mais que isso, elas me são úteis. É um incomodo latente na carne que a minha indiferença não consegue afastar.
Estava em uma boate, dessas que as pessoas cool vão para dançar músicas moderninhas, beber, cheirar e tentar ser mais cool que o próprio cu, permita-me ao menos um trocadilho barato. Na fila para pagar a conta e ir embora encontrei uma velha ex-namorada que me aborreceu por cerca de meia hora enquanto também esperava na fila. Apliquei meu golpe estratégico, fingi ter perdido a voz, devido às complicações respiratórias e por toda a gritaria da noite. Ela me conhece e é claro que não acreditou, entretanto uma fisioterapeuta – acreditei em tal diploma – que estava na minha frente na fila se virou para mim, colocou suas mãos aveludadas em meu pescoço, me fez uma massagem, e milagrosamente me fez recuperar a voz. Paguei a conta e a levei para o carro. Acho que os fatos narrados bastam.
Não transamos naquela noite, apenas dormi com a alegria barata de uma punheta mal batida e não finalizada. Telefone anotado no bíceps fraco, a deixei em casa depois de cheirarmos no painel do carro. Esqueci de contar que isso aconteceu antes da queda nas escadarias em Ouro Preto. Enfim.
Não sei quanto tempo depois, um mês talvez, depois da queda, telefonei para ela, sem lembrar de nome, nada, “alô” - “oi, quem tá falando?” – “com quem você quer falar?” – “é o Leo...” – “Leo?” – “é, da Velocet...” – “ah, oi, tudo bem?” – “tudo, é que eu tô com um zumbido no ouvido direito, e como você é médica pensei que poderia me ajudar...” – “sou fisioterapeuta.” – “isso, isso mesmo.”. Marcamos um encontro. Virei o mundo para descobrir o nome dela através da lista telefônica. Não foi tão difícil, procurei nas páginas amarelas.
Ela era bonita mas não chegava a uma deusa como a oftalmologista. Ruiva, sardas no rosto, pintas muito bem distribuídas pelas costas e peito. Magra, parecia uma menina de dezessete anos, não sei. Ana Mia o nome dela. Nome estranho, pensei, quando falado com ênfase soa como MAMA MIA! Coitada. Saímos para jantar e jantamos. Quase não falei, por sorte ela era extrovertida, dessas pessoas que bastam um aceno com a cabeça para continuarem a falar, talvez seja egoísmo, creio que não. Depois de três garrafas de vinho comecei a ficar alegre porque me sentia bem, ela me deixava à vontade, comecei a contar várias mentiras apenas para fazê-la rir, e riu. Riu tanto que me convidou para o seu apartamento, para onde fomos. Sem delongas, transamos, e muito, mas ela por cima, não permitiu que a tocasse, quis saber o motivo, ela respondeu “cala a boca, se não estiver bom assim a gente para”. Tudo bem.
Não, ela não sabia como tratar do zumbido no meu ouvido, recomendou que eu procurasse um médico, descartei o conselho. Com um mês de jantares e sexo ela-por-cima, começamos a namorar. Eu quase nunca falava, e quando falava contava somente mentiras. O zumbido ali. Com dois meses de namoro o zumbido começou a ter picos de intensidade que me descontrolavam, dor insuportável. Decidimos fazer nossa primeira viagem juntos, iríamos passar um fim de semana em Milho Verde, distrito de Serro, vilarejo tranquilo com bonitas cachoeiras. Estávamos ansiosos. Eu, nas minhas loucuras de homem arredio, pensava até em pedi-la em casamento. Estava apaixonado, absurdamente apaixonado.
Às vezes sinto que sou responsável por dez mil vidas. Meço meus movimentos e tenho a sensação de sempre estar sendo observado. Quando vou a um restaurante, se estou sozinho, penso que todos me observam comer, então erro a garfada, dou com o garfo nos dentes, derramo comida, derrubo a bebida, uma vez caí da cadeira de nervosismo. Meus poucos amigos eu não os procuro, é raro. Gostam de mim não sei o porque, e me culpo por isso. Culpo-me intensamente. Além do pessimismo habitual.
Em Milho Verde ficamos acampados. À noite resolvemos ir a uma das cachoeiras para comemorar dois meses e meio de namoro. Estávamos bêbados e cheirados, eu estava louco para pegá-la de quatro, dar-lhe uns tapas, essas coisas, não deixaria para depois. Descemos até a segunda queda da cachoeira do Lajeado, entramos na água e começamos a nos beijar. Ela propôs que tirássemos a roupa. Eu propus que transássemos em uma rocha que se parecia a uma cama, cerca de dois metros acima do chão. Subimos nus e, enquanto ela esperava que eu me deitasse para que ela se colocasse por cima de mim, a puxei com força e pedi que ficasse de quatro, “não, assim não”, pediu, mas insisti e à força a posicionei de bruços, ela gritou “para, você não sabe...” e se esquivou de mim, escorregando da pedra e caindo no chão, feito um pacote de cimento. Ou melhor, feito um balão de água. Ela se estourou, como se por dentro fosse apenas um gel ralo de cor azul-marinho. Eu não sabia se era efeito do pó, mas não, dizia a mim mesmo, “isso não é alucinógeno, porra!”, ela havia se estourado, e somente sobrara o couro, feito um boneco João-Bobo vazio. Peguei-a com asco e tristeza, meu amor, minha adorada... Tentei enchê-la com água do rio, em vão. Deitei-me no chão, a estendi ao meu lado, acendi um cigarro, enquanto pensava no que fazer. Fumei um maço sem encontrar solução. Pensei em jogá-la no rio, mas o corpo-pele não afundaria, além da dor que sentiria no coração em vê-la partir com as águas. Pensei em vestir sua pele, plano estúpido. Cheirei tudo que trazia comigo. Caminhei por horas na mata seca, o sol nasceria em pouco tempo.
Encontrei uma árvore no meio do nada. Uma árvore enorme, de galhos retorcidos. Repouso eterno ideal para a minha amada ruiva. Subi o máximo que pude, estiquei o corpo de Ana e a preguei nos galhos, braços e pernas estendidos, cabeça virada para o céu, ela estava entregue. Tentei descer mas não consegui, as minhas pernas fraquejaram. Enquanto tentava descer utilizando apenas a força dos braços o zumbido se intensificou, não suportei a dor, minhas mãos soltaram os apoios, caí da altura de quatro metros, batendo a cabeça no chão. Não sentia meus membros. Consegui abrir o olho direito, o sol começava a surgir e a visão que eu tinha era de um formigueiro a poucos centímetros de mim. O zumbido havia parado.

