"(...) Talvez seja necessário, na discussão de um espaço ainda crítico para a crítica, matar mais uma vez Wilson Martins (crítico literário). Já que sua transformação em imago exemplar parece expor inequívoca vontade de retorno a algo próximo à tradição das Belas Letras, a um regime estável e hierarquizado de vozes e gêneros, a regras fixas de apreciação e prática textual, a um apagamento de novos espaços de legibilidade, espaços ainda não demarcados ou nomeados, e sugeridos por formas de compreensão expansivas, e não exclusivas, do campo da literatura. Um desejo de reierarquização e pureza que não parece sem sintonia com o temor de um universo sóciopolítico menos hierarquizado, com a expansão meio informe de uma classe média cujo imaginário não parece ultrapassar uma coleção inesgotável de bens de consumo. E com uma extraordinária expansão das práticas digitais de escrita, acompanhada, paradoxalmente, no entanto, de uma quase invisibilidade coletiva dessas manifestações, de um encolhimento quase ao absurdo da esfera pública.
   (...) O que parece, no entanto, nostálgico, reativo, talvez não aponte exclusivamente para um período anterior à formação da crítica moderna no Brasil, mas para uma reprodução esvaziada de sentido, e desligada de vínculos efetivos com a experiência histórica, de comportamentos, práticas de escrita e certo culto à autodivulgação e à vida literária que parecem se expandir (em prêmios, concursos, revistas, blogs, antologias, bolsas de criação) em movimento inverso ao da restrição que se opera no campo da produção e da compreensão da literatura, ao da quase total desimportância de livros e mais livros que se acumulam sem maior potencial de instabilização, sem provocar qualquer desconforto, sem fazer pensar. Uma restrição que talvez indique uma incapacidade não só da crítica, mas do campo literário, de modo geral, de reinventar a sua sociabilidade, de produzir condições outras para a própria prática."

FLORA SÜSSEKIND - a crítica como papel de bala.

LUX

“O que aconteceu, sr.?”, perguntou o rapaz, assustado. “Não viu o que houve? Uma luz amarela entrou por aqui, por esse meu ouvido. Agora posso ouvir os sentimentos dos homens.” Respondeu o velho com trejeitos de louco. “A que conclusão, então, o sr. consegue chegar ao ouvir os meus sentimentos?”, o rapaz cria profundamente no velho. “O que concluo, meu jovem, no pouco tempo em que está ao meu lado, é que, enquanto estes que nos olham atravessado esperam o dia em que terão asas, você deseja apenas permanecer humano.”

#09










Na aridez do meu peito encontro conceitos e não pessoas - não entendo. Há tantas ideias apaixonantes, entretanto insistem na concepção exata, rígida e cruel.

#08





É difícil destruir dogmas com toda a imposição da certeza. Por que não saio de cima do muro? Não sei, tente a resposta por aí. Não acredito no amor nem na filantropia.

tenho vergonha do que escrevo aqui.

#07

Um amigo desconhecido me contou um dia que toda a ventania iria acabar. Era sonho, pura fantasia, um livro cheio de carneiros a me apoquentar. Estou ouvindo modas de viola, sorrindo o riso dos outros, não sei falar de amor, estou embromando. Parece até que a lua na minha janela diz quão bela ela é, mas é só resquício de uma companhia que me deu um abraço tonto anos atrás. Ontem foi o dia em que a ventania por um minuto parou. Um beijo tímido, de surpresa, de quem queria e não queria: ela é flautista, toca piano e me faz sorrir. Seu nome tem apenas duas letras que se repetem duas vezes, ela é linda, mas não sei falar de amor.


bêbado, assistindo oswaldo montenegro cantar no programa do rolando boldrin (!).

#06

Ai, que me cansam... Risos frouxos, dentes, alegria, alegria! O ridículo da ultra-exposição, ah, péssimos discos, péssimos livros, péssimos filmes, péssimos... A arte é uma bofetada que vale quinze minutos. Bundas, seios, coxas, músculos, grandes, torneados... Nada me parece mais estúpido que um manequim vivo, sorridente, inconsciente de si. Dêem quanto podem, enquanto fico aqui, desejando apenas um travesseiro e neosaldina.


ah, como estou irado.

ELEGIA PARA FERNANDO

Sinto que se eu lhe dissesse, Fernando, o quanto temia a sua fúria, se soubesse quão forte era, riria de mim, dos meus medos. Agora que é sombra ignota, sua presença é brisa morna, sua ausência mitiga o meu pesar. Sim, é luz turva e isso me entristece, pois era tão moço, um rio desatinado, mal sentira o gosto da vida - o fel da vida-, tornou-se sombra em dia nublado. Fernando, era tão moço, me punha tanto medo, restara sombra em meus olhos, fúria em meus olhos.

ESPANHA EM COR E FÚRIA

Não há nada, Virgílio, que não saiba: todos os corredores estão desertos, como queria; todos os nossos dentes caíram, e não foi culpa sua; você não é o poeta... você não é poeta, para alívio seu. Virgílio nós nos beijamos nas escadas antes de transarmos no corredor, e isso você previu antes mesmo de nos sabermos. Você, que é tão indiferente e frio, é, ao mesmo tempo, tão bonito, e isso você sabia.

