V
Apenas elogiou os meus olhos por terem sido os primeiros a se fixarem nos seus sem receio enquanto falava de si mesma com convicção e desespero. Eu não era nada além de um estranho.

- Seus olhos são bonitos.

Após o furto forjei o acaso. Desfiz-me do que não era necessário, guardei comigo somente seus documentos e um cartão com seu telefone. Cortei o cabelo para que não me reconhecesse, marquei um encontro para entregar os documentos que havia encontrado na rua. Quando nos encontramos me agradeceu aliviada, não se importava em perder a bolsa e as quinquilharias que estavam dentro dela. Sentamos em um bar, tomamos alguns chopes, conversamos por horas sem mudar o foco do assunto: ela.

- Já assistiu “Amor em fuga”, do Truffaut?, ela me perguntou, por fim.
- Não, por quê?

Não me escondeu nada desde o primeiro momento. Era atriz pornô, não vacilou em dizer a mim, estranho. Disse que jamais imaginaria isso, não correspondia ao estereotipo de atriz pornô, entretanto não me espantava, para mim é uma profissão tão digna como a medicina, eu disse. Perguntou-me se eu era cineasta, mas a decepcionei, fui muita coisa, hoje sou apenas um escritor.

- Que droga, se você fosse eu seria sua Anna Karina e você meu Godard.
- Como escritor que sou posso lhe dar vida em um romance, ou escrever um roteiro em que você é minha musa.
- De que adianta se não farei parte fisicamente de sua obra?

Conheço um aspirante a cineasta, fomos colegas na faculdade, dirigiu alguns curtas, recebeu alguns prêmios. Há dez anos não nos falamos, mas o tempo jamais foi uma agravante. O assunto tomou outro rumo, sempre girando ao seu redor, sempre meus olhos nos seus. “Uma obsessão”, eu pensava.


IV
- Você me acha parecida com Anna Karina?
- Não.
- Sou mais bonita?
- Eu te amo mais.
- Quer dizer que não sou mais bonita que ela?
- Quero dizer que, independente de se parecer ou não com Anna Karina, você continua sendo minha atriz preferida, mais versátil que todas as outras.
- Diga para mim, oui, mon trésor! quando eu te perguntar se me ama, ok?
- Aham.
- Edgar, você me ama?
- Oui, mon trésor!
- Ai, me beije, Edgar.

Não estranho tê-la aqui comigo por dias incontáveis, facilmente se tornou uma obsessão. Talvez goste de sua companhia, ela não pergunta o motivo do meu silêncio, ela nunca quer saber sobre mim. Digo a ela que será personagem do meu livro, ela apenas concorda, sem entrar em minúcias. Impossível conceber literatura com temor, por isso me sinto bem com ela; prolífico, até.

- “Antes de tudo é necessário conhecer os homens tais como são”, Edgar, por isso estou aqui com você.

Eu também evito me aprofundar em suas palavras, entretanto as anoto em meu caderno vermelho, e a encaro como um quebra-cabeça. Dentre as poucas coisas que trouxe para passar alguns dias comigo há um pôster de uma pintura do Renoir, sobre o qual nada perguntei, mas que me rendeu três dias de reflexão, em que busquei entender a necessidade de sua presença na estadia temporária. Cheguei a algumas hipóteses:
(1) – Ela o comprou quando vinha para o meu apartamento;
(2) – É presente de uma pessoa querida, o pai ou um antigo namorado;
(3) – Ela é admiradora do impressionismo, considerando seu mais genioso expoente Pierre-Auguste Renoir...
Não precisei de três dias para chegar a tais conclusões, bastaram-me algumas horas. Qualquer exagero significa amor, l’amour fou.


III
Conheci Fernanda enquanto ela filmava seu trigésimo-alguma-coisa filme no ano; Mantinha a média incrível de atuar em um filme por semana, e apesar de ter dificuldade em se lembrar do texto, isso não se mostrava um obstáculo para sua extraordinária atuação – e para seu consequente sucesso. Não sou dado ao lirismo, o modo como se deu nosso encontro é um exemplo prático disso (há dez anos me descobri inepto a qualquer inclinação lírica, quando ainda cria na poesia e em todo universo que dela emerge, renegando meus ídolos, incinerando meus versos livres que apenas retratavam o pesar que jamais existiu em mim). Ela alongava a perna em uma barra – suas pernas formavam um ângulo de noventa graus –, vestida de bailarina, enquanto um homem de um metro e noventa, musculoso, lhe penetrava. O que eu fazia ali? Apenas curiosidade ou para presenciar a vida acontecer por outro ponto de vista, o da lascívia desmedida, e encontrar inspiração para meu romance de estreia; ou isto ou aquilo. Enquanto contorcia seu corpo, seus olhos encontraram os meus em meio à multidão e neles se fixaram; Experimentei uma espécie de hipnose, que durou cinco minutos até o diretor gritar “corta” para que pudessem mudar de posição. Fui até uma sala ao lado do set de filmagem, vi uma bolsa sob uma toalha, remexi seu interior, achei um documento “Fernanda”, fechei a bolsa e a coloquei embaixo do braço, esperei mais três minutos e fui embora sem ser notado.


