hidra

Eu deveria ter ouvido melhor os conselhos da minha irmã, é o que digo de início, talvez não explicite o motivo. Depois de uma queda na escadaria do Morro da Forca, em Ouro Preto, em que bati a cabeça em uma árvore, um zumbido me incomodava diuturnamente, até mesmo nos sonhos, quando me via neles, sei que o ouvia. Não procurei médico porque não gosto de ir ao médico, qualquer que seja, exceto uma vez em São João Del-Rey em que fui obrigado, já que desgraçadamente míope, a ir à oftalmologista, uma loira estonteante, com menos de trinta anos, lábios carnudos, rosto retangular, de maxilar firme, nariz fino e reto, olhos castanhos. Gostei apenas dessa consulta, aliás, não da consulta, da médica, que vestia uma calça branca, levemente transparente, colada ao corpo, cuja calcinha fio-dental era possível de se distinguir. Todas as outras vezes foram torturantes. Onde eu estava? Ah, sim, no zumbido.
Dores às vezes me são agradáveis, não pelo fato de gostar da dor, mas pelo fato delas me fazerem sentir vivo. Não respondo a estímulos externos com facilidade, um “oi, tudo bem?” passa por mim batido, e isso dificulta a minha convivência com os demais da minha espécie. Não respondo e quase nunca falo, apenas observo. Mesmo enquanto observo, o torpor me invade a consciência, então não penso em nada. De fato penso, mas é um pensar estúpido, não-reflexivo. Por isso as dores me são agradáveis. Mais que isso, elas me são úteis. É um incomodo latente na carne que a minha indiferença não consegue afastar.
Estava em uma boate, dessas que as pessoas cool vão para dançar músicas moderninhas, beber, cheirar e tentar ser mais cool que o próprio cu, permita-me ao menos um trocadilho barato. Na fila para pagar a conta e ir embora encontrei uma velha ex-namorada que me aborreceu por cerca de meia hora enquanto também esperava na fila. Apliquei meu golpe estratégico, fingi ter perdido a voz, devido às complicações respiratórias e por toda a gritaria da noite. Ela me conhece e é claro que não acreditou, entretanto uma fisioterapeuta – acreditei em tal diploma – que estava na minha frente na fila se virou para mim, colocou suas mãos aveludadas em meu pescoço, me fez uma massagem, e milagrosamente me fez recuperar a voz. Paguei a conta e a levei para o carro. Acho que os fatos narrados bastam.
Não transamos naquela noite, apenas dormi com a alegria barata de uma punheta mal batida e não finalizada. Telefone anotado no bíceps fraco, a deixei em casa depois de cheirarmos no painel do carro. Esqueci de contar que isso aconteceu antes da queda nas escadarias em Ouro Preto. Enfim.
Não sei quanto tempo depois, um mês talvez, depois da queda, telefonei para ela, sem lembrar de nome, nada, “alô” - “oi, quem tá falando?” – “com quem você quer falar?” – “é o Leo...” – “Leo?” – “é, da Velocet...” – “ah, oi, tudo bem?” – “tudo, é que eu tô com um zumbido no ouvido direito, e como você é médica pensei que poderia me ajudar...” – “sou fisioterapeuta.” – “isso, isso mesmo.”. Marcamos um encontro. Virei o mundo para descobrir o nome dela através da lista telefônica. Não foi tão difícil, procurei nas páginas amarelas.
Ela era bonita mas não chegava a uma deusa como a oftalmologista. Ruiva, sardas no rosto, pintas muito bem distribuídas pelas costas e peito. Magra, parecia uma menina de dezessete anos, não sei. Ana Mia o nome dela. Nome estranho, pensei, quando falado com ênfase soa como MAMA MIA! Coitada. Saímos para jantar e jantamos. Quase não falei, por sorte ela era extrovertida, dessas pessoas que bastam um aceno com a cabeça para continuarem a falar, talvez seja egoísmo, creio que não. Depois de três garrafas de vinho comecei a ficar alegre porque me sentia bem, ela me deixava à vontade, comecei a contar várias mentiras apenas para fazê-la rir, e riu. Riu tanto que me convidou para o seu apartamento, para onde fomos. Sem delongas, transamos, e muito, mas ela por cima, não permitiu que a tocasse, quis saber o motivo, ela respondeu “cala a boca, se não estiver bom assim a gente para”. Tudo bem.
