I
Ouço o burburinho que se inicia logo abaixo de mim, as pessoas continuam a chegar; Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada, a sala está longe de sua lotação, há uma maior concentração nas fileiras do meio, o público, noto, é homogêneo, jovens entre vinte e vinte seis anos, menos pela temática – que, aliás, não lhes é típica – que pelo hype do diretor, hoje meu inimigo, pouco antes meu amigo, muito antes meu desconhecido; Se penso no diretor a imagem que me vem é ele sorrindo, imponente como é, ajeitando o cabelo atrás da orelha, que revela o brinco de pirata com uma pedra brilhante, a mesma encontrada no anel pertencente ao seu indicador direito; O cheiro de pipoca me dá ódio, o abrir das latas me dói os ossos; Sinto meu corpo prestes a explodir, impossíveis que são as risadas hedonistas minutos antes do dramático de minha obra, a única digna de aplausos meu enredo wertheriano, enredo de minha vida, minha mão imprudente que esgana com todo o lirismo de meu poeta alemão; Há o horror em minha boca, o cheiro acre em minhas mãos; Espero as estrelas da noite, espero o momento certo para meu pulo sobre seu ventre, ah, ventre maculado!; Agora há o suor sendo expelido de todos os meus poros; A noite, a vida passageira; Ah ah ah ah ah!; Há essa jovem bonita que se senta próxima a mim, sinto seu perfume doce, e, por suas mãos vazias, tenho a sensação de que se a tivesse conhecido três ou dois dias antes poderíamos estar deitados no gramado do parque mas que assunto é esse?, o parque a essa hora já está fechado, então estaríamos deitados, nus, na cama de seu apartamento que prevejo pequeno , e ela leria para mim poemas oceânicos e diria que me ama mais que a mãe que perde o filho na confusão do trânsito, quando o filho, que se segurava na mãe, vê do outro lado da rua o ambulante de sorvete e sai em disparada para atravessar a avenida congestionada de autos que querem também chegar a algum lugar; Mas não há mais tempo para isso, há tempo apenas para a orquestra que se inicia em meu corpo, a orquestra da culpa, da culpa de Kafka, da culpa de Dostoievski, tão diferentes; Sou feito de antagonismos catastróficos; O cabelo loiro da mulher que diz ser princesa em um reino feito de pedra e de sal; Os princípios que me edificam cerram minhas mãos repetidas vezes; As luzes se acendem e todos olham para a porta que dá para o corredor, de onde surgirão minha musa e o diretor; A ansiedade toma conta do público e em cadeia as pessoas se levantam; Aproximo-me furtivamente; Ah, a doce demência que me toma os atos, mas sinto vontade de me desfazer em riso e pranto; Sou obrigado a engolir a seco o desespero ao ver meus algozes surgirem pela porta e serem efusivamente aplaudidos. Há momento especial para o crime?

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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