1989

JANEIRO
12 de janeiro de 1989
Inês, a bela. De uma beleza crua, quase malvada. Os traços leves circunscreviam uma tristeza apaixonante, a magreza revelava a fome interna. Mas era bela, do seu modo, no seu calor, nas suas palavras. Conhecemos-nos no dia 1º de janeiro, em uma banca de jornal de uma praça, ambos líamos a manchete do Jornal do Brasil sobre o naufrágio do Bateau Mouche no Rio de Janeiro. A última edição da banca. Não iria comprar nada, parei por curiosidade, mas ela estava lá, surpreendente, com seu francês perfeito, o olhar absurdo, ne me quitte pas. Apesar de tímido, iniciei a conversa despretensiosa.
-Você quer levá-lo?
-Se você quiser...
-Não, pode ficar, compro em outra banca.
-Tem certeza?
-Tenho. Tem fósforo ou isqueiro?
-Não fumo. Fazemos assim. Nós dois compramos o jornal, sentamos em um banco aqui da praça, enquanto ler um caderno eu leio outro, o que acha?
-Por mim, tudo bem.
Sentamos em um banco de frente ao coreto, havia um grupo de crianças ensaiando uma música para a Igreja:
“A boa nova proclamai com alegria:
Deus vem a nós, ele nos salva e nos recria
E o deserto vai florir e se alegrar,
Da terra seca, flores, frutos vão brotar.”
Fizemos conforme o combinado, enquanto ela lia sobre política, eu lia sobre cultura, calados como desconhecidos que éramos. O domingo estava indo embora no horizonte, o céu exibia um azul rosado limpo de nuvens, um calor agradável chegava do sol que descia preguiçoso. A praça estava repleta de crianças. Parecia não haver tristeza ali, no meio dos cantos, das brincadeiras e das conversas alegres, aquilo me contagiava. Sorria para todos, inerte no banco, Inês ao meu lado permanecia concentrada nas letras miúdas do jornal. Alegrava-me a possibilidade de uma vida sempre assim, clara, quente e feliz, mas eu estava sozinho por dentro, não devia pensar muito, poderia estragar aquela sensação boa, alegre. Deixamo-nos ali, sentados no banco cerca de uma hora, não pensava em nada, estava com uma estranha e preocupava-me apenas em permanecer concentrado nas brincadeiras, sonhando através daquela meninice que tomava a praça, para depois acordar.
Inês, surpresa com o sino da Igreja que marcava seis horas, tirou da bolsa uma caneta, anotou um endereço na primeira página do jornal, entregou-me e se despediu:
-Tenho que ir. Me procure neste endereço para dividirmos outro jornal.
-Mas, como você se chama?
-Inês. E você?
Quando fui dizer meu nome ela colocou o indicador em meus lábios.
-Não, melhor assim, gosto de mistérios.
-Mas... esse é o endereço de onde?
Cantarolando, me lançou sua voz aveludada:
- Ne me quitte pas. Je t'inventerai des mots insensés que tu comprendras. Je te parlerai de ces amants là qui ont vu deux fois leurs coeurs s'embrasser. Ne me quitte pas.
Sorriu, virou-se e sumiu na confusão frente à Igreja.

