sobras

Agora que o que me restou
foram as sobras do que eu nunca tive
posso, finalmente, olhar sem espanto
as mentiras sentidas na carne no suor
aos poucos deixadas para trás
Não que não haja
forma erudita para dizê-las
- ela existe
porém não me importa a simplicidade:
já não me têm
os sonhos que já sonhei
as roupas que já vesti
os amores que já perdi
as drogas que já usei
Olho sem espanto
como o dia acaba
e recomeça: é como todo o constrangimento
pelo fingimento de Andy Kaufman
Acontece que ele não se importava
o meu câncer é outro
não há mantra ou Filipinas
ele não é mortal
embora faça com que tudo se perca
Espero os dias
espero que passem rápido
que eu não os sinta
As sobras do que eu nunca tive
as chaves do apartamento
(que esperanço explodir junto comigo)
Tudo o que me restou
Andy Kaufman
levaram embora: minha mulher, minhas crianças
tudo o que eu não tinha
O seu câncer era raro e o matou
o meu me perpetua em nada.

10/2009

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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