ÓPERA

Daqui de onde estou posso ouvir o ruído do trem que lentamente arrasta-se sobre os trilhos - é como o ruído dos meus dentes, do movimento horizontal do maxilar, da mordida errada, da mordida no ombro. Daqui do escuro posso sentir a noite, fria e úmida, e ver que o silêncio é uma ópera da culpa, da culpa de Franz Kafka. É como a culpa que há em mim, não musicada. Os dentes rangem, estive com eles ontem, a sós; estamos com o trem esta noite, por alguns minutos.

PORTUGAL QUE NUNCA CONHECI

Parei a bicicleta próximo a um banco no qual me sentei, à margem do Tejo. O Tejo, o mesmo que corre Trás-os-Montes, o Tejo de Portugal. Peguei da cesta um vinho comprado em Torres Vedras – aventurava-me sozinho em Portugal, buscava a mim mesmo do outro lado do Atlântico. Um português havia me dito que para olhar para si mesmo é preciso, antes, olhar para o Tejo, lá me encontrava, admirando-o. O sangue dos portugueses é salgado, é água do mar, eterno porto do mundo, porém não sabia eu que o olhar de saudade português não está no Atlântico, bastaram dez minutos no banco para perceber isso: “a beleza do Tejo espanca, flor bela no jardim do mundo”, me disse uma senhora de expressão carregada que recusou o meu convite para o vinho. Voltei à bicicleta, pus-me a pedalar na ciclovia, me encontrei em Caieiro pintado na pista, “o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.” Foi preciso atravessar o Atlântico para fazer as pazes comigo mesmo e com a minha terra.

NEGRO LADINO

Plástico. O grande moço do século vinte e um está vindo. Sim, vem trôpego ao som da nova música do novo milênio, dessa década – houve um prelúdio? Talvez soubessem nos passos, a jaqueta é de couro ou talvez de brim, o cabelo bagunçado - esquece, as roupas são sempre as mesmas. As mesas ali no canto, aqui em baixo, em cima (profunda obsessão pelo desnudo). Sim, tudo está à mostra e à venda, o amor, olha ele de volta, agora em promoção, 100% off. A música do novo milênio é feita por sintetizadores, não há mais poesia, há o que se escreve e desvaloriza e há também o que se canta – disfarçado em sintetizadores. O amor, esqueci-me dele. Há um totem de roupas das décadas de 80 e 90 e anos 2000 admirando-me, homem enclausurado no medo de mim mesmo, fechado por paredes e fotografias de anônimos que amo tanto - sempre há amor por tudo que não se sabe, ou se sabe, eis o paradigma do pré-século veinte y dos, XXII. O amor não serve para as poesias, as poesias não servem (para si próprias) porque existem os sintetizadores e tudo que não se sente. Dói tanto tomar essas drogas, o amor é mais uma delas, bem aqui, nessa cadeira azul, de espaldar reto, tão démodé.
Letargia ou pode ser que sim. Pode ser que sim, grita enquanto frita dois ovos. Pode ser que sim, repete a televisão com antena improvisada, no volume máximo, chiando. O grande poder da dicção (o grande desafio ao olhar para baixo: dicção). Pode ser que sim, cristão, mas para você, não! Berra um agnóstico a um evangélico que o aborda, enquanto o berrador caminhava, distraído. Tem alguém aí? FREDERICO! Berra alguém para um andar acima dos ovos fritos, fazendo um amplificador com as duas mãos. Pode ser que eu diga sim, responde a mulher apaixonada ao namorado apaixonado, futuro noivo, futuro casamento apaixonado, futuros ovos fritos, e toda a letargia do sexo. A magnitude do amor é a dor (todos nós sabemos da finitude do amor); pode ser que sim, que eu deixe de amá-lo amanhã à tarde, por volta das três horas. Para tudo. Por que tudo sempre retorna ao amor? Retornemos. Quer que eu ponha o sal nos ovos? Essa a letargia. Não há nada mais absurdo, catastrófico e misterioso que o fim e o início dos romances. A televisão está ligada? Põe no oito. Ei, tá me ouvindo? Pode ser que sim.
Neanderthalensis. Cara de sono por dormir cedo e acordar tarde (sente-se mal por acordar em pleno século veinte y uno depois de dormir por tanto tempo, cinquenta mil anos?). Magnífico homem de neanderthal, musculoso ser de fala lenta e nasalada, de vocês herdamos o mundo. Temos sintetizadores, extasy, LSD, e a moda pós-anos 80, veja que magnificência, tome um pouco para você. Vista-se, brilhe e dance, querem-no nos museus, nas boates e em todos as bocas de fumo, querem-no em tudo o que há de muito seguro e em trezentas toneladas de livros. Toma, leia Hilke, Baudelaire, Pound, Camões, ouça a voz de Deus, ouça Wolfgang Amadeus Mozart, experimente uma de nossas mulheres, selvagens como você, loucas atrás de gozo e poder. Recupere o tempo perdido, participe das orgias romanas, venha por aqui, Calígula está a lhe esperar, mas antes que vá, peço-lhe, mate Jesus Cristo, já que não é a imagem e semelhança de Deus (é meu irmão, mas sou homo sapiens, sou a identidade do Deus criador, que antes de nós criou vocês, consegue sentir a ingratidão da de-semelhança?). Seus pares se foram há vinte nove mil anos, estão a sós, mate-o.
1700 ou século XVIII. Ah, sim, é um vulcão que vem de dentro com uma força libidinosa. LI-BI-DI-NO-SA, experimente dizer essas silabas lentamente, agora aumente o prazer de tal pronúncia. Vem assim de dentro e explode em sorriso, ah, quase posso sentir o nada e seus derivados. Tente a coisa tal que cobre a pele em arrepios - perdendo toda a eloqüência. Faz contrair os músculos, movimentos obsoletos, girando como um cubo. O gládio cortando a glande do glabro, por onde seguir? Onde está a eloquência? Ah, quem me dera ser um poeta romântico, boemia, boemia, cante-me o fausto das suas noites, e me faça morrer de amor – faça-me ao menos amar; ontem à noite era meia-noite de sol, não havia lua, era tão bonito, pensei que iria explodir.

