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do conto "ana paula arrebatada", de 2010, que dediquei a minha querida amiga

04.
ana paula.
quero ser índio, exilar-me na mata, irmã dos bichos e de tudo. minha beleza é, ao mesmo tempo, minha inimiga, atraio meus inimigos pelos olhos – sem que eles saibam. se cruzo os braços e sorrio, tornam-me objeto, não querem ouvir a minha voz, querem-me nua, apenas, em uma cama larga, lençol cheirando a amaciante. pinto na tela meus traços, deformo meu rosto com o pincel, e assim me amo, como creio jamais ter sido amada. sou bela, enquanto tudo ao meu redor rui silenciosamente.
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neanderthalensis [2011]

cara de sono por dormir cedo e acordar tarde (sente-se mal por acordar em pleno século veinte y uno, depois de dormir por tanto tempo, cinquenta mil anos?). Magnífico homem de neanderthal, musculoso ser de fala lenta e nasalada, de você herdamos o mundo.

temos sintetizadores, extasy, lsd, e a moda pós-anos 80, veja que magnificência, tome um pouco para você. vista-se, brilhe e dance, querem-no nos museus, nas boates e em todos as bocas de fumo, querem-no em tudo o que há de muito seguro e em trezentas toneladas
de livros 
 tome, leia hilke, baudelaire, pound, camões; ouça a voz de deus, ouça wolfgang amadeus mozart; experimente uma de nossas mulheres, selvagens como você, loucas atrás de gozo e poder.

recupere o tempo perdido, participe das orgias romanas. venha por aqui, calígula está a te esperar. mas antes que se vá, peço-lhe, mate jesus cristo, já que não é a imagem e semelhança de deus (é meu irmão, mas sou homo sapiens, sou a identidade do deus criador, que antes de nós criou vocês, consegue sentir a ingratidão da de-semelhança?). seus pares 
se foram há vinte nove mil anos, estão a sós, mate-o.
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cinza [de “o gozo nos afoga”, 2010]

poeira e dor de cabeça
sophia na cama dizendo coisas sem nexo.
a fumaça do cigarro subindo e o ar
parado...
toda a transmutação da carne antes do sexo
encontra na antessala:
a rinite alérgica
a falta de tesão, de libido.
incólume, só o desejo pela palavra:
“sou aquela que irá te perseguir na cavernosa madrugada
aquecerei o seu sexo, homem-carne-viva”.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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