Passo por eles no mínimo quatro vezes por dia, cinco dias por semana, estão sempre com as mesmas expressões, sub-humanos. Conheço-os assim como eles me conhecem, somos semelhantes dentre os carros, na cidade suja e quente. Há o hippie por quem tenho simpatia, sei que todos os dias gasta o dinheiro com marmita, pinga e cigarros em um bar próximo à minha casa, um dia bebeu da minha cerveja, ele pediu, claro. Raramente lhe dou alguma esmola, quando o faço é irrisório o valor, dez centavos no máximo. Nunca ouvi sua voz, ele vem como um zumbi, a expressão estúpida, os braços fracos, não vejo suas pernas se moverem, é como se flutuasse. Às vezes põe um pote na janela, às vezes um boné, nunca diz palavra, todos o entendem. É o único a quem dou esmola porque é descarado, não engana ninguém, todos sabem o que faz com o que ganha, de manhã até tarde da noite permanece no mesmo sinal. Há a defunta do próximo sinal, nunca lhe dei esmola, enquanto arde ao sol, seu marido (?) descansa à sombra das árvores do canteiro central, faz das pedras travesseiro, sente-se um rei, apenas recebe os tributos dos súditos, a arrecadadora permanece no sinal. Nos fins de semana carrega uma criança consigo no colo (será sua filha?), ambas ao sol, poucos resistem, ignoram a absurda vossa majestade à sombra. Como o hippie, jamais ouvi sua voz, sua aparência me dá raiva, sua expressão tão estúpida, máscula, é malandra, ou melhor, sustenta um malandro, não suporto vê-la. No mesmo sinal, como que alternando, há o aleijado, ser grotesco, Quasimodo por fora e por dentro. Sustenta-se em um par de muletas, tem os pés torcidos, paralisia infantil, suponho. Mudo para mim, nas poucas vezes que se dirigiu ao meu carro suava e tremia, parecia prestes a desmaiar, tive-lhe asco, ser tão ridículo, ao mesmo tempo tão semelhante a mim. A escória da sociedade, apenas sombras, enquanto passo no meu carro, semblante de uma vida sem restrições graves. Apesar de tudo me calo, estúpido, no fundo entendo-os, como quem entende um amigo.
PILOTO
- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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