MANJAR TURCO

Dream de pardal. Pardal sonhou que eu era um pardal. Ouvíamos Cat Power na varanda. Eu dançava feito tolo e cantava errado, enquanto ela permanecia na rede, fazendo bolhas de sabão e sorrindo. As paredes da minha casa eram lilases, o chão, azul claro – ela gostava dessas cores, então era assim. Pardal piou, é sonho bom. Pardal é o pássaro que eu queria ser. Quem é que cria pardal em gaiola? Quem é ela? Há tantas cores e sonhos e flores. Acordado eu queria abraçá-la sempre que a via sorrir, indiferente; em sonho eu dançava, ela, na rede. Pardal piou, é sonho bom. Mister, o coelho. Mister Quick Tick Wick tinha diamantes nos dentes e velejava por prazer nas tardes quentes de sábado. Mister Quick Wick Tick era um coelho marrom claro que não gostava de cenoura, era carnívoro por ideologia. Mister Tick Quick Wick tinha um cajado de ouro, com o qual iria atravessar uma avenida movimenta de Mônaco, mas foi atropelado por uma Mercedez Benz. Afogado. Bebo água como quem mata saudade e cato madrepérolas nas águas de sal. Fui menino, mineiro, banhado em rio, atravessei no braço o São Francisco, as Velhas, e o Gorutuba – menorzinho, mas somente velho, barrigudo e fraco é que vim conhecer as maravilhas do mar. Conheci bem, já no primeiro mergulho afundo encantado, encontrei a tal Yemanjá. Peito curf curf curf. O peito magro faz curf curf curf, peito magrinho faz cara de dor e de impaciência, nariz congestionado. Nariz congestionado inspira forte, dá um nó na garganta, e o peito curf curf curf, papel higiênico. Infla o peito e põe toda a força, expira o nariz congestionado, ai! A boca seca toma a cápsula colorida, vermelho e amarelo descem a goela. Deita na cama o corpo cansado, ai! Peito magrinho repete curf curf, nariz congestionado, alérgico a poeira, inspira e expira forte no papel, ai! Fecha os olhos melados e ardidos, tenta dormir, mas o peito curf curf, o nariz congestionado, alérgico a poeira, ai! A única coisa a fazer é tocar um... Paula, a hipocondríaca. Comprei um relógio novo, Paula Tina não foi comigo. Hipocondríaca, tinha medo, podia, de repente, morrer de AVC ou ataque cardíaco. Não bebe água do filtro para evitar pedra nos rins, água mineral, só fervida - quem sabe de onde vem? Carrega remédios nos bolsos - não usa bolsa, evita artrite -, no esquerdo, colírio para as lentes, no direito, neosaldina e luftal, nos de trás ela trás lenço e band-aid. Em casa quis lhe mostrar o relógio, mas ela já havia tomado rivotril. O que parece ser, mas não é. A menina bonita na frente do palco grita bis, ela é como Paula Tina que quer se casar - novamente e rapidamente. Quem é que se importa se a minha porta é uma porta torta, se o Jeffrey Eugenides diz na orelha estar solteiro e morar em NY? Continuo não acreditando nas verdades... Ontem tomei um capuccino à meia-noite com a comunicação social, e era esperta, ainda assim consegui dormir pouco depois. McLuhan disse que o meio é a mensagem, J-P. Sartre disse que o inferno são os outros, mamãe disse que leite com manga faz mal, e eu, o que é que vou dizer? Nada, ponto final

