Roxo. O céu acorda roxo, em tom vivo e sóbrio, dois sóis irradiando desejos contidos. Em um campo infinito de violetas, Inês tem flores nos cabelos e no regaço, o corpo nu, nas mãos duas pedras de ametista refletem em seus olhos sua cor. Uma brisa fresca desce os montes, traz estrelas e um cheiro perfumado, inebriando-lhe sexo, atiçando-lhe a língua, manhã de mistérios.
Cinza. Poeira e dor de cabeça, Sophia na cama dizendo coisas sem nexo. A fumaça do cigarro subindo no ar parado é serpente a rastejar no nada. Toda a transmutação da carne antes do sexo encontra na ante-sala a rinite alérgica, falta de tesão, de libido. Incólume só o desejo pela palavra: “sou aquela que há de te seguir – na cavernosa madrugada, aquecer-te-ei o sexo, homem carne viva”.
Amarelo. Quase eu soube na borda de um George Orwell, mais opaco em um Cyro dos Anjos, mínimo em um Honoré de Balzac e em um Cabral de Melo Neto, ambos da mesma coleção, todos dispostos na prateleira de madeira envernizada. Por pouco não aprendo em cinco quadros, embriaguei-me em duas garrafas de rum, senti como se fosse vivo, excêntrico, laranja-lima, limão - não sentia minha língua. Preciso de boas escolhas, saber por onde começar neste corpo bem delineado e jovem, de formas humildes, em um quarto fechado, apertado e mal iluminado, a cama de solteiro, amarelo-amor.
Azul. Abro os braços para um mergulho pesado na imensidão azul-marinho dos olhos de Marcelle, que não diz nada, apenas aceita que eu me afogue, profundo. Torno-me, então, alma, flutuo no céu nu de nuvens, coisa qualquer que se sente completa. Sou, agora, manto a envolvê-la, travestida de Maria, que respira fundo e goza, santa e manto sagrados, safados, religiosidade blasfema.
Verde. A mata virgem abraça Sophia, que é feita amazona, guerreira destemida, emprenhada pelo vento. Por dentro, o inferno úmido, por cima, o mar orgânico, de folhas e troncos, e, agora, de Sophia, nua na margem do rio, entre serpentes que se perdem no seu corpo violento, percorrem seus seios, escondem-se em sua penugem selvagem. São uma só, mãe e filha, mata e Sophia, guerreira e desbravada, iniciada por seres místicos nos segredos do amor, orgasmo que ecoa entre as árvores, espanta os pássaros.
Branco. O que se diz claro é o invisível das cores, infinito vazio cheio de mansidão. Aquela calma que nos arrebata, do cheiro de terra molhada, de chuva que cai sem pressa, do olhar a perseguir o horizonte, descansado e sem grandes amores que lhe acelerem o coração. Todo o suor de quem ouve uma voz suave que diz baixinho “dorme, meu filho”; um casal virgem que se ama tímido, sem barulho; uma morte sem dor no lençol puro, véu da noiva.
Laranja. Inês é laranja, é tudo que me estremece, toda falta que me sufoca, é, também, Inês me dizendo que Cecília lhe disse que nem tudo são sonhos, mas tudo é vão, inclusive os sonhos. É laranja Inês que não existe, mas que é uma presença absurda, embora Cecília exista, mas nunca a tenha encontrado. É laranja, é adocicado às vezes, gosto de fruta cítrica. É sonho, é vão, como o sol manso às sete da manhã dizendo que o dia começará abóbora, é epiderme que se confunde com cenoura.
Vermelho. Corre gosto de pedra de tinta viva vinho tinto tinta de caneta esferográfica cortina persiana caderno de poesia o vento balança as roupas no varal ama sexo quente em tarde de sábado das férias de verão gato miando às três da manhã galo cantando às cinco e quarenta e cinco da manhã homem assassinado com dois tiros no rosto e o sangue a escorrer luz do cabaré mulher de cabelos curtos negros e crespos que cobra dez reais por hora quatro posições ser sem nome que admira a lua em algum lugar desconhecido antes das dez da noite percorre morros de sorte e de saudade e de gozo faixa de pedestres grita alegre ano que vem tem carnaval espreguiça na espreguiçadeira dois acordes de violão a cama o seu lençol e tantas lembranças viva o feriado de sete de setembro seja o motivo que for máquina datilográfica na cor que digita o ponto final.
seguindo o conselho da Laura de transformar versos em prosa. ótimo conselho, por sinal.
seguindo o conselho da Laura de transformar versos em prosa. ótimo conselho, por sinal.
