Eu me erro e creio que não seja por desleixo. Sinto que há uma conspiração contra mim, uma coisa maior, talvez divina. Tentei entender os motivos dos diferentes caminhos pelos quais seguem diferentes vidas, mas concluí que há um mínimo ponto de convergência que faz com que os caminhos sejam apenas aparentemente diferentes. É uma desgraça o que me persegue, me faz roto, todo errado. A minha vida alcançou um ápice natural, uma frágil estabilidade e agora pende à ruína. Não sobrou quase nada, e o pouco que resta está sujo e me enoja. Força pra me erguer nunca tive, não seria em um momento de fraqueza que eu seria forte. Também nunca tive fé que me levasse ao caminho da salvação, se é que esse realmente existe. Há uma só saída já buscada outras vezes por meios ineficazes, mas que me parece tão covarde que até nisso não encontro sossego. Os problemas pequenos escondem, resumem um inferno maior que existe por trás de mim, ou por dentro de mim, ou por fora, tanto faz, que é maior que o cotidiano, e acumulado desde existências anteriores. O meu legado está todo neste último lapso de racionalidade, apesar de me aparentar uma racionalidade confusa: é o meu máximo. Saio de cena sem deixar saudade, mas deixo muitos vestígios, muito impacto. Se a vida de um homem pode ser resumida em um dia, será este dia o mais perfeito resumo da minha vida, que outro dia não seria resumo, não falaria por mim. O que eu penso das árvores? São seres monótonos, parados frente ao tempo, tal como eu. E das crianças, o que penso? Condenadas por um pecado inexistente, impossível. Se me vou agora, felicito-me por não deixar filhos, agradeceria se fosse colocado sob uma árvore. Não há tempo, espaço, lugar; há, tão somente, esta existência bruta. Este é o meu fim e a minha descontribuição. Apagam-se as luzes sem deixar saudade e sem levar saudade, de nada nem de ninguém.
PILOTO
- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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