CORES

Roxo. O céu acorda roxo, em tom vivo e sóbrio, dois sóis irradiando desejos contidos. Em um campo infinito de violetas, Inês tem flores nos cabelos e no regaço, o corpo nu, nas mãos duas pedras de ametista refletem em seus olhos sua cor. Uma brisa fresca desce os montes, traz estrelas e um cheiro perfumado, inebriando-lhe sexo, atiçando-lhe a língua, manhã de mistérios.
Cinza. Poeira e dor de cabeça, Sophia na cama dizendo coisas sem nexo. A fumaça do cigarro subindo no ar parado é serpente a rastejar no nada. Toda a transmutação da carne antes do sexo encontra na ante-sala a rinite alérgica, falta de tesão, de libido. Incólume só o desejo pela palavra: “sou aquela que há de te seguir – na cavernosa madrugada, aquecer-te-ei o sexo, homem carne viva”.
Amarelo. Quase eu soube na borda de um George Orwell, mais opaco em um Cyro dos Anjos, mínimo em um Honoré de Balzac e em um Cabral de Melo Neto, ambos da mesma coleção, todos dispostos na prateleira de madeira envernizada. Por pouco não aprendo em cinco quadros, embriaguei-me em duas garrafas de rum, senti como se fosse vivo, excêntrico, laranja-lima, limão - não sentia minha língua. Preciso de boas escolhas, saber por onde começar neste corpo bem delineado e jovem, de formas humildes, em um quarto fechado, apertado e mal iluminado, a cama de solteiro, amarelo-amor.
Azul. Abro os braços para um mergulho pesado na imensidão azul-marinho dos olhos de Marcelle, que não diz nada, apenas aceita que eu me afogue, profundo. Torno-me, então, alma, flutuo no céu nu de nuvens, coisa qualquer que se sente completa. Sou, agora, manto a envolvê-la, travestida de Maria, que respira fundo e goza, santa e manto sagrados, safados, religiosidade blasfema.
Verde. A mata virgem abraça Sophia, que é feita amazona, guerreira destemida, emprenhada pelo vento. Por dentro, o inferno úmido, por cima, o mar orgânico, de folhas e troncos, e, agora, de Sophia, nua na margem do rio, entre serpentes que se perdem no seu corpo violento, percorrem seus seios, escondem-se em sua penugem selvagem. São uma só, mãe e filha, mata e Sophia, guerreira e desbravada, iniciada por seres místicos nos segredos do amor, orgasmo que ecoa entre as árvores, espanta os pássaros.
Branco. O que se diz claro é o invisível das cores, infinito vazio cheio de mansidão. Aquela calma que nos arrebata, do cheiro de terra molhada, de chuva que cai sem pressa, do olhar a perseguir o horizonte, descansado e sem grandes amores que lhe acelerem o coração. Todo o suor de quem ouve uma voz suave que diz baixinho “dorme, meu filho”; um casal virgem que se ama tímido, sem barulho; uma morte sem dor no lençol puro, véu da noiva.
Laranja. Inês é laranja, é tudo que me estremece, toda falta que me sufoca, é, também, Inês me dizendo que Cecília lhe disse que nem tudo são sonhos, mas tudo é vão, inclusive os sonhos. É laranja Inês que não existe, mas que é uma presença absurda, embora Cecília exista, mas nunca a tenha encontrado. É laranja, é adocicado às vezes, gosto de fruta cítrica. É sonho, é vão, como o sol manso às sete da manhã dizendo que o dia começará abóbora, é epiderme que se confunde com cenoura.
Vermelho. Corre gosto de pedra de tinta viva vinho tinto tinta de caneta esferográfica cortina persiana caderno de poesia o vento balança as roupas no varal ama sexo quente em tarde de sábado das férias de verão gato miando às três da manhã galo cantando às cinco e quarenta e cinco da manhã homem assassinado com dois tiros no rosto e o sangue a escorrer luz do cabaré mulher de cabelos curtos negros e crespos que cobra dez reais por hora quatro posições ser sem nome que admira a lua em algum lugar desconhecido antes das dez da noite percorre morros de sorte e de saudade e de gozo faixa de pedestres grita alegre ano que vem tem carnaval espreguiça na espreguiçadeira dois acordes de violão a cama o seu lençol e tantas lembranças viva o feriado de sete de setembro seja o motivo que for máquina datilográfica na cor que digita o ponto final.




seguindo o conselho da Laura de transformar versos em prosa. ótimo conselho, por sinal.

SEXTA-FEIRA À NOITE

-Prefiro a face crua das coisas. When the sun goes down soa poético no inglês, no português não. Também não me agradam os marxistas, Bretch é um saco. O Prêmio Stálin da Paz era dado aos companheiros, sabe disso, né? Apenas comunistas. Até o Fidel ganhou. O nome se tornou contraditório, Stálin e paz, depois o mudaram para Lênin. O homem, Edgar, tende a essa guerra de vaidades, as teorias são perfeitas, mas impraticáveis. Assim como a poesia inglesa, norte-americana, russa, alemã, chinesa etc, no português. Não vejo sentido.
-É. Mas o que isso tem a ver com Massive Attack?
-Estamos há três horas ouvindo o mesmo CD, é a terceira vez que toca.
-Eu gosto, OK? Estamos em minha casa, ouvindo no meu som. Além do mais, 100th Window é uma obra-prima.
-Deixe de papo furado, ponha este aqui, comprei ontem.
-Push the Button do Chemical Brothers? Eu tenho esse, não vai tocar isso hoje, não. Você fuma essa parada letárgica e quer ouvir Chemical Brothers? Vá...
-Você é um saco, cara.
O fã do Chemical Brothers vai embora do apartamento de Edgar, que não tem paciência para amigos agitados. Eles pensam que tudo está resumido em uma pequena lista? 100th Window começa a tocar pela quarta vez.

