Quero escrever do início de tudo, do início do início, para contar aos poucos que se dispõe a me ouvir o quão valente era o Dragão Covarde, à sua maneira, desafiando cordilheiras de sal iodado 1 Kg . Não faria mal se me dispusesse a mentir sobre alguma coisa que viveu o pobre herói de ninguém, não corromperia a história, não deslocaria o eixo da Terra, não tornaria cristais de açúcar o mel – ficção existe de qualquer modo e vai além.
Não existe Dragão algum, em carne e sangue e fúria e fogo, além de uma metáfora barata, mal empregada, que designa um homem desonesto e desonroso, fraco de força física – faltam-lhe músculos e sobra tísica com exagerada gravidade -, espírito de porco, de rato, que sente ódio e vergonha de si mesmo.
Mas, antes, para que o conheçam – conhecer a mim, portanto – é preciso dispensar explicações sucintas, repletas de lacunas, e lhes contar a estória do início do início do fim, a partir do momento em que nasce para o Dragão uma prostituta existencialista, leitora de Kierkegaard, Heidegger e Sartre, e apaixonada pelas películas da nouvelle vague.