II
Lembro-me do sonho da noite passada, um haraquiri. Busco no dicionário seu significado para ter certeza de que foi o que eu realmente sonhei: modalidade japonesa de suicídio, em que se rasga o ventre a sabre. É, foi isso. Com Jung sistematizei minha criatividade, hoje em sonhos encontro inspiração para tentar superar meu fracasso como literato, dá a volta por cima – me valho agora de recurso que abomino: o lugar-comum, e prolongo a minha estadia na subliteratura. Enquanto penso isso entro em meu apartamento; Chamo-o de “minha gaiola” que é com o que se parece, limitado a um quarto, um banheiro, sala conjugada com cozinha, área de serviço e uma pequena varanda com uma mureta de menos de um metro, a que evito absolutamente. Guardo as compras; Coloco o pacote de folhas A4 sobre a mesa, e as cinquenta gramas de maconha na geladeira. Olho ao meu redor, a mudança ainda encaixotada, para fora apenas o pouco que preciso para passar o mês “essa ideia maluca se dissipará logo”, mantenho a esperança, reluto em aceitar a mudança como definitiva. Enxáguo o rosto com insistência; Que ideia maluca; Vejo que não retirei a toalha da mala, seco o rosto nas mangas da camiseta. Controlo o furor, busco em cada palavra e gesto o método; A forma perfeita, a razão; Controlo a febre.

autorresumo

"Fotogramas do meu coração conceitual.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Tesão do talvez.
Água na boca.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Rolo no colchão.
*
ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Melindrosa basca com fissura da verdade. No flanco do motor vinha um anjo encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para o Lagos, Seven Year Itch, mato sem cachorro. *
ENCONTRO DE ASSOMBRAR NA CATEDRAL Frente a frente, derramando enfim todas as palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio. É jazz do coração.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Rolo no chão. E sem bravata, coração, aumento o preço.
Não cheguei ao mundo novo.
Estou tocada pelo fogo. Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Criou-se
entre Niterói, Copacabana e os jardins do velho Bennet.
Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio.
Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983."



Utilizei o "AutoResumo" do Word no livro "A Teus Pés", de Ana Cristina César. A ferramenta autosselecionou 6% da obra, e o resultado é este, que incluiu, inclusive, parte da biografia da escritora. Ferramenta interessantíssima.


I
Ouço o burburinho que se inicia logo abaixo de mim, as pessoas continuam a chegar; Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada, a sala está longe de sua lotação, há uma maior concentração nas fileiras do meio, o público, noto, é homogêneo, jovens entre vinte e vinte seis anos, menos pela temática – que, aliás, não lhes é típica – que pelo hype do diretor, hoje meu inimigo, pouco antes meu amigo, muito antes meu desconhecido; Se penso no diretor a imagem que me vem é ele sorrindo, imponente como é, ajeitando o cabelo atrás da orelha, que revela o brinco de pirata com uma pedra brilhante, a mesma encontrada no anel pertencente ao seu indicador direito; O cheiro de pipoca me dá ódio, o abrir das latas me dói os ossos; Sinto meu corpo prestes a explodir, impossíveis que são as risadas hedonistas minutos antes do dramático de minha obra, a única digna de aplausos meu enredo wertheriano, enredo de minha vida, minha mão imprudente que esgana com todo o lirismo de meu poeta alemão; Há o horror em minha boca, o cheiro acre em minhas mãos; Espero as estrelas da noite, espero o momento certo para meu pulo sobre seu ventre, ah, ventre maculado!; Agora há o suor sendo expelido de todos os meus poros; A noite, a vida passageira; Ah ah ah ah ah!; Há essa jovem bonita que se senta próxima a mim, sinto seu perfume doce, e, por suas mãos vazias, tenho a sensação de que se a tivesse conhecido três ou dois dias antes poderíamos estar deitados no gramado do parque mas que assunto é esse?, o parque a essa hora já está fechado, então estaríamos deitados, nus, na cama de seu apartamento que prevejo pequeno , e ela leria para mim poemas oceânicos e diria que me ama mais que a mãe que perde o filho na confusão do trânsito, quando o filho, que se segurava na mãe, vê do outro lado da rua o ambulante de sorvete e sai em disparada para atravessar a avenida congestionada de autos que querem também chegar a algum lugar; Mas não há mais tempo para isso, há tempo apenas para a orquestra que se inicia em meu corpo, a orquestra da culpa, da culpa de Kafka, da culpa de Dostoievski, tão diferentes; Sou feito de antagonismos catastróficos; O cabelo loiro da mulher que diz ser princesa em um reino feito de pedra e de sal; Os princípios que me edificam cerram minhas mãos repetidas vezes; As luzes se acendem e todos olham para a porta que dá para o corredor, de onde surgirão minha musa e o diretor; A ansiedade toma conta do público e em cadeia as pessoas se levantam; Aproximo-me furtivamente; Ah, a doce demência que me toma os atos, mas sinto vontade de me desfazer em riso e pranto; Sou obrigado a engolir a seco o desespero ao ver meus algozes surgirem pela porta e serem efusivamente aplaudidos. Há momento especial para o crime?

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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