GLORIOSO DO MONTE BELO

O dedo indicador da mão esquerda em riste, irascível, olhos agudos, Jorge esbravejava:
-É questão de higiene pública! Tão entendendo? Higiene pública!
Em seu rosto corado e gordo escorria suor, sua imagem era cômica, os “acusados” riam disfarçadamente, porém se mostravam assustados.
-Onde já se viu, em um condomínio familiar, um grupo de jovens de boas origens comportarem-se de tal maneira, como se macacos fossem, pior, como se cães fossem, vivendo de praticar obscenidades, a espalhar seus gritos animalescos por todo o prédio, promiscuidade desenfreada. É possível identificar as vozes dessas donzelas, vozes não, ganidos, e o pior, ao mesmo tempo, junto com os gemidos e as gargalhadas destes rapazes. É uma injúria, uma afronta à moral, caros vizinhos, estas meninas podiam ser minhas filhas, e, de uma coisa tenho certeza, jamais permitiria que se comportassem como estas tais! Se querem tanto fu... praticar essas obscenidades que vão morar em um motel, lá não incomodarão ninguém, tampouco espalharão a rebeldia e a desenvoltura nas mulheres do nosso prédio. Voto pela expulsão destes jovens, com base no art. 12 do nosso estatuto social.
Tirou do bolso um lenço, passou-o na careca e na testa, respirou fundo, ar de vitória, preservação dos bons costumes, pensou. Sua mulher, solidária, abanou-o com a bolsa, soprou-lhe o rosto, para retribuir o carinho Jorge repousou a mão sobre a sua coxa, trocaram sorrisos.
Os jovens que promoviam os bacanais foram expulsos do condomínio, glória de Jorge. O ambiente familiar do Condomínio Monte Belo devia ser preservado. À noite, Jorge, para comemorar a boa oratória, abriu o Jack Daniel’s 25 anos que recebera de um cliente, “esse é para ocasiões especiais, hein Jorge”. A esposa lhe serviu frios. Levemente embriagado, disse à mulher que "queria" naquela noite. Transaram por baixo do lençol, ele vestindo pijama, a luz apagada. Após, silêncio e sono. Enquanto isso, no quarto ao lado sua filha de 17 anos refletia se deveria abortar ou contar aos pais sobre a gravidez. Devia estar no segundo mês, se abortasse ninguém saberia, ainda não contara ao namorado, no outro dia pensaria melhor.
Na manhã seguinte, Jorge foi para seu escritório de advocacia alegre com a vitória no condomínio, chegou a cantarolar durante o café. Tão logo saiu sua mulher ligou para a recepção, falou com o porteiro que terminaria o turno em 10 minutos “estou esperando”. O porteiro e Jorge trocavam cumprimentos todas as manhãs, Jorge não lhe olhava nos olhos, não via o sorriso malicioso do porteiro. Quatro dias depois a menina abortou com remédios, uma amiga lhe indicou, o namorado sequer soube, tampouco os pais. Jorge era um semi-deus.

RISOFLORA, NÃO ME DEIXE SÓ

Sinto-me desperta e quase posso ouvir a sua respiração, seu hálito quente. Pensa que há na varanda alguma foto rasgada em pequenos pedaços? “Odeio pose, vá, vamos fingir naturalidade.” Os dias são longos demais, as semanas. Faz muito calor e me pego distraída acompanhando com a cabeça o movimento do ventilador, com os olhos os ponteiros do relógio, como a cortina balança com a brisa morna. Sei que há no chão do meu quarto 135 pisos, cataloguei todos os meus livros, discos e filmes, coloquei fogo nas listas “queime tudo que é exato demais”. Escrevi nas caneletas (?) que protegem os fios elétricos trechos de cartas suas com hidrocores verde, vermelho e azul, ficou bonito. As fotos da Debby Harry que você tanto gostava estão coladas em minha parede, acima da cabeceira da minha cama, inclusive aquela em que ela foi fotografada por baixo, vestida apenas com uma camiseta “nos anos 70 uma depilada assim era raro”. Tem sido difícil adaptar-me à língua local, não faz ideia do que passo, eu que sempre vivi aqui. Olho para a minha cama e me lembro da primeira vez que entrou em meu apartamento, trôpego, achou estranho eu lhe chamar para o meu quarto, para a minha cama. Quando fervíamos perguntei se tinha camisinha “droga, esqueci a camisa-de-vênus”, rimos tanto daquilo depois. Dói, não imagina o quanto. Não entrei em nenhum carro desde a última vez que lhe vi. Todas as noites quando chove escrevo em meu peito I must get back to the sea, e aperto meus seios, como naquela noite chuvosa da nossa primeira viagem juntos em que quase não tocamos os pés na areia da praia. Olho-me no espelho e me risco toda tentando encontrar os caminhos das suas mãos, mas encontro apenas saudade (a qual endereço remeter esta carta?). Hoje, não ando de carro e não gosto de mar. Ligo o rádio, a televisão, toco a campanhinha do meu próprio apartamento, iludo a mim mesma na esperança de ser você.

FRONTEIRA



Não há cidade alguma após esta linha que piso. Sim, estou no limite de tudo aquilo que é real - olho para trás, para o lugar de onde vim, vejo arranha-céus e autos cortarem o céu e o asfalto como um estilete tímido. Apenas tenho certeza do que não existe, até meu próprio suor percorre meu corpo como uma salgada mentira – esperançoso toco a linha, quero que minha mão penetre como fantasma o chão.
Em um minuto dois sóis invadem a cidade, derretem-na. A morte da fala, das palavras. Todos os livros são apenas dezenas de páginas em branco - deixo meu corpo cair leve no precipício infinito e branco que se abriu depois da linha. Lanço-me à verdade.

#01

Tenho dois nomes, sou réu confesso do crime de falsidade ideológica. Tenho duas pernas, dois braços, duas faces. Perguntam-me como consigo, digo que eles não existem, são invenções minhas. Ninguém se importa com duas, três faces, contanto que a que exponho agrade à geral. Não me agrada nenhuma das duas e a verdadeira ainda não veio à tona.
Há no calor excesso de vida, o suor é absurdo. As pessoas se mostram grotescas, porém as máscaras permanecem intactas, produtos made in de plástico acrílico, resistentes. 