20 de janeiro de 1989
Havia acumulado várias faltas injustificadas em pouco tempo. O que eu poderia esperar se não ser despedido? Isso importava em algo? Não, não importava, mas somava e incomodava, dava desgosto e impaciência. Por mim não voltaria àquele lugar, tampouco me procurariam. O que me levou à responsabilidade eu nunca soube. Já estava cansado de tudo, dos meus passos errados, de toda a minha vida errada, e raramente tinha motivação para fazer algo. Por isso não sei de onde tirei motivação para procurar a redação do jornal.
-Bom dia.
O bom dia saía da minha boca áspero, quase um insulto.
-Não precisa nem sentar-se, pegue suas coisas e vá à minha sala acerta as contas.
Não questionei, não mudei a minha expressão, continuei apático e subserviente. Peguei as minhas poucas coisas, fui à sala pegar meu salário ínfimo. Saí sem agradecimentos, desculpas ou despedidas. Simplesmente desci as escadas e fui a um café.
O calor àquela época do ano é espantoso. Impossível não reclamar. As chuvas que aparecem no verão não duram muito, caem com raiva ou mal caem. Pois foi por causa de uma dessas chuvas que eu conheci Marcelle. Eram doze horas e quarenta e cinco minutos, e disso tive certeza.
Na televisão do café vi George Bush tomar posse. Pela janela vi passar Inês. Corri para a rua, tentei alcançá-la, mas a perdi de vista. Voltei ao café, da porta vi uma mulher sentada em uma mesa, de costas para mim, cabelo loiro, pele alvíssima. Conhecia-na de algum lugar, não me lembrava de onde. Precisava saber as horas, tinha marcado com Edgar de almoçarmos juntos, mas ninguém tinha relógio, apenas a mulher de costas. Caminhei até ela e toquei-lhe o ombro, ela virou-se séria, mas tão logo colocou os olhos em mim abriu um leve sorriso, que tratou de fechar após a minha primeira pergunta:
-Poderia me informar as horas, por favor?
Olhou séria para mim, depois para o relógio, e respondeu seca:
-Quinze para uma.
Agradeci, voltei ao meu lugar e acendi um cigarro. De onde estava ela disse:
-Não suspeitei que estivesse tão bêbado naquela noite.
-Como?
-Marcelle, muito prazer. Dormimos juntos no reveillon.
Senti o coração apertar, querer saltar pela garganta, engasguei-me com a fumaça e soltei um sorriso amarelo e estúpido. Todos tinham os olhos em mim. Ela continuou:
-Melhor assim.
Levantou-se, jogou uma nota sobre o balcão e saiu café a fora. Chamei-lhe pelo nome, mas ela entrou em um táxi e desapareceu no caos do trânsito.
Desnorteado, traído pela minha memória, vítima de encontros e desencontros, fui à churrascaria almoçar com Edgar, estava um pouco atrasado, mas ele nunca se importou com isso, hábitos brasileiros devem ser mantidos e cultivados, dizia ele. Edgar era um velho amigo, crescemos juntos, vítimas da amizade de nossos pais, todos eles surrados na ditadura, colegas de faculdade, de briga e de porre. No aniversário de cinco anos de formandos deles fomos todos ao México assistir a Copa de 70, Edgar e eu com seis anos, ele cinco meses mais velho. Lembro-me de termos ganho a camisa 10 de Pelé. Lembro-me também dos quatro gols do Brasil, Edgar, para a minha alegria, só se lembra do gol da Itália. Em um telefonema meu pai ficou sabendo que nossas casas foram reviradas pelo DOPS, só então soube que havíamos saído do país ilegalmente. Por isso, com ajuda de amigos e familiares, permanecemos no México depois da Copa, e mais um tempo, no fim, dois anos, depois nos mudamos Londres, até voltarmos escondidos pela fronteira com o Paraguai em 1980. Edgar e eu vivemos todas as confusões dos nossos pais, daí o acidente de berço da nossa amizade. Agora estávamos tranquilamente almoçando em uma churrascaria, sob o manto protetor da Constituição de 88.
-Viu a posse do Bush?
-Pois é, o cretino, como se não bastasse ter sido diretor da CIA, ainda tem que ser presidente dos Estados Unidos. Não vai dar em coisa boa.
-Pela primeira vez em anos fiz uma oração, agradecendo por não ser americano.
-Fez bem.
-Fui demitido hoje, devem estar soltando foguetes na redação a essa hora.
-Não fico surpreso. Além de chato, de dar esporro em Deus e o mundo, faltava feito noiva displicente, além de chegar de porre sempre.
-É, obrigado. Agora terei que procurar emprego, não sei o que é pior.
-O melhor que faz, meu caro, é tomar jeito. Senão, vai acabar pobre e solteiro, sem um cruzeiro para o puteiro.
-Tomar jeito para quê? Tenho o seu apartamento para morar, a sua comida para comer, sei que não vai negar abrigo a um necessitado.
-Melhor não abusar, não sou a Madre Tereza.
-Seria chato se fosse, não suportaria o sermão.
-Enfim, o que vai comer?
-Picanha e tropeiro. Têm farofa de porco aqui?
-Têm. Não sei o que peço, eles fazem um robalo assado que é divino.
-Garçom! Dois chopes! Conheci uma mulher um dia desses, chama-se Inês, bonita, me deu um endereço, mas isso foi há quase um mês e ainda não a procurei. A vi passar de longe, tentei alcançá-la, mas a perdi de vista.
-Por que não a procurou ainda?
-Não sei, estou estranho. Acredita que uma mulher, uma tal Marcelle, me disse hoje em um café no centro que eu dormi com ela no reveillon?
-Marcelle? Como ela é?
-Loira, branca, muito bonita. Conhece?
-Claro, conversei com ela na casa do Fernando, no reveillon, eles são primos. Quer dizer que traçou ela, hein?
-O pior é que nem me lembrava. Ela ficou muito nervosa, e eu, claro, com a cara no chão.
-Por isso que você sumiu antes da virada.
-Deve ter sido.

