Tenho trilhado meu caminho
Rejeitando (quase sempre) o óbvio

Contraditório sou, às vezes
Mas quem não o é
Diante das incertezas que nos cercam?


"No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação."

Livro do Desassossego - Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

sobre a solidão


"A solidão liberta-me e valoriza-me. Enquanto estou só, crio um mundo e me basto; mas uma presença é sempre um raio de sol a reconciliar-me com o mundo exterior".

 José Américo



"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo".

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)



 SOU EU (ÁLVARO DE CAMPOS)

"Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
 Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
 Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
 Sou eu aqui em mim, sou eu.
 Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
 Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
 Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
 Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
 De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
 Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
 Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
 De haver melhor em mim do que eu.

 Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
 Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
 De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
 De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
 De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

 Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
 Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
 De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
 A impressão de pão com manteiga e brinquedos
 De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
 De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
 Num ver chover com som lá fora
 E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

 Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
 O emissário sem carta nem credenciais,
 O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
 A quem tinem as campainhas da cabeça
 Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

 Sou eu mesmo, a charada sincopada
 Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

 Sou eu mesmo, que remédio!  ..."



Por que seria a minha dor menos legitimada
Para também ser fogo e ouro, e reluzir intensamente
Se o que se sabe da intensidade da luz
É que não permite concursos, nem se submete a escolhas?
Veja o Sol que me cega ou a coroa do Rei que me espanta...
Ambos encantam sem pedir licença.

Exijo que deixem a minha dor flamejar!
Como se não bastassem a ausência de motivo
E a constância de sua existência
Querem ainda que seja opaca e fria, tímida como o amor ao meio-dia...
Inevitável a revolta.

Que a minha dor seja como o ideal de todas as coisas
Livre para manifestar-se da maneira como preferir...
Que seja fogo e ouro, que arda e resplandeça
Porém, se o silêncio trouxer conforto, silencie-se
Ou a draga da rotina fingirá retirá-la de mim
N’um ato criativo de falsas verdades, de dubitáveis certezas.



“Um homem com músculos e os nervos à mostra. Ferido por tudo e por todos. Inadaptado ao seu tempo e à sua gente. Mas insatisfeito com essa inadaptação. Procurando a todo transe compreender, mas não compreendendo a linguagem dos seus contemporâneos. Fechando-se em sua solidão para resguardar a sua independência. Mas sem nada de misantropo e de desesperado, antes amando profundamente os homens e a vida.”

(Tristão de Athayde sobre Lúcio Cardoso)

*****

“Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentido e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”

CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada.




“[...] Meu irmão é dessas pessoas que acham que um poeta deve estar marcado pela desgraça e, sobretudo, que isto tem que ser notado, de modo que quando apareço todo corado e sorridente ele me contempla com alguma suspeita e ainda não tem opinião formada sobre a minha obra. Tenho certeza de que bastaria eu beber o tão argentino copo de cianureto para que ele descobrisse, sobre o meu túmulo, o lírico que hoje apenas imagina.”

CORTÁZAR, Julio. Divertimento.


O tempo, translúcido
Impede que vejamos
Quem fomos / Quem somos
Restam-nos alguns boatos:
Dispersaram-se na multidão
Estão submersos em saudade rasa.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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