1989

JANEIRO
12 de janeiro de 1989
Inês, a bela. De uma beleza crua, quase malvada. Os traços leves circunscreviam uma tristeza apaixonante, a magreza revelava a fome interna. Mas era bela, do seu modo, no seu calor, nas suas palavras. Conhecemos-nos no dia 1º de janeiro, em uma banca de jornal de uma praça, ambos líamos a manchete do Jornal do Brasil sobre o naufrágio do Bateau Mouche no Rio de Janeiro. A última edição da banca. Não iria comprar nada, parei por curiosidade, mas ela estava lá, surpreendente, com seu francês perfeito, o olhar absurdo, ne me quitte pas. Apesar de tímido, iniciei a conversa despretensiosa.
-Você quer levá-lo?
-Se você quiser...
-Não, pode ficar, compro em outra banca.
-Tem certeza?
-Tenho. Tem fósforo ou isqueiro?
-Não fumo. Fazemos assim. Nós dois compramos o jornal, sentamos em um banco aqui da praça, enquanto ler um caderno eu leio outro, o que acha?
-Por mim, tudo bem.
Sentamos em um banco de frente ao coreto, havia um grupo de crianças ensaiando uma música para a Igreja:
“A boa nova proclamai com alegria:
Deus vem a nós, ele nos salva e nos recria
E o deserto vai florir e se alegrar,
Da terra seca, flores, frutos vão brotar.”
Fizemos conforme o combinado, enquanto ela lia sobre política, eu lia sobre cultura, calados como desconhecidos que éramos. O domingo estava indo embora no horizonte, o céu exibia um azul rosado limpo de nuvens, um calor agradável chegava do sol que descia preguiçoso. A praça estava repleta de crianças. Parecia não haver tristeza ali, no meio dos cantos, das brincadeiras e das conversas alegres, aquilo me contagiava. Sorria para todos, inerte no banco, Inês ao meu lado permanecia concentrada nas letras miúdas do jornal. Alegrava-me a possibilidade de uma vida sempre assim, clara, quente e feliz, mas eu estava sozinho por dentro, não devia pensar muito, poderia estragar aquela sensação boa, alegre. Deixamo-nos ali, sentados no banco cerca de uma hora, não pensava em nada, estava com uma estranha e preocupava-me apenas em permanecer concentrado nas brincadeiras, sonhando através daquela meninice que tomava a praça, para depois acordar.
Inês, surpresa com o sino da Igreja que marcava seis horas, tirou da bolsa uma caneta, anotou um endereço na primeira página do jornal, entregou-me e se despediu:
-Tenho que ir. Me procure neste endereço para dividirmos outro jornal.
-Mas, como você se chama?
-Inês. E você?
Quando fui dizer meu nome ela colocou o indicador em meus lábios.
-Não, melhor assim, gosto de mistérios.
-Mas... esse é o endereço de onde?
Cantarolando, me lançou sua voz aveludada:
- Ne me quitte pas. Je t'inventerai des mots insensés que tu comprendras. Je te parlerai de ces amants là qui ont vu deux fois leurs coeurs s'embrasser. Ne me quitte pas.
Sorriu, virou-se e sumiu na confusão frente à Igreja.

