enjoy the silence
É necessário começar por essa noite. Deter-se nela. Enfrentar essa angústia. É por isso que muita gente nunca começa, e fica girando a esmo diante das portas de si mesmos. Falatório e diversão, jogos do sentido e da ilusão, caminhos e descaminhos do mundo e da alma: labirinto.
[...]
A grande tentação é a mentira. Menos por vontade de enganar outrem do que por medo de confessar a si mesmo a verdade. Se é que verdade há. São raras as traições, a mentira mais frequente é a tagarelice. Mente-se por horror do vazio... Mas a tagarelice também é covardia: medo do silêncio, medo da verdade... É palavra amedrontada. E somos todos tagarelas em público, por esse medo. É por isso que a solidão é uma oportunidade: para, pelo menos uma vez, ir até o extremo do seu silêncio. Essa solidão é antes de mais nada interior, e nós somos solidão, como diz Rilke, tanto no casal como no meio da multidão. Mas essa solidão é difícil e não a atingimos de uma só vez. É mais simples, inicialmente, se isolar, no sentido material do termo: o isolamento não é a solidão, mas pode levar a ela. Pedagogia do deserto: criar o vazio em torno de si, para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém; não dizer mais nada; escutar seu silêncio... É preciso começar por se calar, para não mais mentir. O inverno é a primeira estação da alma.”
APONTAMENTOS
BILHETE
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."
QUINTANA, Mário. Poesia Completa. p. 473.
RE: POSTAL
(Em resposta ao postal que me foi enviado através do correio por Laura Cohen)
Estranho conhecer a rotina sexual dos vizinhos de cima que sequer conheço: sexta e sábado, por volta das vinte e três horas, uma cama que fica no cômodo acima do meu quarto provoca um barulho muito característico, e se ponho a cabeça para fora da janela consigo ouvir os gemidos tímidos. Será que são casados? Namorados que se encontram apenas no fim de semana? Não costumo refletir muito sobre o assunto... Se o barulho me incomoda, vou para a sala e assisto a um filme, inicio a leitura de um livro – que não será lido até o fim. Tempos estranhos, porém de otimismo. A sala é o cômodo do apartamento que mais gosto, lá se encontra a minha estante de livros (agradáveis ou não; alguns velhos, outros ainda embalados), e tem uma vista incrível da cidade (cidade estranha, cidade quente) que me faz sentir com o poder de encará-la. Nada em mim me atrai – apesar de ouvir elogios constantemente – a não ser a minha estante, pois a considero uma extensão do que sou. Perderia tudo, roupas, sapatos, carteira, celular, computador, e aceitaria bem, mas creio que não seria fácil me desfazer dos meus (poucos) livros (sentimento mesquinho?). Por isso desejo que as pessoas venham à minha casa, para que vejam a minha face mais bonita, mas quase nunca reparam nela... Tive a péssima ideia de colocar a televisão entre os volumes brochados, certamente esse foi meu grande erro. Quanto à paisagem, essa é mais facilmente admirada, entretanto tenho mantido a cortina fechada, sem saber o motivo. Solto as informações sem nexo nem parágrafo para que entenda o que quero dizer quando falo em “criar cabras”: não quero fazer sentido, não quero ser literato... Quero levar uma vida normal, consciente das minhas ações e de suas prováveis consequências, como quem cria cabras, como Raduan Nassar. E o amor é uma magnífica forma de alcançar esse objetivo. Acredito ter encontrado o amor, por isso escrevi meu primeiro poema "sobre" amor, que os anteriores foram apenas imitações do sentimento. As minhas mulheres... Dissiparam-se porque tudo era apenas sonho. Não pregaram botões em minhas camisas, mas em minha pele, e quase acreditei que existissem. São uma só porque se chamam imaginação, e esta não aceita plural. Existe essa musa que há poucas semanas me fez mudar concepções e novamente crer no amor, aquele sincero e doce, por essa não temo rótulos, já que não carrega intermitência consigo, ao contrário, é perene como os rios mais belos.
P.S.: Laura, eu tenho motivo para tornar pública esta carta em resposta ao seu postal: o carteiro e o porteiro passaram a me olhar com intimidade, como se compartilhássemos um segredo. Achei fantástica essa aproximação silenciosa com desconhecidos, portanto nada mais pertinente que intentar alcançar resultado semelhante via internet.
A DAMA DE ELCHE
about a girl
Half of what I say is meaningless
Texto da contracapa do disco de estreia de Tom Zé, no conturbado ano de 1968:
Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade. O sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições. Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente que ninguém mais pode ser infeliz. Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria. Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade. (Às vezes por outras coisas também). É que o cordeiro de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração. Resta o catecismo, e nós todos perdidos. Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os privilégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado). Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e missificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar. "- Você é compositor de música ‘jovem’ ou de música ‘brasileira’?". A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade... (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra). Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras. Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante. Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia... E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinquente. Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem. Providenciem escudos, bandeiras, tranquilizantes, antiácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amém.
TOM ZÉ
P.S.: Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.
A sociedade vai ter uma dor de barriga moral.
O mesmo
MISTÉRIO ALGUM
“[...]
– Foi esse Gauguin que fugiu? – perguntou repentinamente Ivich.
– Sim – disse Mathieu com solicitude. – Quer que lhe conte a história?
– Acho que conheço: era casado, tinha filhos, não é isso?
– É! Trabalhava num banco e no domingo ia para o campo com seu cavalete, pincéis e tintas. Era o que chamamos um ‘pintor de domingo’.
