“Sem mesmo olhar o rumo das passadas,
/ – Vamos andando para fins distantes...” – Raul de Leoni
Forjo provas, falsifico assinaturas, invento testemunhos.
Contraponho a verdade à demagogia e soo como uma mentira, um sectário do
extremismo. Procuro no dicionário o significado de cada palavra para me
certificar, “faz realmente sentido?”, entretanto esqueço a gramática em um canto da
casa, exposta a respingos da chuva. Exponho o meu ponto de vista, sou pura contradição. Desfaço-me de um livro que não faz sentido algum para mim e ignoro as minhas
necessidades. Procrastino, apenas porque gosto do verbo. Chamam-me de mil coisas e ignoram o que também sou, aquele
que xinga e aperta e cospe e bate.
(Criei personagens nada autobiográficos para que pudesse me
tornar um personagem autobiográfico dos meus personagens... ? ... Inventei uma
maneira de ser o que não era, antes, para depois me tornar tudo o que não era e, então, fazer sentido, completando um looping idiota. Mantive o sorriso no
rosto, amável, amável...).
Sinto que os anos passam e que regrido... Já não acredito em
nada. “– Tudo não passa de autopropaganda”, afirmo. Tento perdoar, mas apenas
esqueço. Penso no “futuro”, entretenho as horas. Aproximo-me da sacada, ainda
chove. Converso com os velhos e eles me dizem que sou jovem, “tens todo o
tempo do mundo”. Tenho todo o tempo do mundo, portanto me acomodo. Espero pela
próxima segunda-feira, ansioso. "Amanhã darei meia-volta", porém não retorno. E
se retornasse?