20 de janeiro de 1989
Havia acumulado várias faltas injustificadas em pouco tempo. O que eu poderia esperar se não ser despedido? Isso importava em algo? Não, não importava, mas somava e incomodava, dava desgosto e impaciência. Por mim não voltaria àquele lugar, tampouco me procurariam. O que me levou à responsabilidade eu nunca soube. Já estava cansado de tudo, dos meus passos errados, de toda a minha vida errada, e raramente tinha motivação para fazer algo. Por isso não sei de onde tirei motivação para procurar a redação do jornal.
-Bom dia.
O bom dia saía da minha boca áspero, quase um insulto.
-Não precisa nem sentar-se, pegue suas coisas e vá à minha sala acerta as contas.
Não questionei, não mudei a minha expressão, continuei apático e subserviente. Peguei as minhas poucas coisas, fui à sala pegar meu salário ínfimo. Saí sem agradecimentos, desculpas ou despedidas. Simplesmente desci as escadas e fui a um café.
O calor àquela época do ano é espantoso. Impossível não reclamar. As chuvas que aparecem no verão não duram muito, caem com raiva ou mal caem. Pois foi por causa de uma dessas chuvas que eu conheci Marcelle. Eram doze horas e quarenta e cinco minutos, e disso tive certeza.
Na televisão do café vi George Bush tomar posse. Pela janela vi passar Inês. Corri para a rua, tentei alcançá-la, mas a perdi de vista. Voltei ao café, da porta vi uma mulher sentada em uma mesa, de costas para mim, cabelo loiro, pele alvíssima. Conhecia-na de algum lugar, não me lembrava de onde. Precisava saber as horas, tinha marcado com Edgar de almoçarmos juntos, mas ninguém tinha relógio, apenas a mulher de costas. Caminhei até ela e toquei-lhe o ombro, ela virou-se séria, mas tão logo colocou os olhos em mim abriu um leve sorriso, que tratou de fechar após a minha primeira pergunta:
-Poderia me informar as horas, por favor?
Olhou séria para mim, depois para o relógio, e respondeu seca:
-Quinze para uma.
Agradeci, voltei ao meu lugar e acendi um cigarro. De onde estava ela disse:
-Não suspeitei que estivesse tão bêbado naquela noite.
-Como?
-Marcelle, muito prazer. Dormimos juntos no reveillon.
Senti o coração apertar, querer saltar pela garganta, engasguei-me com a fumaça e soltei um sorriso amarelo e estúpido. Todos tinham os olhos em mim. Ela continuou:
-Melhor assim.
Levantou-se, jogou uma nota sobre o balcão e saiu café a fora. Chamei-lhe pelo nome, mas ela entrou em um táxi e desapareceu no caos do trânsito.
Desnorteado, traído pela minha memória, vítima de encontros e desencontros, fui à churrascaria almoçar com Edgar, estava um pouco atrasado, mas ele nunca se importou com isso, hábitos brasileiros devem ser mantidos e cultivados, dizia ele. Edgar era um velho amigo, crescemos juntos, vítimas da amizade de nossos pais, todos eles surrados na ditadura, colegas de faculdade, de briga e de porre. No aniversário de cinco anos de formandos deles fomos todos ao México assistir a Copa de 70, Edgar e eu com seis anos, ele cinco meses mais velho. Lembro-me de termos ganho a camisa 10 de Pelé. Lembro-me também dos quatro gols do Brasil, Edgar, para a minha alegria, só se lembra do gol da Itália. Em um telefonema meu pai ficou sabendo que nossas casas foram reviradas pelo DOPS, só então soube que havíamos saído do país ilegalmente. Por isso, com ajuda de amigos e familiares, permanecemos no México depois da Copa, e mais um tempo, no fim, dois anos, depois nos mudamos Londres, até voltarmos escondidos pela fronteira com o Paraguai em 1980. Edgar e eu vivemos todas as confusões dos nossos pais, daí o acidente de berço da nossa amizade. Agora estávamos tranquilamente almoçando em uma churrascaria, sob o manto protetor da Constituição de 88.
-Viu a posse do Bush?
-Pois é, o cretino, como se não bastasse ter sido diretor da CIA, ainda tem que ser presidente dos Estados Unidos. Não vai dar em coisa boa.
-Pela primeira vez em anos fiz uma oração, agradecendo por não ser americano.
-Fez bem.
-Fui demitido hoje, devem estar soltando foguetes na redação a essa hora.
-Não fico surpreso. Além de chato, de dar esporro em Deus e o mundo, faltava feito noiva displicente, além de chegar de porre sempre.
-É, obrigado. Agora terei que procurar emprego, não sei o que é pior.
-O melhor que faz, meu caro, é tomar jeito. Senão, vai acabar pobre e solteiro, sem um cruzeiro para o puteiro.
-Tomar jeito para quê? Tenho o seu apartamento para morar, a sua comida para comer, sei que não vai negar abrigo a um necessitado.
-Melhor não abusar, não sou a Madre Tereza.
-Seria chato se fosse, não suportaria o sermão.
-Enfim, o que vai comer?
-Picanha e tropeiro. Têm farofa de porco aqui?
-Têm. Não sei o que peço, eles fazem um robalo assado que é divino.
-Garçom! Dois chopes! Conheci uma mulher um dia desses, chama-se Inês, bonita, me deu um endereço, mas isso foi há quase um mês e ainda não a procurei. A vi passar de longe, tentei alcançá-la, mas a perdi de vista.
-Por que não a procurou ainda?
-Não sei, estou estranho. Acredita que uma mulher, uma tal Marcelle, me disse hoje em um café no centro que eu dormi com ela no reveillon?
-Marcelle? Como ela é?
-Loira, branca, muito bonita. Conhece?
-Claro, conversei com ela na casa do Fernando, no reveillon, eles são primos. Quer dizer que traçou ela, hein?
-O pior é que nem me lembrava. Ela ficou muito nervosa, e eu, claro, com a cara no chão.
-Por isso que você sumiu antes da virada.
-Deve ter sido.

ANO NOVO
Acordei zonzo, dor de cabeça forte. Duas horas da tarde e ainda estou na cama. Pelos vestígios acho que alguém dormiu aqui, alguém além de mim, claro. O sol me queima as pernas, mas não tenho ânimo para mudar de posição. Minha garganta está seca, dolorida. No criado-mudo dois copos, um na metade, além de um cinzeiro com algumas pontas de cigarro, duas marcas diferentes. Silêncio. O único barulho que escuto vem dos carros que passam na avenida. Quarto andar. É segunda-feira, devia estar trabalhando, mas é o primeiro dia do ano, ninguém trabalha hoje, é o Dia da Confraternização Universal! Não me importo, mas é uma desculpa, e no momento eu preciso de muitas desculpas. Não consigo se quer me lembrar onde passei o reveillon, estava bebendo desde sexta-feira. Lembro-me de algumas fisionomias, mas não dos nomes. Enjoo. Tenho que comprar uma cortina para o quarto, não suporto essa claridade, não consigo sequer pensar assim. Maldita ressaca. Uma voz doce, sim, uma voz doce esteve aqui ontem, unhas vermelhas. Não me surpreenderia se fosse um homem quem tivesse dormido aqui, mas tenho certeza que foi uma mulher de voz doce e unhas vermelhas. O cheiro ainda está no travesseiro e esse cheiro é de mulher. Onde a encontrei? Maldita dor de cabeça. Terminarei este copo, fumarei um cigarro e darei uma volta na praça. Droga de ano novo.