Não, ela não sabia como tratar do zumbido no meu ouvido, recomendou que eu procurasse um médico, descartei o conselho. Com um mês de jantares e sexo ela-por-cima, começamos a namorar. Eu quase nunca falava, e quando falava contava somente mentiras. O zumbido ali. Com dois meses de namoro o zumbido começou a ter picos de intensidade que me descontrolavam, dor insuportável. Decidimos fazer nossa primeira viagem juntos, iríamos passar um fim de semana em Milho Verde, distrito de Serro, vilarejo tranquilo com bonitas cachoeiras. Estávamos ansiosos. Eu, nas minhas loucuras de homem arredio, pensava até em pedi-la em casamento. Estava apaixonado, absurdamente apaixonado.
Às vezes sinto que sou responsável por dez mil vidas. Meço meus movimentos e tenho a sensação de sempre estar sendo observado. Quando vou a um restaurante, se estou sozinho, penso que todos me observam comer, então erro a garfada, dou com o garfo nos dentes, derramo comida, derrubo a bebida, uma vez caí da cadeira de nervosismo. Meus poucos amigos eu não os procuro, é raro. Gostam de mim não sei o porque, e me culpo por isso. Culpo-me intensamente. Além do pessimismo habitual.
Em Milho Verde ficamos acampados. À noite resolvemos ir a uma das cachoeiras para comemorar dois meses e meio de namoro. Estávamos bêbados e cheirados, eu estava louco para pegá-la de quatro, dar-lhe uns tapas, essas coisas, não deixaria para depois. Descemos até a segunda queda da cachoeira do Lajeado, entramos na água e começamos a nos beijar. Ela propôs que tirássemos a roupa. Eu propus que transássemos em uma rocha que se parecia a uma cama, cerca de dois metros acima do chão. Subimos nus e, enquanto ela esperava que eu me deitasse para que ela se colocasse por cima de mim, a puxei com força e pedi que ficasse de quatro, “não, assim não”, pediu, mas insisti e à força a posicionei de bruços, ela gritou “para, você não sabe...” e se esquivou de mim, escorregando da pedra e caindo no chão, feito um pacote de cimento. Ou melhor, feito um balão de água. Ela se estourou, como se por dentro fosse apenas um gel ralo de cor azul-marinho. Eu não sabia se era efeito do pó, mas não, dizia a mim mesmo, “isso não é alucinógeno, porra!”, ela havia se estourado, e somente sobrara o couro, feito um boneco João-Bobo vazio. Peguei-a com asco e tristeza, meu amor, minha adorada... Tentei enchê-la com água do rio, em vão. Deitei-me no chão, a estendi ao meu lado, acendi um cigarro, enquanto pensava no que fazer. Fumei um maço sem encontrar solução. Pensei em jogá-la no rio, mas o corpo-pele não afundaria, além da dor que sentiria no coração em vê-la partir com as águas. Pensei em vestir sua pele, plano estúpido. Cheirei tudo que trazia comigo. Caminhei por horas na mata seca, o sol nasceria em pouco tempo.
Encontrei uma árvore no meio do nada. Uma árvore enorme, de galhos retorcidos. Repouso eterno ideal para a minha amada ruiva. Subi o máximo que pude, estiquei o corpo de Ana e a preguei nos galhos, braços e pernas estendidos, cabeça virada para o céu, ela estava entregue. Tentei descer mas não consegui, as minhas pernas fraquejaram. Enquanto tentava descer utilizando apenas a força dos braços o zumbido se intensificou, não suportei a dor, minhas mãos soltaram os apoios, caí da altura de quatro metros, batendo a cabeça no chão. Não sentia meus membros. Consegui abrir o olho direito, o sol começava a surgir e a visão que eu tinha era de um formigueiro a poucos centímetros de mim. O zumbido havia parado.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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