ANA PAULA ARREBATADA


para Laura Cohen

A.
Ele tinha as mãos grandes e pesadas que ao me segurar pela cabeça daquela maneira eu tinha certeza de que ele poderia estourar meu crânio quando quisesse. Quando gritei por socorro ele me empurrou contra a parede, onde bati a cabeça e caí no chão, batendo a cabeça novamente. Desorientada e surda percebi sua mão rasgar minha blusa e meu sutiã em apenas um golpe. Deu-me um tapa que me deixou cega por um tempo (segundos, talvez minutos?), e, embora houvesse visto o rosto dele e ele me fosse conhecido, não conseguia ligá-lo a ninguém, o susto e a surra varreram-no instantaneamente da minha memória.  Quase desfalecida, inutilizada, e incapaz de qualquer esforço, senti, enfim, uma sombra de carinho, as mãos ásperas levantaram minha saia até a altura do umbigo, desceram minha calcinha suavemente aos calcanhares, acariciaram minhas pernas e, com os lábios grossos, beijou-me a boceta. Inesperadamente me penetrou, violento (embora amável), esfolando-me por dentro até gozar, trinta segundos depois (ou terão sido trinta minutos?). Com a mão em concha aparou o sêmen que escorria pela minha perna e que havia se misturado ao meu sangue e me lambuzou o rosto com violência – o meu rosto cabia na palma da mão dele. Quando tornei a enxergar o reconheci, não contive a surpresa, balbuciei seu nome. Com um sorriso sarcástico e os olhos enfurecidos colocou as mãos em meu pescoço de forma suave e me estrangulou até a morte. Depois de morta ele ainda me fodeu mais três vezes. Por fim, escreveu com meu batom vermelho em todo o meu corpo algo que não consegui ler.