21 de janeiro de 1989
1
Um início de ano estranho, grande 1989! Não tinha emprego, minhas economias eram poucas, o aluguel estava atrasado, o carro acumulava multas, duas mulheres me tomavam os pensamentos. Não seriam assim todos os anos? Excetuando alguns detalhes mínimos, creio que todo início de ano era assim, mas o que realmente os diferiam era eu mesmo. Eu não era o mesmo em todos os inícios de anos que eram praticamente iguais. Em alguns me sentia bom, em outros, mau. Em alguns inícios de ano o que eu fazia era certo, em outros, errado. Em que eu era diferente naquele ano?
Pressentia um desastre, fato que não me ocorreu em todos os outros inícios. Sentia um vazio, distanciava-me da realidade. As ideologias morriam aos poucos, entrávamos em um período de tranquilidade excessiva que me atormentava, acostumado às badernas e incertezas. Era um vazio amoral, egoísta nas raízes, descrente de tudo e todos. Qual o sentido em acordar cedo sabendo que irá dormir tranquilo? Defendia valores mesquinhos, tendia a uma triste ideia de superioridade, de ser especial, melhor que todos os que me cercavam, vã vaidade. Era preciso uma válvula de escape, um refúgio para as dúvidas.
A angústia em que me lançava lembrava-me do acidente sofrido na infância. Tinha cerca de cinco anos e havia passado algum tempo desde que eu me vira pela última vez no espelho. Estava assustado, por quê? Não existiria nada além de mim mesmo refletido, eu sabia, mas uma curiosidade me consumia, e ainda assim não conseguia me aproximar. Um dia criei coragem, fui chegando devagar, pelo canto, até que, num impulso misterioso, me joguei contra ele. O espelho se quebrou com violência em infinitos cacos, e eu me cortei em infinitas retas, perpendiculares, adjacentes. Porém isso não me doeu, o que me doeu mesmo foi ter a certeza de que não existia nada além do espelho, além da minha imagem a fitá-lo.
2
Temia estar envelhecendo rápido. Trinta e cinco anos. Enquanto esperava uma entrevista a secretária me perguntou:
-Quantos anos o senhor tem?
-Quantos anos acha que tenho?
-Por favor, não desperdice meu tempo.
Desperdiçar o tempo! Passava o dia folheando revistas e assistindo a televisão.
-Tenho vinte e cinco.
Foi fácil perceber o espanto da secretária. Eu devia aparentar ser bem mais velho, no mínimo quarenta anos. Alimentava-me mal, dormia pior ainda. Não me exercitava, bebia em excesso, fumava em excesso. Não podia me queixar da minha aparência, era simples consequência do meu estilo de vida.
3
Às vezes sentia-me estagnado em um vazio atemporal, como se tudo desaparecesse e junto com o tudo o tempo, então me via sozinho em uma infinitude branca, deitado, suando frio, sem sentir os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos. Porém sempre retomava a consciência e voltava ao barulho, ao calor, à poeira, ao tempo.
4
Felizes aqueles
Que de birra, de pirraça
Tomam-se por rotos na vida
Vivendo a deslizar no ar
Como um saco plástico
Uma folha seca
Uma fumaça preta
Uma andorinha torta
Um pardal torto,
Piolhento e feio.

27 de janeiro de 1989
1
Voltei ao café um dia à tarde para perguntar sobre Marcelle. Perguntei ao garoto do balcão se ele sabia de uma mulher loira, clara, bonita, bem vestida, que esteve ali cinco ou seis dias atrás, ele me respondeu que não se lembrava de todos os que frequentavam o lugar, mas se lembrava de mim e do ocorrido, e que aquela mulher era frequente no lugar, principalmente pela manhã. Dei-lhe uma nota de cinquenta cruzeiros e fui dar uma volta. Lembrei-me do endereço que Inês havia anotado no jornal. Tinha escrito um horário para procurá-la, e eu estava no horário. Estava com o pedaço do jornal contendo o endereço na carteira, resolvi ir até lá.
Era um escritório de arquitetura. Perguntei por ela, a secretária me disse que tinha saído para resolver alguns problemas do escritório, mas voltaria logo. Pediu-me para esperar, indicou um sofá, azul aveludado, “sinta-se à vontade”. Sofá confortável, lugar confortável. Paredes brancas recheadas de quadros, em uma parede exibia peças da pop art, em outra, modernistas brasileiros. Além do sofá azul, uma mesa vermelha com uma réplica em miniatura de um conjunto habitacional bastante curioso, os prédios se pareciam com pênis, de ambos os lados duas semi-esferas, não entendi o que eram. Haviam duas poltronas brancas, confundiam-se com a parede. Na fantasia da sala perdi cerca de meia hora. Quando estava começando a ficar cansado ouvi passos no corredor que estacaram na recepção. A voz de Inês me inebriava.
-Olá Dora, alguém procurou por mim?
Pelo tom de voz a pergunta pareceu mecânica, habitual.
-Sim.
-Sim?
Baixinho a secretária explicou que um homem alto, magro, barba mal feita, estava a esperando na sala de espera. Um breve silêncio antecedeu o barulho dos seus passos em direção à sala. Da porta, com um sorriso tímido, bela e sufocante, me perguntou:
-Então resolveu aparecer, estranho?
-Eu gosto de surpresas.
-É uma boa surpresa. Importa-se de me esperar sair? Daqui meia hora, mais ou menos.
-Já esperei meia, por que não esperar mais meia?
-Lhe trarei um livro, para se distrair.
Trouxe-me uma peça do Chico Buarque e do Ruy Guerra, Calabar. Acho que a intenção dela era me fazer esperar mais, porque, entregue à leitura da peça, permaneci ali uma hora e meia. Quando voltou me convidou para irmos até um bar ali perto, eram quase sete horas da noite. O bar era interessante, meia-luz, chão, bar, mesas, cadeiras, tudo de madeira. Nas paredes retratos antigos de músicos americanos de jazz. Uma névoa de fumaça tomava o lugar, ao fundo, sob uma luz vermelha, tocava um grupo de jazz, casais conversavam animadamente. Sentamos afastados do palco, em um lugar mais calmo, menos iluminado.
-Não fuma mas frequenta este lugar?
-Estou tentando parar. Aqui dou algumas tragadas indiretamente, alivio a vontade.
-Lugar bacana, vem sempre aqui?
-Nem sempre, mas venho geralmente no sábado.
Tomamos duas garrafas de vinho, escolhidos por ela. Cometia loucura, lugar caro e eu desempregado. Conversamos por horas, sempre sobre ela, nunca sobre mim. Como dizem os judeus, quando o vinho entra, os segredos saem. Era formada em filosofia e arquitetura. Nasceu no Rio de Janeiro, mas assim que nasceu mudou-se com a família. Morou em Madri, Valência, Lisboa, Casablanca, Cidade do Cabo, em decorrência do trabalho do pai, diplomata. Voltara ao Brasil havia seis anos, terminara o curso de filosofia havia um ano. Perdera a virgindade aos quinze com um argentino, na Espanha, colega de classe. Traíra todos os namorados. Odiava a mãe, que largou o pai quando ela tinha 10 anos e voltou para o Brasil, casou-se com um desembargador no Rio de Janeiro, se viam raramente, falavam-se mais raramente ainda. Em um ímpeto mútuo nos beijamos, perguntei se na minha casa, ela me disse:
-Não, claro que não.