VENTO

O cabelo anelado dela lutava com o vento, impacientava-a, era fim de tarde de domingo. Sentados, ela esperava o açaí que seria o pior de toda sua vida, ele esperava o açaí que seria o último que ele pagaria a ela, o vento ressecava os olhos. Os domingos costumavam ter cheiro de sexo, o que seriam dos domingos dali em diante? Amor era tema difícil, era a obstinação desmotivada que os movia, apesar de toda a tranquilidade – ou por causa de toda a tranquilidade. Ela passava a mão nos fios anelados, fitava-o, impaciente.
- Você não vai dizer nada, Edgar?
- Não tenho o que dizer, já discutimos muito, amanhecemos com isso, você sempre volta ao mesmo assunto.
- Você é como uma pedra!
- Tente ao menos uma vez sair dessa bolha em que supõe vivermos, entenderá melhor as coisas.
- Cara, não me deixe mais puta do que já estou. Você nunca foi romântico, sempre indiferente, ultimamente tem se distanciado, apenas transamos, como uma regra, e ainda quer que eu saia “dessa bolha”?
- Nunca nenhum de nós terá razão. A vida nos leva a lugares outros, diferentes de onde quereríamos estar. Buscar justificar, dizer motivos, não mudará o estado atual das coisas.
- Você sabe do ódio que carregarei de você. Embora o ame.
O vento soprava-lhes no ouvido mentiras, fixava o som dos domingos, o gosto acre das palavras.


*A quem convir, onde se lê 'vento' leia 'desespero'. 

FUGA

“Essas bolhas que você tem nos dedos das mãos e dos pés têm uma justificativa: acido úrico”, era o que Inês dizia, fruta cítrica, eu despreocupado. Talvez tenha me tornado filho da Angola em 1888, ou do Cabo Verde, no mesmo ano, ou do Brasil muito antes, em 20 de março de 1662, que de Portugal sempre fui. Terei enfim me libertado das presenças absurdas, das bruxas fesceninas, dos gozos, dos desejos, de tudo que não me consola.
Eu sentia algo triste quando Sophia me olhava e sorria. O dia mal começara, não tinha sol, tinha picnic e grama, atrás de uma Igreja, embaixo de uma árvore. O corpo tão conhecido esperava o bronze, enquanto eu, aplicando meus remédios, fugia daquele lugar, daquelas mulheres, porém tudo me fugia também. No imenso gramado verde-marrom eu depositava as minhas esperanças e relembrava que “sou tudo aquilo que me falta, e mais, sou também o óbvio do presente, a dor na carne, renitente, aquele que ri alto, palhaço sem fantasia, entrecortada a gargalhada por soluços e silêncio de solidão”. Concluí no silêncio que a culpa era das cartas jamais entregues, que bom é o Rio de Janeiro, onde o calor é intenso, as roupas são mínimas, os corpos são malhados, a vista é maravilhosa, cenário ideal para o amor - enchia-me de esperança ver um sorriso doce, ouvir um suspiro cansado depois de um orgasmo simultâneo. Tudo era verde-marrom enquanto eu fugia, enquanto a confusão chegava aos meus pulmões.

SOBRAS

Agora que o que me restou foram as sobras do que eu nunca tive, posso, por fim, olhar sem espanto as mentiras sentidas na carne, no suor, aos poucos deixadas para trás. Não que não haja forma erudita para dizê-las - ela existe -, porém não me incomoda a simplicidade: não me têm os sonhos que já sonhei, as roupas que já vesti, os amores que já perdi, as drogas que já usei.
Olho sem espanto como o dia começa e acaba: é como todo o constrangimento pelo fingimento de Andy Kaufman. Acontece que ele não se importava, o meu câncer é outro, não há mantra ou Filipinas, ele não é mortal, embora faça com que tudo se perca. Espero os dias, espero que passem rápido, que eu não os sinta. As sobras do que eu nunca tive, as chaves do apartamento que esperanço explodir junto comigo. Tudo o que me restou, Andy Kaufman, levaram embora: minha mulher, minhas crianças, tudo o que eu nunca tive. O seu câncer era raro e o matou, o meu me perpetua em nada.

#05







Pedido a C.
Envie-me uma foto recente, que do seu rosto pouco me lembro. Uma em que esteja sorrindo (gostava de quando sorria, seu sorriso crescia e seus olhos diminuíam, achava bonito). É uma pena fotos não terem som, sinto falta da sua gargalhada, se fosse possível seria parte do pedido. Por fim, guarde a sua pinta nas costas - a do lado direito, bem onde se encaixava a minha mão esquerda - para mim. Comigo, somente a paciência frete ao tempo.

#04


Justiniano Góes Delgado Godinho, quarentão, contabilista, homem casto e direito, de reputação ilibada e incontestável, simpático mas reservado, de bons e poucos amigos. Quem diria, hein, Justiniano? Se meter em casa de meretriz!

Projeto antigo de um conto sem graça que surgiu em um dia alegre anos atrás.

#03

Estou parado, em pé, no meio-fio do canteiro central. O sol me torra o rosto, mas eu o encaro, a única coisa que vejo é o barulho – duvido das verdades. Mentira nenhuma é tão dolorida quanto as certezas. Buzinas me alertam.

#02

Parece um bom dia para se construir fantasias. Porém, embora esteja saltitante, não é Deus.

BILHETE PARA LAURA E BILHETE PARA MARCOS, JULIANA E MÁRCIA





Caminhava desorientado no centro abarrotado de pessoas, feio e quente de Belo Horizonte: “vou ver Laura, vou ver Laura”, mas não a vi.

***

A cidade de pouco mais de dez mil habitantes parada nas calçadas e mesas de bar a assistir o pôr-do-sol – primeira parada da linha Belo Horizonte/Montes Claros. Todos parecem esperar, pacientes, o dia em que Deus irá lhes presentear com o paraíso: a vida aqui é apenas uma espera. Neste lugar seria fácil encontrar-me com os amigos que não encontrei em BH – o sentimento era de isolação e limitação.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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