GLORIOSO DO MONTE BELO

O dedo indicador da mão esquerda em riste, irascível, olhos agudos, Jorge esbravejava:
-É questão de higiene pública! Tão entendendo? Higiene pública!
Em seu rosto corado e gordo escorria suor, sua imagem era cômica, os “acusados” riam disfarçadamente, porém se mostravam assustados.
-Onde já se viu, em um condomínio familiar, um grupo de jovens de boas origens comportarem-se de tal maneira, como se macacos fossem, pior, como se cães fossem, vivendo de praticar obscenidades, a espalhar seus gritos animalescos por todo o prédio, promiscuidade desenfreada. É possível identificar as vozes dessas donzelas, vozes não, ganidos, e o pior, ao mesmo tempo, junto com os gemidos e as gargalhadas destes rapazes. É uma injúria, uma afronta à moral, caros vizinhos, estas meninas podiam ser minhas filhas, e, de uma coisa tenho certeza, jamais permitiria que se comportassem como estas tais! Se querem tanto fu... praticar essas obscenidades que vão morar em um motel, lá não incomodarão ninguém, tampouco espalharão a rebeldia e a desenvoltura nas mulheres do nosso prédio. Voto pela expulsão destes jovens, com base no art. 12 do nosso estatuto social.
Tirou do bolso um lenço, passou-o na careca e na testa, respirou fundo, ar de vitória, preservação dos bons costumes, pensou. Sua mulher, solidária, abanou-o com a bolsa, soprou-lhe o rosto, para retribuir o carinho Jorge repousou a mão sobre a sua coxa, trocaram sorrisos.
Os jovens que promoviam os bacanais foram expulsos do condomínio, glória de Jorge. O ambiente familiar do Condomínio Monte Belo devia ser preservado. À noite, Jorge, para comemorar a boa oratória, abriu o Jack Daniel’s 25 anos que recebera de um cliente, “esse é para ocasiões especiais, hein Jorge”. A esposa lhe serviu frios. Levemente embriagado, disse à mulher que "queria" naquela noite. Transaram por baixo do lençol, ele vestindo pijama, a luz apagada. Após, silêncio e sono. Enquanto isso, no quarto ao lado sua filha de 17 anos refletia se deveria abortar ou contar aos pais sobre a gravidez. Devia estar no segundo mês, se abortasse ninguém saberia, ainda não contara ao namorado, no outro dia pensaria melhor.
Na manhã seguinte, Jorge foi para seu escritório de advocacia alegre com a vitória no condomínio, chegou a cantarolar durante o café. Tão logo saiu sua mulher ligou para a recepção, falou com o porteiro que terminaria o turno em 10 minutos “estou esperando”. O porteiro e Jorge trocavam cumprimentos todas as manhãs, Jorge não lhe olhava nos olhos, não via o sorriso malicioso do porteiro. Quatro dias depois a menina abortou com remédios, uma amiga lhe indicou, o namorado sequer soube, tampouco os pais. Jorge era um semi-deus.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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