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não consigo terminar este conto... 

DOMINGO




Querem acabar com meu domingo, mas não permito, não cedo, afinal, essa é uma tarefa que cabe a mim mesmo, e ninguém a faz melhor. O domingo está para mim como um pato em meio a meia dúzia de galinhas, ou – intentando uma comparação mais esdrúxula – um agnóstico em meio a meia dúzia de evangélicos, e com o mesmo grau de descaramento: não há moralidade no domingo que carrego em mim. O domingo é tudo, menos careta. Por isso querem tanto acabar com ele. Há todo o desespero que entremeia o hedonismo do sábado e a caretice da segunda, de forma tal que, em certos domingos, surto, desregulo meus horários, cometo exageros – domingo é lindo. Mas, então, uns poucos que não o entendem chegam em mim e em minha concepção loquaz querendo acabar com tudo. Como diz a malandragem, don’t fuck up the rotation.

MENTIRA DE QUATRO LINHAS

Enquanto olho para frente e anseio pelo que está por vir, apagam-se da lembrança, em cadência, rostos, medos e fraquezas. Está aí, justamente no que deixo para trás, a fonte da minha força e da minha felicidade.

CORTANDO CABEÇAS

Amanhã pela manhã darei um sumiço no modem, ficarei sem internet, espero que por um bom tempo - é difícil, eu sei. As aulas na faculdade retornaram há um mês, ainda não toquei em livro, o estágio está me matando, não posso me render à internet, torná-la lazer. Vou variar minha rotina, ler algum contista - quero me aventurar mais na literatura estrangeira -, voltar à natação, estudar para a faculdade, para os concursos, esquecer a internet. Espero escrever mais também, quando voltar publico tudo. A internet nos torna burros, sinto meu cérebro atrofiando aos poucos. Bacio, malandragem.

COR: ANELINA

Ainda espero pelo traço de sol, pelo cheiro de sal, por você - pálida e cansada, deitada na areia, calada como eu. Ainda espero pelo gosto de pós-adeus, sentado ao seu lado, sob o guarda-sol, céu azul-céu do Rio de Janeiro, os meus dedos a percorrer o Dois Irmãos, Ipanema, posto 9. Ainda espero pelas palavras que não lhe disse na tarde de mar.

INTERVERBALISMO #01

Tempo de teta-pacá e lula-gundum. 

INTERTEXTUALIDADE

Estou profundamente decepcionado comigo mesmo. A internet é a minha derrocada. A morte dos livros, a morte dos filmes, a morte do que sou e creio. Liberdade, qual seu preço?

TANGO DESCOMPASSADO

Dá em tudo e não dá em nada, eis a desmedida do amor. Citando um velho poeta plebeu que acabo de criar, ‘há o grande frente à noite tenra, infante noite, jaz pequena’. Toca o tango e os passos ritmados, troco o santo por uma dose de rum. Porque não dá em nada se dá em tudo, a morte, o fim, c’est fini, o riso curto. Desdizem o que cantam, não dá em nada, embora caiba em tudo.

SONHO #01

Mania junguiana de registrar os sonhos. Pois bem, vamos aos fatos – ou delírios? Calor, praia no deserto, óculos escuros ray-ban wayfarer, bermuda laranja, cadeira azul. Visão de 180º, a praia como uma faixa laranja-desbotado entre os dois tons de azul, azul-céu e azul-mar. No toca fitas um K-7 do Eddy Grant, na faixa ‘Time Wrap’. Era uma espécie de videoclipe, durou enquanto durou a música, eu permanecia sob o sol, mascava chiclete e balançava a perna direita, até que, nos trinta segundos finais, levantei-me da cadeira, corri em direção ao mar, nadei até a faixa laranja-desbotado da praia desaparecer, permitindo a comunhão de azuis, então me afoguei de olhos abertos.

01:08




Penso que seja verdade, porém me calo. Enquanto existirem as palavras, será uma voz a permear o absurdo. Quando for tarde, um grunhido irá fortalecer o que ainda é real.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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