CARTA A EDGAR







Como vai, Capitão? Dias atrás estava revendo fotos antigas de quando nos encontrávamos todas as noites na casa de Inês para degustar um bom cabernet sauvignon e assistir os clássicos da nossa lista dos cem melhores filmes de todos os tempos (se lembra?), então tive vontade de lhe escrever. Não pretendo ser longo, que qualquer assunto que criarmos entre nós morre logo, gostamos que os assuntos surjam, possibilitando o precioso silêncio que só se consegue com poucos, silêncio de aproximação. 
Gostaria de perguntar como você está, se seus planos se concretizaram ou estão caminhando para isso, se tem visto a Inês de vez em quando aí na capital, se ela ainda pergunta por mim, mas acontece que o que cá me aflige necessita ser compartilhado com você com maior urgência. “Como um barco bom, eu vou, eu vou”, se lembra? Pois não sou mais que uma canoa furada. Em tudo o que vivemos, esteve todo o tempo lúcido, sabia que eu iria me perder, levar daquele jeito as coisas foi loucura. A minha vida desregrada nunca se revelou a Inês, até hoje creio que ela apenas desconfie, sinto que sequer pensa nisso. Na velocidade em que íamos, eu achava que podia fazer o que quisesse, ter quem quisesse, tudo era muito fácil. Com o tempo e com a perda das ideologias em decorrência dessa vida ordinária que bem sabe, tornei-me estranho a mim mesmo, esforço-me em tornar ao que era, não tenho forças. Da obstinação que tive ao terminar com Inês pouco sobrou, menos por amor me arrependo, mais por desespero, ela era uma ponte que me ligava a mim mesmo, através dela eu me encontrava. O amor louco que por mim sentia, hoje não restou um telefonema, e o tempo passa. 
Queríamos ser literatos, boêmios, felizes cantar nossos sambas, mas nos fechamos em um mundo só nosso, tudo ruiu. Pouco creio no meu futuro, emprego, filhos, essas coisas. Desconfio de que seja estéril, preciso ir ao médico o quanto antes. O trabalho me mata aos poucos, diariamente, vejo-me uma máquina apenas. A solidão me assola, Capitão. Preciso visitá-lo, mas não tenho dinheiro, talvez no próximo mês eu vá, é preciso extrapolar os limites deste cubículo em que vivo. Levarei as fotos, sei que também sente saudade. Barco nenhum navega só, se o faz, se perde.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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