PETIÇÕES E PORTUGUÊS

Roda morena que eu quero me reconhecer em sua dança, canta que eu quero ouvir os seus cantos de amor e de tempos de paz. Tinha a melodia da música e fragmentos da letra me atormentando, pedindo que eu a cantasse, emendei o trecho da letra, deu-me vontade de escrever uma poesia dali, mas cada vez mais me sinto menos disposto a escrever poesia, sinto repúdio até.
Vinte horas por semana, quatro horas por dia, leio petições, enxergo seus defeitos, às vezes dá graça, às vezes tristeza, desdenham tanto da nossa língua, fazem-na mero instrumento do documento, como se, além da razão, da matéria intelectual, do direito do autor, do pensamento jurídico, houvesse apenas um mundo menor no qual se encontra o português escrito, que é, devido à sua inferioridade, desprezado. Não sou mestre, não domino todas as regras, porém prezo pela boa escrita, dou a ela valor, não de forma inversa à das petições, mas sim de forma a igualar os valores entre o pensamento intelectual jurídico e o português escrito, que, utilizados equitativamente, expandem o entendimento e convencem, até mesmo quando não caiba convencimento algum.
Eram aproximadamente três horas e meia da tarde – horário em que suspendo o trabalho por dez minutos, tempo suficiente para tomar o café “além do amargo ideal” ou “doce demais” da Dona Selma, Selminha por respeito ao seu rosto jovem – quando cantarolei a melodia, emendei a letra. Estava cansado, não tanto pelo encargo, o que me cansou foram as petições mal escritas, broxantes. Entrei no curso de direito pelo simples fato de gostar de ler – além do dinheiro prometido, a frustração das ideologias. Se soubesse que iria ler tanta porcaria...

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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