B.
01.
Luísa.

Sobre a arte de desarrumar as coisas Ana Paula sabia bem. Sempre que chegava em casa cansada e ansiosa ligava o mesmo disco do Echo and The Bunymen – cujo nome ela nunca disse, mas disse adorar e ouvi-lo repetidamente, com intervalos de dez a quinze minutos – e saía pela casa a desarrumar tudo. A sala sofria com os discos, os livros, as almofadas, os enfeites etc., que ocupavam novos lugares, trocavam funções, o vinil do Beach Boys era frequentemente penetrado pelo prego reservado originariamente para um quadro, sob as mesas o que antes estava sobre ela, sentado no sofá a carranca comprada em uma cidadezinha ao longo do São Francisco... Essa bagunça repercutia pela casa.

02.
Ana Paula.
É como se eu vivesse sentada no ombro de um gigante: consigo enxergar por cima tudo o que acontece, com nitidez e imparcialidade. É o preço que pago pela certeza da inconstância de mim mesma, consegue me entender? Trago comigo essa forte sensação de que posso não estar aqui com vocês amanhã. Brevidade, esse o sentimento.

03.
Edgar.

Pintora. Um metro e setenta de altura? “Ana, você precisa ser mais amável”. Eu me pergunto, mas não sei o motivo de não ter apaixonado a artista. Ana, você é um sonho / do qual não quero despertar / Meu amor por você é tamanho / bem maior que o céu e o mar. Eu fazia poemas para ela, dava flores, chocolates, ursos de pelúcia – uma vez ela me disse “obrigada” -, nada a comovia, sempre com o olhar forte, penso que exclusivo das pintoras. Ela me ensinava que o problema do romance contemporâneo não está na história, mas na narração; com o advento do cinema fazem-se desnecessários os romances cervantescos (crio um novo adjetivo). Nunca passei de escritor medíocre que narra lindas histórias de amor, todas com Ana Paula. Ela me mostrou o fantástico, afogou-me em uma lagoa, tive sorte por ter naquele dia a companhia de um amigo que me salvou do sinistro – havia apenas dito a ela, “Ana, quero ter um filho com você”. Na minha obra, preciso encontrar o sincronismo e o sinfronismo; na minha vida, preciso encontrar o amor de Ana Paula.

04.
Ana Paula.

Quero ser índio, exilar-me na mata, irmã dos bichos e de tudo. Minha beleza é, ao mesmo tempo, minha inimiga, atraio meus inimigos pelos olhos – sem que eles saibam. Se cruzo os braços e sorrio, tornam-me objeto, não querem ouvir a minha voz, querem-me nua, apenas, em uma cama larga, lençol cheirando a amaciante. Pinto na tela meus traços, deformo meu rosto com o pincel, e assim me amo, como creio jamais ter sido amada. Sou bela, enquanto tudo ao meu redor rui silenciosamente.

05.
Primeira narrativa.

Faltava uma explicação e muitas respostas - Quantos dias? Quantos nomes? Quantos lugares? ... – na casa vazia. Havia dia em que as cores das paredes faziam sentido, então permaneciam, embora no fundo não fizessem sentido algum. Quando não faziam sentido (para ela), ela usava o pincel amarelo – cujo número/modelo/marca/etc. é desconhecido – de tamanho médio para modificar a vida no quarto, com toda a calma de quem consegue controlar o desespero. “Não me falem em sorte, desde o início havia a probabilidade...”. O motivo da construção/criação era a desconstrução/destruição, com 50% de chance de resultado positivo.
Recortar livros, retirar inspiração, unir frases e colá-las em folhas A4 recicladas. O tempo retrátil, calendários sem lógica. Nada deveria ser vivido em sobriedade, nem mesmo os barulhos, os ruídos, chiados, miados. A divisão da vida em etapas renegada – e consequentemente modificada através de subtrações, adições e multiplicações. Ana Paula estava na etapa eufórica, racionalmente desvairada.