ANO NOVO
Acordei zonzo, dor de cabeça forte. Duas horas da tarde e ainda estou na cama. Pelos vestígios acho que alguém dormiu aqui, alguém além de mim, claro. O sol me queima as pernas, mas não tenho ânimo para mudar de posição. Minha garganta está seca, dolorida. No criado-mudo dois copos, um na metade, além de um cinzeiro com algumas pontas de cigarro, duas marcas diferentes. Silêncio. O único barulho que escuto vem dos carros que passam na avenida. Quarto andar. É segunda-feira, devia estar trabalhando, mas é o primeiro dia do ano, ninguém trabalha hoje, é o Dia da Confraternização Universal! Não me importo, mas é uma desculpa, e no momento eu preciso de muitas desculpas. Não consigo se quer me lembrar onde passei o reveillon, estava bebendo desde sexta-feira. Lembro-me de algumas fisionomias, mas não dos nomes. Enjoo. Tenho que comprar uma cortina para o quarto, não suporto essa claridade, não consigo sequer pensar assim. Maldita ressaca. Uma voz doce, sim, uma voz doce esteve aqui ontem, unhas vermelhas. Não me surpreenderia se fosse um homem quem tivesse dormido aqui, mas tenho certeza que foi uma mulher de voz doce e unhas vermelhas. O cheiro ainda está no travesseiro e esse cheiro é de mulher. Onde a encontrei? Maldita dor de cabeça. Terminarei este copo, fumarei um cigarro e darei uma volta na praça. Droga de ano novo.

21 de janeiro de 1989
1
Um início de ano estranho, grande 1989! Não tinha emprego, minhas economias eram poucas, o aluguel estava atrasado, o carro acumulava multas, duas mulheres me tomavam os pensamentos. Não seriam assim todos os anos? Excetuando alguns detalhes mínimos, creio que todo início de ano era assim, mas o que realmente os diferiam era eu mesmo. Eu não era o mesmo em todos os inícios de anos que eram praticamente iguais. Em alguns me sentia bom, em outros, mau. Em alguns inícios de ano o que eu fazia era certo, em outros, errado. Em que eu era diferente naquele ano?
Pressentia um desastre, fato que não me ocorreu em todos os outros inícios. Sentia um vazio, distanciava-me da realidade. As ideologias morriam aos poucos, entrávamos em um período de tranquilidade excessiva que me atormentava, acostumado às badernas e incertezas. Era um vazio amoral, egoísta nas raízes, descrente de tudo e todos. Qual o sentido em acordar cedo sabendo que irá dormir tranquilo? Defendia valores mesquinhos, tendia a uma triste ideia de superioridade, de ser especial, melhor que todos os que me cercavam, vã vaidade. Era preciso uma válvula de escape, um refúgio para as dúvidas.
A angústia em que me lançava lembrava-me do acidente sofrido na infância. Tinha cerca de cinco anos e havia passado algum tempo desde que eu me vira pela última vez no espelho. Estava assustado, por quê? Não existiria nada além de mim mesmo refletido, eu sabia, mas uma curiosidade me consumia, e ainda assim não conseguia me aproximar. Um dia criei coragem, fui chegando devagar, pelo canto, até que, num impulso misterioso, me joguei contra ele. O espelho se quebrou com violência em infinitos cacos, e eu me cortei em infinitas retas, perpendiculares, adjacentes. Porém isso não me doeu, o que me doeu mesmo foi ter a certeza de que não existia nada além do espelho, além da minha imagem a fitá-lo.
2
Temia estar envelhecendo rápido. Trinta e cinco anos. Enquanto esperava uma entrevista a secretária me perguntou:
-Quantos anos o senhor tem?
-Quantos anos acha que tenho?
-Por favor, não desperdice meu tempo.
Desperdiçar o tempo! Passava o dia folheando revistas e assistindo a televisão.
-Tenho vinte e cinco.
Foi fácil perceber o espanto da secretária. Eu devia aparentar ser bem mais velho, no mínimo quarenta anos. Alimentava-me mal, dormia pior ainda. Não me exercitava, bebia em excesso, fumava em excesso. Não podia me queixar da minha aparência, era simples consequência do meu estilo de vida.
3
Às vezes sentia-me estagnado em um vazio atemporal, como se tudo desaparecesse e junto com o tudo o tempo, então me via sozinho em uma infinitude branca, deitado, suando frio, sem sentir os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos. Porém sempre retomava a consciência e voltava ao barulho, ao calor, à poeira, ao tempo.
4
Felizes aqueles
Que de birra, de pirraça
Tomam-se por rotos na vida
Vivendo a deslizar no ar
Como um saco plástico
Uma folha seca
Uma fumaça preta
Uma andorinha torta
Um pardal torto,
Piolhento e feio.

