Sinto-me desperta e quase posso ouvir a sua respiração, seu hálito quente. Pensa que há na varanda alguma foto rasgada em pequenos pedaços? “Odeio pose, vá, vamos fingir naturalidade.” Os dias são longos demais, as semanas. Faz muito calor e me pego distraída acompanhando com a cabeça o movimento do ventilador, com os olhos os ponteiros do relógio, como a cortina balança com a brisa morna. Sei que há no chão do meu quarto 135 pisos, cataloguei todos os meus livros, discos e filmes, coloquei fogo nas listas “queime tudo que é exato demais”. Escrevi nas caneletas (?) que protegem os fios elétricos trechos de cartas suas com hidrocores verde, vermelho e azul, ficou bonito. As fotos da Debby Harry que você tanto gostava estão coladas em minha parede, acima da cabeceira da minha cama, inclusive aquela em que ela foi fotografada por baixo, vestida apenas com uma camiseta “nos anos 70 uma depilada assim era raro”. Tem sido difícil adaptar-me à língua local, não faz ideia do que passo, eu que sempre vivi aqui. Olho para a minha cama e me lembro da primeira vez que entrou em meu apartamento, trôpego, achou estranho eu lhe chamar para o meu quarto, para a minha cama. Quando fervíamos perguntei se tinha camisinha “droga, esqueci a camisa-de-vênus”, rimos tanto daquilo depois. Dói, não imagina o quanto. Não entrei em nenhum carro desde a última vez que lhe vi. Todas as noites quando chove escrevo em meu peito I must get back to the sea, e aperto meus seios, como naquela noite chuvosa da nossa primeira viagem juntos em que quase não tocamos os pés na areia da praia. Olho-me no espelho e me risco toda tentando encontrar os caminhos das suas mãos, mas encontro apenas saudade (a qual endereço remeter esta carta?). Hoje, não ando de carro e não gosto de mar. Ligo o rádio, a televisão, toco a campanhinha do meu próprio apartamento, iludo a mim mesma na esperança de ser você.
PILOTO
- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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