06.
Ana Paula.

Caos, palavra bonita que cabe, letra a letra, em quatro dedos, começando do mindinho até o indicador; escrevo com hidrocor preto a palavra na mão, jamais faria uma tatuagem assim. Há muita coisa para ser feita, porém estou aqui há duas horas, sentada no chão com um hidrocor preto, desenhando o rodapé da minha sala enquanto a vida acontece lá fora: é quarta-feira.
Ontem a semana acabou – nada parece ter prosseguimento – porque descobri a obsessão do homem em ligar o chão ao céu. Um homem estacou frente ao prédio mais alto que fica na avenida mais rápida da cidade. O vi inclinar a cabeça para trás e se emocionar, quase cair em pranto, se ajoelhar frente ao prédio e elevar as mãos ao céu. O homem quer crescer para o céu, terminar a tarefa mal sucedida com Babel. Para tanto se aglomera, limita os espaços para que os desavisados não tenham escolha e ergam os olhos - vejo os prédios como dedos indicadores do objetivo humano -; nada cresce para o horizonte, até mesmo o mar e sua imensidão horizontal não fazem sentido, o mar apenas liga lugares comuns. Vamos nos aglomerar, apertarmos-nos ao máximo até que toda massa convirja para cima, o céu é o limite.
Agora me encontro em minha sala, a semana suspensa, estou desenhando o rodapé que daqui percorrerá o resto do apartamento, seguirá para o corredor, entrará nos apartamentos, invadirá as escadas, percorrerá as ruas, avenidas, praças e becos, depois cidades, países, continentes. Minha arma contra os prédios é o rodapé.

07.
Edgar.

Você é uma mentira. Dei-lhe mais quinze minutos, porém você não apareceu. Embora fosse meio de tarde – ainda –, eu tinha certeza de que não chegaria a tempo. Descobri o que você é: uma mentira.

08.
Edgar.

Talvez seja necessário o sumiço, o desaparecimento, por isso não lhe procurarei mais. As coisas que fazemos – os erros! – nos doem tanto que nos escondemos do mundo – um mundo limitado a poucas pessoas, no caso. Ana Paula, você tem um nome bonito, os olhos... Espero que pinte um quadro do seu desaparecimento e depois o jogue fora, assim como fez comigo.

C.

01.
[O botão rec. do velho gravador é pressionado...]
Olá, oi, oi, Ouvinte. Não pretendo ser breve, porém quero soar natural, como um músico de jazz. Desculpe-me a voz rouca, tem sido uma madrugada difícil, limpar vestígios, esconder corpo, me lavar, comprar cigarros, obstaculizar o nervosismo – alcanço a voz de Deus? -, então fiquei assim, também estou cansado. Estão vendo? Quando quero ser sucinto consigo o contrário, a prolixidade me leva – nos leva – a assuntos outros. Espere um pouco. A criação demanda tempo, a pressa geralmente não leva a coisas boas, as minhas pernas agitadas, o suor frio... Não são bons sinais. Preciso me acalmar. Já lhes disse o que penso do amor? Não? Bem... Penso que não há nada mais catastrófico e belo que o fim e o início dos romances. Sim, porque tudo nesses dois momentos – antagônicos – cheira a loucura, a desespero, a uma vontade transcendental de estar próximo ou longe, dependendo. Caim, Abel e Deus, não vejo, no momento, outro exemplo mais contundente. Não consigo ser claro, corro o risco de continuar a falar e me entenderem mal. Vamos ao amor, puro e lúcido, que é a melhor maneira de me fazer entendido...

02.
Com um beijo no rosto me desperto, vejo apenas um vulto desaparecer, não sei em qual direção. O seu perfume permanece em mim, as suas mãos permanecem... Começo por achar tudo muito estranho: o telefone está tocando. Eu nunca tive telefone em casa. Em volta busco por minhas paredes, são elas, mas cadê as minhas cores? Tudo está branco, as paredes, os móveis, o chão, tudo. Outra coisa: de quem é esta roupa que visto? Tampouco este é o meu penteado. Digo o meu próprio nome, Ana Paula, até ele me parece uma imposição. Tudo é novidade desde que proferi a primeira letra, C.