– Pintor de domingo?
– Sim. A princípio era isso. Um amador que borra telas no domingo, assim como a gente vai pescar. Por uma questão de higiene, compreende, porque a gente pinta ao ar livre, respirando o ar puro.
Ivich pôs-se a rir, mas não com a expressão que Mathieu esperava.
– Acha engraçado que ele tenha começado como pintor de domingo? – indagou Mathieu inquieto.
– Não, não era nele que pensava.
– Em que então?
– Eu estava pensando se a gente podia falar também em escritor de domingo.
Escritores de domingo! Pequeno-burgueses que escreviam anualmente um conto, ou cinco ou seis poemas, para por um pouco de ideal na vida. Por higiene. Mathieu estremeceu.
– Refere-se a mim? [...]”
SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. p. 121/122.
“[...] Estou velho. Eis-me arriado em cima de uma cadeira, comprometido até o pescoço na vida e não acreditando em nada. [...] Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio com sede. [...] É assim que eles me veem, eles, Daniel, Marcelle, Brunet, Jacques: o homem que quer ser livre. Come, bebe, como qualquer outro, é funcionário, não faz política,
SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. p. 77/78.
CARACTERÍSTICAS DA MANIPULAÇÃO IDEOLÓGICA
“ O poder instrumentaliza as ideologias na parte em que estas lhe são úteis e as descarta quanto ao resto. Deste modo, recolhe do sistema de ideias de qualquer autor a parte que lhe convém, com o qual frequentemente tergiversa. Assim, o autoritarismo não tomou de HEGEL a parte liberal, e sim a exaltação do Estado; o racismo não tomou do evolucionismo as advertências prudentes, mas ostentou uma ‘ortodoxia’ evolucionista jamais sustentada com seriedade por seus criadores; as tendências teocráticas tomam das espiritualistas tudo o que faz a resignação em função da justiça do ‘além’, esquecendo que quase todas estas afirmam que é seu pressuposto obrar o justo neste mundo; o psicologismo quietista toma de FREUD ou das outras correntes psicanalíticas o seu aspecto de ‘técnica’, mas passam por alto os contextos sociológicos originários etc.
Esta característica da manipulação ideológica tem um duplo efeito: a) gera em alguns a impressão superficial – e infantil – de que os criadores de cada ideologia foram ou são uma espécie de gênios do mal, que vivem buscando o modo de proporcionar argumentos de justificação ao poder. Este infantilismo analítico leva a afirmações absurdas de que KANT era um obsessivo, HEGEL um delirante, FREUD um traumatizado, as religiões ‘ópio’ dos povos’ etc.; b) por outro lado, se originam intermináveis disputas acerca do que se quis verdadeiramente dizer cada autor, corrente ou personagem, sobre a base certa de que geralmente não disse o que o poder pretende pôr em seus lábios. Estas discussões são as que provocam inflamados manifestos demonstrativos de que NIETZSCHE não disse o que HITLER entendeu, que MARX não disse o que STÁLIN o fez dizer etc.
Não devemos esquecer que, em definitivo, não se pode atacar as ‘ideologias’ pelo mero fato de serem o que são, a não ser que aclaremos o que entendemos por ideologia, porque o vocábulo é equívoco. Há vários sentidos pejorativos de ‘ideologia’, que podem ser sintetizados em dois conceitos fundamentais: a) napoleônico, segundo o qual ‘ideologia’ é produto de uma especulação carente de realismo (algo parecido com ‘utopia’); b) o marxista, segundo o qual ‘ideologia’ é sempre uma superestrutura que encobre a realidade. Nós não usamos ‘ideologia’ em nenhum destes sentidos, mas em um sistema não pejorativo, segundo o qual ‘ideologia’ é ‘toda crença adotada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo por crença uma noção que vincula a conduta e que pode ou não ter validez objetiva’ (ABBAGNANO). Neste sentido, que a crença ou sistema de ideias tenha ou não validez objetiva não afeta o caráter de ideologia, mas é uma questão que deve ser esclarecida pela ‘crítica da ideologia’.
Concebida neste sentido não pejorativo, ao campo de ideologia pertencem todas as criações da cultura, desde as mais inteligentes e sublimes até as mais aberrantes. O que acontece é que, por regra geral, o poder recolhe deste jardim as flores mais aberrantes e as ervas daninhas e folhas secas do resto. Mas isto não autoriza a rechaçar toda a cultura universal, nem a crer que cada criador ideológico é um maléfico psicopata que toma a seu cargo a tarefa de justificar os crimes do poder.
Justo é assinalar que a verdade não pode expressar-se por inteiro em seus conceitos, simplesmente porque a verdade é infinita e a conceituação – isto é, a ideologia – é um recurso finito. Portanto, toda referência ideológica à verdade, inevitavelmente, sempre é parcial. Trata-se de um limite inerente à natureza mesma da ‘ideologia’. Quando se pretende superá-la, afirmando ideologicamente ‘a’ verdade absoluta, excede-se o marco das possibilidades humanas, de maneira nem sempre intencional. A única forma de não cair neste erro é a humildade, ou seja, o reconhecimento da parcialidade de todo o julgamento.”
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Manual de Direito Penal Brasileiro: vol. 01 : parte geral / Eugenio Raúl Zaffaroni, José Henrique Pierangela. – 9. ed. ver. e atual. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011. p. 65/66.
PILOTO
- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
