keep me in mind

Conhecemo-nos por acaso em uma tarde de maio de um ano qualquer. Foi também em uma tarde – embora fosse outro o ano e o mês fosse agosto e o dia, domingo – que nos vimos pela última vez. Os dois fatos ocorreram no intervalo de alguns anos, não mais que dois não menos que dez, o que não significa não tenhamos sido um só corpo ao longo de uma década ou de um século. Nunca se sabe. A única certeza me surgiu apenas naquele último encontro: a cor de seus olhos pendia para o caramelo, muito diferente do marrom quase negro que era a cor de seus olhos quando me perseguiam em sonho; etc.




“[...] Queimando a boca com um enorme trago de vodca, Oliveira passou o braço pelos ombros de Babs e apoiou-se sobre o seu confortável corpo. ‘Os intercessores’, pensou ele, afundando-se suavemente na fumaça do cigarro. A voz de Bessie se tornara mais fina no final do disco. Em seguida, Ronald colocaria o outro lado daquele círculo de baquelita (se era baquelita...) e, daquele pedaço de matéria gasta, nasceria de novo Empty Bed Blues, uma noite dos anos vinte em algum recanto dos Estados Unidos. Ronald tinha fechado os olhos, com as mãos apoiadas nos joelhos marcando apenas o ritmo. Wong e Etienne também tinham fechado os olhos. O quarto estava quase totalmente às escuras e ouvia-se o chilrear da agulha no velho disco. Oliveira mal podia acreditar que tudo estivesse acontecendo. Por que ali, por que o Clube, aquelas cerimônias estúpidas, por que era assim esse blues quando Bessie o cantava? ‘Os intercessores’, pensou outra vez, encostando-se ainda mais em Babs, que estava completamente embriagada e chorava em silêncio ao escutar Bessie, estremecendo a compasso ou contratempo, engolindo o soluço para não se afastar por nada dos blues da cama vazia, a manhã seguinte, o sapato molhado, o aluguel sem pagar, o medo da velhice, imagem cinzenta do amanhecer no espelho aos pés da cama, os blues, o tédio infinito da vida [...].”

Julio Cortázar – O Jogo da Amarelinha




Tenho trilhado meu caminho
Rejeitando (quase sempre) o óbvio

Contraditório sou, às vezes
Mas quem não o é
Diante das incertezas que nos cercam?


"No meu coração há uma paz de angústia, e o meu sossego é feito de resignação."

Livro do Desassossego - Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

sobre a solidão


"A solidão liberta-me e valoriza-me. Enquanto estou só, crio um mundo e me basto; mas uma presença é sempre um raio de sol a reconciliar-me com o mundo exterior".

 José Américo



"A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo".

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)



 SOU EU (ÁLVARO DE CAMPOS)

"Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, 
 Espécie de acessório ou sobressalente próprio, 
 Arredores irregulares da minha emoção sincera, 
 Sou eu aqui em mim, sou eu.
 Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. 
 Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
 Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
 Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
 De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
 Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

 E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, 
 Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, 
 De haver melhor em mim do que eu.

 Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, 
 Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, 
 De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, 
 De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, 
 De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

 Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
 Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
 De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
 A impressão de pão com manteiga e brinquedos
 De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
 De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
 Num ver chover com som lá fora
 E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

 Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
 O emissário sem carta nem credenciais,
 O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
 A quem tinem as campainhas da cabeça
 Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

 Sou eu mesmo, a charada sincopada
 Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

 Sou eu mesmo, que remédio!  ..."



Por que seria a minha dor menos legitimada
Para também ser fogo e ouro, e reluzir intensamente
Se o que se sabe da intensidade da luz
É que não permite concursos, nem se submete a escolhas?
Veja o Sol que me cega ou a coroa do Rei que me espanta...
Ambos encantam sem pedir licença.

Exijo que deixem a minha dor flamejar!
Como se não bastassem a ausência de motivo
E a constância de sua existência
Querem ainda que seja opaca e fria, tímida como o amor ao meio-dia...
Inevitável a revolta.

Que a minha dor seja como o ideal de todas as coisas
Livre para manifestar-se da maneira como preferir...
Que seja fogo e ouro, que arda e resplandeça
Porém, se o silêncio trouxer conforto, silencie-se
Ou a draga da rotina fingirá retirá-la de mim
N’um ato criativo de falsas verdades, de dubitáveis certezas.



“Um homem com músculos e os nervos à mostra. Ferido por tudo e por todos. Inadaptado ao seu tempo e à sua gente. Mas insatisfeito com essa inadaptação. Procurando a todo transe compreender, mas não compreendendo a linguagem dos seus contemporâneos. Fechando-se em sua solidão para resguardar a sua independência. Mas sem nada de misantropo e de desesperado, antes amando profundamente os homens e a vida.”

(Tristão de Athayde sobre Lúcio Cardoso)

*****

“Que é o para sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentido e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”

CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada.




“[...] Meu irmão é dessas pessoas que acham que um poeta deve estar marcado pela desgraça e, sobretudo, que isto tem que ser notado, de modo que quando apareço todo corado e sorridente ele me contempla com alguma suspeita e ainda não tem opinião formada sobre a minha obra. Tenho certeza de que bastaria eu beber o tão argentino copo de cianureto para que ele descobrisse, sobre o meu túmulo, o lírico que hoje apenas imagina.”

CORTÁZAR, Julio. Divertimento.


O tempo, translúcido
Impede que vejamos
Quem fomos / Quem somos
Restam-nos alguns boatos:
Dispersaram-se na multidão
Estão submersos em saudade rasa.



“Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en pobreza y en riqueza a las de Dios y a las de todos los hombres.”
 Jorge Luis Borges

Impossível se encerrar uma existência que sequer teve início
E que, portanto, não tem conhecido lugar algum
Lugares onde também escorre suor – além da cadeia de montes
Lá onde a imaginação não alcança.

Existência inexistente, com tímidos sinais de nobreza
De elevação moral, ainda que venha demonstrar certa indiferença...
(Tenha cautela, há mestres que repudiam imprecisões e reticências
E que enxergam a poesia como arte menor)
Por onde passar verá que o belo ainda persiste
Mas que tudo é claro demais, e acumula poeira demais
Além de estar preenchido com absurdo – que transborda
Restando apenas um leve incômodo na garganta.

enjoy the silence






“É preciso começar pela solidão. Os outros nos distraem, nos divertem, e nos afastam do essencial. Nós mesmos? Não. O essencial está em mim, mas não é eu. Em mim (em meu corpo): esse vazio. É preciso começar por esse vazio. É preciso começar pela angústia. E que seria da angústia sem a solidão? Os outros me dão a impressão de existir, de ser alguém, algo... Ao passo que a solidão, para quem vive sem mentir, me revela meu nada, me ensina minha vaidade, o vazio em mim da minha presença. Verdade da angústia. Descubro então que não sou nada, que não há nada em mim a descobrir, nada a compreender, nada a conhecer, a não ser esse nada mesmo. Solidão e silêncio: a noite da alma. Noite total, a alma não existe.


É necessário começar por essa noite. Deter-se nela. Enfrentar essa angústia. É por isso que muita gente nunca começa, e fica girando a esmo diante das portas de si mesmos. Falatório e diversão, jogos do sentido e da ilusão, caminhos e descaminhos do mundo e da alma: labirinto.


[...]


A grande tentação é a mentira. Menos por vontade de enganar outrem do que por medo de confessar a si mesmo a verdade. Se é que verdade há. São raras as traições, a mentira mais frequente é a tagarelice. Mente-se por horror do vazio... Mas a tagarelice também é covardia: medo do silêncio, medo da verdade... É palavra amedrontada. E somos todos tagarelas em público, por esse medo. É por isso que a solidão é uma oportunidade: para, pelo menos uma vez, ir até o extremo do seu silêncio. Essa solidão é antes de mais nada interior, e nós somos solidão, como diz Rilke, tanto no casal como no meio da multidão. Mas essa solidão é difícil e não a atingimos de uma só vez. É mais simples, inicialmente, se isolar, no sentido material do termo: o isolamento não é a solidão, mas pode levar a ela. Pedagogia do deserto: criar o vazio em torno de si, para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém; não dizer mais nada; escutar seu silêncio... É preciso começar por se calar, para não mais mentir. O inverno é a primeira estação da alma.”

COMTE-SPONVILLE, André. Tratado do Desespero e da Beatitude.



APONTAMENTOS

Amanhecer para o tempo, como se cada fração de segundo tivesse força para transformar o passado - feito um maremoto, devastador e preciso.

Encontrar as palavras certas para dizer o que se quer dizer: o indizível. Pois é esse "de tanto amor", porém sempre muito calado (... de tanto amor, sim, entretanto crê amar de forma errada.)

Projetar-se para o alto, modificando o status quo constantemente. A busca pelo que/por quem lhe acrescenta jamais deve ter fim, e não terá, se tal busca permanecer sincera e serena.



APONTAMENTO

Para esperar que aconteça o que indubitavelmente irá acontecer. Esperar sentado, de braços cruzados, e então, quando chegar o momento, fingir espanto e se questionar sobre o ocorrido. Certas coisas apenas não acontecem duas vezes. A surpresa será velha, porque já terá presenciado aquilo tudo, apenas com cheiro e calor diferentes. Teve tempo para se preparar, mas as pessoas não mudam na urgência de suas necessidades. Enquanto isso, nas horas que antecedem o fato (dez ou dez mil horas?), diz coisas agradáveis a si mesmo em busca de efeito anestésico...



“Sem mesmo olhar o rumo das passadas, / – Vamos andando para fins distantes...” – Raul de Leoni

Forjo provas, falsifico assinaturas, invento testemunhos. Contraponho a verdade à demagogia e soo como uma mentira, um sectário do extremismo. Procuro no dicionário o significado de cada palavra para me certificar, “faz realmente sentido?”, entretanto esqueço a gramática em um canto da casa, exposta a respingos da chuva. Exponho o meu ponto de vista, sou pura contradição. Desfaço-me de um livro que não faz sentido algum para mim e ignoro as minhas necessidades. Procrastino, apenas porque gosto do verbo. Chamam-me de mil coisas e ignoram o que também sou, aquele que xinga e aperta e cospe e bate.

(Criei personagens nada autobiográficos para que pudesse me tornar um personagem autobiográfico dos meus personagens... ? ... Inventei uma maneira de ser o que não era, antes, para depois me tornar tudo o que não era e, então, fazer sentido, completando um looping idiota. Mantive o sorriso no rosto, amável, amável...).

Sinto que os anos passam e que regrido... Já não acredito em nada. “– Tudo não passa de autopropaganda”, afirmo. Tento perdoar, mas apenas esqueço. Penso no “futuro”, entretenho as horas. Aproximo-me da sacada, ainda chove. Converso com os velhos e eles me dizem que sou jovem, “tens todo o tempo do mundo”. Tenho todo o tempo do mundo, portanto me acomodo. Espero pela próxima segunda-feira, ansioso. "Amanhã darei meia-volta", porém não retorno. E se retornasse?

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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