NAQUELA OCASIÃO OU "TODO ÓDIO DA VINGANÇA DE JACK BUFFALO HEAD"


Hoje, após não sei quantos anos – consigo me lembrar apenas do dia, 08, e do mês, março – encontrei um discurso que começamos a escrever juntos e que nunca terminamos, sobre uma tal de política, um discurso social do qual nada sabíamos, mas que insistimos em escrever inspirados em Darcy Ribeiro, “Notícia de última década: a canalha impera, robusta como um touro. Somos uma nação entregue aos interesses de uma elite politizada, porém insignificantemente humanizada, que não tem no seu encalço revoltosos efetivos, altruístas, embebidos do sentimento de nação; os poucos que se revoltam o fazem egoisticamente, e, em geral, são estereotipados, ‘marxistas de ouvido’, ineficazes...”. Encontrei-o dobrado dentro de um envelope grande cheio de recordações dos meus meses no exílio em São João Del-Rey – adquiri a mania de guardar bagulhos depois de assistir um documentário sobre o Andy Warhol, que encaixotava tudo que parecia ser trivial – e com isso ressuscitei você, cujo destino eu desconheço completamente.
Era uma festa de república, não me lembro o nome, porém sei que era uma república feminina e que ficava próximo ao Bar 70, esquina com a Avenida Leite de Castro (lembro de você rindo por eu achar que a avenida se chamava Lady Castro). Você chegou perto de mim, pediu um trago do meu baseado e eu ri, você não tem idade para isso, afirmei. Descobrimos que na verdade você era mais velha que eu oito meses e que eu era quem ainda não tinha idade para aquilo. Ofereci meu Johnnie Walker Black Label, era a bebida adequada para o Matanza que tocava no estéreo da casa, e você discordou, disse que rum ou gim seriam os adequados, deu um trago direto da garrafa, você disse ser falsificado, parecia-se mais com licor de pequi – nisso nos descobrimos conterrâneos, nascidos no mesmo hospital, Santa Casa de Misericórdia –, preferiu permanecer na garrafa de Jose Cuervo que bebia com suas amigas.
Após horas de conversa combinamos que iríamos percorrer a Estrada Real juntos, conhecer a América do Sul e o caminho místico de Santiago de Compostela. O que mais aconteceu caberia contar aqui? Seu nome ficou perdido entre as consoantes do alfabeto, logo na primeira letra, nenhum beijo ou sobrenome resta a ser contado. Uma transa em Tiradentes? Uma fantasia... Andarilhos. Busco um endereço, um remetente, talvez encontre apenas a minha esquizofrenia (não detectada) e nela os meus personagens inúteis – tanto quanto a excessiva des(dis)crição.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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