27 de janeiro de 1989
1
Voltei ao café um dia à tarde para perguntar sobre Marcelle. Perguntei ao garoto do balcão se ele sabia de uma mulher loira, clara, bonita, bem vestida, que esteve ali cinco ou seis dias atrás, ele me respondeu que não se lembrava de todos os que frequentavam o lugar, mas se lembrava de mim e do ocorrido, e que aquela mulher era frequente no lugar, principalmente pela manhã. Dei-lhe uma nota de cinquenta cruzeiros e fui dar uma volta. Lembrei-me do endereço que Inês havia anotado no jornal. Tinha escrito um horário para procurá-la, e eu estava no horário. Estava com o pedaço do jornal contendo o endereço na carteira, resolvi ir até lá.
Era um escritório de arquitetura. Perguntei por ela, a secretária me disse que tinha saído para resolver alguns problemas do escritório, mas voltaria logo. Pediu-me para esperar, indicou um sofá, azul aveludado, “sinta-se à vontade”. Sofá confortável, lugar confortável. Paredes brancas recheadas de quadros, em uma parede exibia peças da pop art, em outra, modernistas brasileiros. Além do sofá azul, uma mesa vermelha com uma réplica em miniatura de um conjunto habitacional bastante curioso, os prédios se pareciam com pênis, de ambos os lados duas semi-esferas, não entendi o que eram. Haviam duas poltronas brancas, confundiam-se com a parede. Na fantasia da sala perdi cerca de meia hora. Quando estava começando a ficar cansado ouvi passos no corredor que estacaram na recepção. A voz de Inês me inebriava.
-Olá Dora, alguém procurou por mim?
Pelo tom de voz a pergunta pareceu mecânica, habitual.
-Sim.
-Sim?
Baixinho a secretária explicou que um homem alto, magro, barba mal feita, estava a esperando na sala de espera. Um breve silêncio antecedeu o barulho dos seus passos em direção à sala. Da porta, com um sorriso tímido, bela e sufocante, me perguntou:
-Então resolveu aparecer, estranho?
-Eu gosto de surpresas.
-É uma boa surpresa. Importa-se de me esperar sair? Daqui meia hora, mais ou menos.
-Já esperei meia, por que não esperar mais meia?
-Lhe trarei um livro, para se distrair.
Trouxe-me uma peça do Chico Buarque e do Ruy Guerra, Calabar. Acho que a intenção dela era me fazer esperar mais, porque, entregue à leitura da peça, permaneci ali uma hora e meia. Quando voltou me convidou para irmos até um bar ali perto, eram quase sete horas da noite. O bar era interessante, meia-luz, chão, bar, mesas, cadeiras, tudo de madeira. Nas paredes retratos antigos de músicos americanos de jazz. Uma névoa de fumaça tomava o lugar, ao fundo, sob uma luz vermelha, tocava um grupo de jazz, casais conversavam animadamente. Sentamos afastados do palco, em um lugar mais calmo, menos iluminado.
-Não fuma mas frequenta este lugar?
-Estou tentando parar. Aqui dou algumas tragadas indiretamente, alivio a vontade.
-Lugar bacana, vem sempre aqui?
-Nem sempre, mas venho geralmente no sábado.
Tomamos duas garrafas de vinho, escolhidos por ela. Cometia loucura, lugar caro e eu desempregado. Conversamos por horas, sempre sobre ela, nunca sobre mim. Como dizem os judeus, quando o vinho entra, os segredos saem. Era formada em filosofia e arquitetura. Nasceu no Rio de Janeiro, mas assim que nasceu mudou-se com a família. Morou em Madri, Valência, Lisboa, Casablanca, Cidade do Cabo, em decorrência do trabalho do pai, diplomata. Voltara ao Brasil havia seis anos, terminara o curso de filosofia havia um ano. Perdera a virgindade aos quinze com um argentino, na Espanha, colega de classe. Traíra todos os namorados. Odiava a mãe, que largou o pai quando ela tinha 10 anos e voltou para o Brasil, casou-se com um desembargador no Rio de Janeiro, se viam raramente, falavam-se mais raramente ainda. Em um ímpeto mútuo nos beijamos, perguntei se na minha casa, ela me disse:
-Não, claro que não.

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não consigo terminar este conto... 

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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