03.
Quando acordei pude sentir o perfume dele (ele quem?) no meu rosto, embora soubesse que ele (?) não estava ali comigo. Conto muita mentira. Meu apartamento estava todo pintado de branco, absolutamente tudo. Não me lembrava de ter feito aquilo, também não estava de ressaca para justificar uma possível bebedeira e consequente amnésia alcoólica que houvesse motivado o branco de tudo e o esquecimento, então... Eu estava com um vestido de noiva – branco, de virgem – cuja origem também não me recordava. Senti uma necessidade angustiante das minhas tintas para poder colocar desordem nas paredes mas também as tintas estavam brancas, apesar da indicação nas latas: vermelho, amarelo, verde, violeta...
Fui à cozinha, bebi um copo de leite e comi um pedaço de queijo minas. Tentei abrir a janela da cozinha, mas não consegui, embora não estivesse trancada – talvez emperrada. Quando caminhava para a sala, quando pensava em ligar para alguém sem saber quem, o telefone tocou. Atendi.
- Oi?
- Ana Paula?
- Sim. Quem é?
- Zurzo.
- ...
- Você é pintora, não é?
- Sim, eu pinto quadros.
- Tenho um trabalho para você. Cinco mil reais por um quadro encomendado.

04.
Agora trabalho para o Zurzo. Não atendi ao telefone, mas – pergunto-me como – sei tudo o que é para ser feito. Serei sua pintora, ou melhor, a pintora de seu crime. Sim, eu sou pintora. Onde está o telefone que agora a pouco tocava? Concordo com Zurzo, para morrer é necessário existir, e, sendo a morte a condição que põe termo à vida, nada mais justo que pintar o corpo – imortalizado na tela – prestes à putrefação, dando-lhe status de obra-prima, e a seu autor, o assassino, a remissão dos pecados e a elevação da alma.

05.
O Intérieur (Le Viol) do francês Edgar Degas será a inspiração para o trabalho.

06.
Eu tinha um trabalho, e, como todas as pessoas que têm trabalho, eu precisava ir trabalhar. Tomei um banho quente, esfregando forte a esponja contra a pele numa necessidade estranha de me sentir limpa. O banho foi demorado. Quando me sequei com a toalha, algum pouco de sangue havia ficado nela, a fricção me ferira as costas.
Quanto tempo eu gastaria nesse trabalho? É preciso um bom tempo para terminá-lo. O que irei encontrar? Fazia-me perguntas. Procurava o telefone para ligar para Luísa, pedir que ela fosse comigo – ela estudava comigo no Atelier – mas não conseguia encontrá-lo, havia se misturado às paredes e aos móveis, eles e os objetos formavam agora um só corpo – branco e incógnito.
Vesti uma calça branca e uma camiseta branca – a repetição absurda do branco começava a me irritar, até as minhas roupas! Tudo fora pintado dessa cor –, caminhei até a porta, ou melhor, até onde eu sabia que ficava a porta, abri-a e andei pelo corredor que estava todo coberto de branco. Desci as escadas cautelosamente, medindo os degraus. Eu morava no segundo andar e, pelo tempo que desci as escadas, creio ter descido dez andares, até chegar a um vão branco, diferente do hall de entrada do meu prédio. Percebi uma porta aberta do outro lado do corredor, entrei por ela e, pelo vestido de noiva jogado no chão e pelas latas de tinta com indicação das cores, concluí que retornara ao meu apartamento – branco.

07.
Eu não tinha uma história, vi-me obrigada a inventar uma.

08.
Acho que me falta muito para conseguir sair do meu apartamento, ou não falta nada e eu já estou fora dele, distante, até de mim. Tateio as paredes – as minhas paredes – em busca de pistas, indicações, vestígios de um corpo estranho que adentrou a minha casa, porém nada encontro, ou encontro tudo, este branco não é meu. Percorro meu corpo com minhas mãos de estranho, me excito, não há alguém para me conhecer. Ana Paula, eu amo você. Ana Paula sou eu. Eu, estranha em mim mesma. O calor, o tempo, o barulho, não existem.

D.
01.
Escrevo do mesmo lugar dos fatos que aqui narrarei. Retifico-me. Não escrevo, já que não possuo lápis, caneta, pincel, giz, carvão ou qualquer outro material, e, antes, não possuo papel sequer. Narro, portanto. Mas não possuo voz, quais eram os desequilíbrios das minhas cordas vocais? Contradigo-me – sem dizer, de fato. Penso, portanto, e é através de pensamentos que narro.
Senti medo ao chegar aqui – lugar ermo e mal iluminado. Talvez tivesse sentido a sensação de estar sendo observada por um estranho de, não sei, mil olhos, com o poder de me olhar por todos os ângulos e prever os meus movimentos, ver-me nua – em extensão e profundidade. O silêncio impera, é impossível crer que ele fora rompido por um grito – lacônico – da mulher que se soube prestes à tragédia. Tudo é tão calmo agora, e antes...
Quando cheguei aqui tudo estava pronto, a tela, os pincéis, as tintas, apenas me aguardavam, ansiosos e tensos, curiosos com o meu talento. Apesar de mal iluminado, a iluminação disso decorrente é maravilhosa que chega a adiantar-me o gozo. Entendi, no momento, os homens na caverna de Platão, encantados com as sombras, criam-lhes a vida, encorpada, massificada, esdrúxula. Despi-me. A Vida é tão breve e falsa com o corpo a ponto de, no momento de fuga da alma, privar-lhe de cor e calor, tingindo-lhe a tez, secando-lhe os lábios. Nua, como a morta, eu era contradição, porque ainda quente embora tão bela quanto.
O motivo da morte eu não sei precisar, tampouco quanto tempo aquele corpo ali se encontrava. Tinha bonitos seios, como os meus, pequenos e rijos. O rosto não expressava medo, talvez tenha morrido dormindo, que é a maneira como espero morrer. Porém isso é pouco provável, devido aos chupões no pescoço, às marcas de unhadas e socos pelo corpo, à vagina maltratada. Não me cabiam/cabem suposições, nem juízos: ao trabalho, Ana Paula!


02.
A mão esquerda da morta segura um bilhete, amassado, preciso usar da força para pegá-lo. Não há assinatura, não há referência por nome, não nem mesmo gênero. Datilografado: Sinto que se eu lhe dissesse o quanto temia a sua fúria, se soubesse quão forte era, riria de mim, dos meus medos. Agora que é sombra ignota, sua presença é brisa morna, sua ausência mitiga o meu pesar. Sim, é luz turva e isso me entristece, pois era tão jovem, um rio desatinado, mal sentira o gosto da vida - o fel da vida-, tornou-se sombra em dia nublado. Era tão jovem, punha-me tanto medo, restara sombra em meus olhos, fúria em meus olhos.
Como saber quem escreveu o bilhete, se foi a morta ou se foi Zurzo, o seu algoz? Uma coisa é certa, o bilhete não foi colocado em sua mão.

03.
Por todo o corpo está escrito, a batom vermelho, “o desejo tem seu preço”.

04.
A morta é tão bela! Os lábios, tão perfeitos, tão irresistíveis. Beijo-lhe a boca. Não resisto e deito ao seu lado. A sua pele apenas era mais branca que a minha porque em minhas veias e artérias ainda corria sangue. Cabelo de fios negros, levemente ondulados. Acaricio seu rosto, desço a mão pelo pescoço, pelos seios, ventre – não resisto a curiosidade – penetro a sua vagina, onde há resquícios de sexo, o último, talvez delirante.

05.
Cortei a lona e a grampeei em forma de cruz, primeiro a parte superior, depois a lateral, a parte inferior, e a outra lateral, em sentido horário. Com um rolo de espuma dei dez camadas de tinha acrílica branca na tela, o que levou certo tempo. Com um lápis desenhei a morta na tela, resolvi colocá-la deitada em um campo de lírios, minha flor preferida. Pintei as partes mais claras da morta com a cor ocre, utilizei sépia para as partes mais escuras. Preparei a tinta vermelha e realizei a veladura. Retornei com a ocre misturada a tinta branca, para abafar o vermelho, e para as partes escuras fiz uma pasta com cores frias: violeta, verde e azul da prússia, esta mais escura que o próprio preto. Depois pintei os lírios, o sangue e o gozo de Zurzo. Por fim, com o corpo seco, pintei com batom o que havia sido escrito no corpo da morta.

06.
Retiro o lençol que cobre um espelho que está próximo ao corpo da morta e me pinto igual a ela e igual ao quadro, escrevo com batom vermelho a mesma frase em mim. Admiro-me no espelho e sinto uma excitação incomum, uma violência a me arder o corpo. Algo escorre em minha virilha, passo a mão e de mim sai gozo e sangue. Olho para o corpo estirado no chão, para o corpo pintado no quadro, e para mim no espelho. Reconheço-me no chão, reconheço-me na tela, reconheço-me morta.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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