A poesia retorna

No tremor da caneta

– E na mediocridade assumida –

Como uma inimiga,

De concretude impossível,

Como um amor

Reiteradas vezes negado,

Deixado de lado,

Entregue ao bolor e ao tempo.


Volta orgulhosa.

“Fite o horizonte, esqueça o chão

E seus pés (inúteis)

Que não o levarão a lugar algum –

Você está em você”,

Me diz meu maior desafeto,

Contrário a tudo que é pequeno

E também ao tempo, porque passa.


A poesia retorna, e reafirma a mediocridade

– A minha!

“Por que levar a sério o que não é levado a sério?”,

Pergunta meu desafeto. Atesto sua sinceridade,

Enquanto a claridade da noite me consome.



Ah, pobre coração

Nunca são adequados

O talento que não tem para os quadros

A voz que lhe falta para a nossa canção


Brilha como lhe convém

Nas manhãs em que é hostilizada

Acusa, ofende, ri – fera civilizada

Não reconhece o desdém


Em tudo permanece ausente

E vela a sua incongruência

E disfarça a sua indecência

Assassina seu único descendente


Concede um mergulho profundo

No flash de um raro sorriso

Seu organograma preciso

Em pouco mais de um segundo.


VINÍCIUS E BANDEIRA


SAUDADE DE MANUEL BANDEIRA

(Vinícius de Moraes. Poemas, sonetos e baladas, 1946)


Não foste apenas um segredo

De poesia e de emoção

Foste uma estrela em meu degredo

Poeta, pai! áspero irmão.


Não me abraçaste só no peito

Puseste a mão na minha mão

Eu, pequenino - tu, eleito

Poeta! pai, áspero irmão.


Lúcido, alto e ascético amigo

De triste e claro coração

Que sonhas tanto a sós contigo

Poeta, pai, áspero irmão?




RESPOSTA A VINICIUS

(Manuel Bandeira. Belo belo, 1948)


Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.

Lúcido, sim; eleito, não.

E bem triste de tantos ais

Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.

Talvez com me bastar, feliz

- Ah feliz como jamais fui! -,

Arrancando do coração

- Arrancando pela raiz -

Este anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.







Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista Rubem Braga (1966).




“Em todas as coisas, e especialmente nas mais difíceis, não devemos esperar semear e colher ao mesmo tempo, mas é necessária uma lenta preparação para que elas amadureçam gradativamente.”*

BACON, s/d, apud BECCARIA, 2005, p. 31.

*“In rebus quibuscumque difficilioribus non expectandum, ut quis simul, et serat, et metat, sed praeparatione opus est, ut per gradus maturescant.”



Toda música que vem da cabaça

se estende na cabeça e, se boa a acústica

ecoa áspera –

na maraca: tcha-tcha e marango

no afoxé: terreiro de umbanda

na minha vida: Amélia,

que outra de corpo igual não há.



Estende o ponto

transforma em conto

segue o rumo

vende a métrica

com desconto

no brechó do Alcides (outro sem metafísica)


Cata pedra

– quanta madrepérola!

sem molusco é apenas água e sal

(cream cracker)


No quintal que já não há

de quem nunca chegou a ser

tudo já era


Vira e mexe

volta em mi ou si

doce memória infantil

Pega e larga

o segredo do espaço

codificado no compasso

ansioso das pernas

Bate palmas

esquece códigos

encontra nada

quase foi.



"Say what your want to say

Hang for your hollow ways

Moving your mouth to pull out

All your miracles aimed for me

[…]

Goldaline, my dear

We will fold and freeze together

Far away from here

There is sun and spring and green forever..."






“Aqui vivem os heróis do esnobismo (ou os pensionistas de um manicômio abandonado). Sem espectadores – se é que não sou eu o público previsto desde o início –, a fim de serem originais, ultrapassam o limite do incômodo suportável, desafiam a morte. Isto é verídico, não é uma invenção do meu rancor... Tiraram o gramofone que fica na sala verde, contígua ao salão do aquário, e, mulheres e homens, sentados em bancos ou na relva, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores.”

BIOY CASARES, Adolfo. A invenção de Morel.



Frente a tantas possibilidades, tem o destino, talvez com malícia, o arbítrio do futuro, instante em que o torna presente – o futuro é sempre agora. Livro-me da dúvida, do ‘se’, através de meditações diárias, obstinadas e regulares, quase sempre matutinas... Certas convicções permanecem: prefiro a certeza do que sou, embora espere que não seja, pois nada é mais bonito que o nada.


Como se estivesse em pranto, mas ao contrário, não chorava e o que era expelido seguia de fora para dentro. A preferência por pessoas eloquentes é nítida e talvez uma contradição, já que tímido – mas há um propósito: evitar o silêncio. Não que o silêncio seja um problema, quando só é necessário suportar sua verdade, e isso domina bem. Então as palavras saíam em sentido inverso ao do não-choro. E pareciam tão mais abstratas, estavam soltas sem meio de comunicação; sem destino. Nada que as justificasse, embora fossem necessárias. Dizer o que realmente quer dizer é menos importante que dizer a quem quer dizer o que quer que seja; ainda que sem destino. Compreender também não é tão importante. Surpreender e daí receber um sorriso em resposta, eis o mérito.


O tempo que desejo ser
está além de minha carne, que resiste
também além de você, pois persiste
como imagem sem voz.
Se há o gesto que antecede a distância
nosso tempo passa a ser um só
– e permanecerá infante, diante de nós –
não se opõe concretude à ânsia
olhamo-nos e permanecemos mudos.


V
Apenas elogiou os meus olhos por terem sido os primeiros a se fixarem nos seus sem receio enquanto falava de si mesma com convicção e desespero. Eu não era nada além de um estranho.

- Seus olhos são bonitos.

Após o furto forjei o acaso. Desfiz-me do que não era necessário, guardei comigo somente seus documentos e um cartão com seu telefone. Cortei o cabelo para que não me reconhecesse, marquei um encontro para entregar os documentos que havia encontrado na rua. Quando nos encontramos me agradeceu aliviada, não se importava em perder a bolsa e as quinquilharias que estavam dentro dela. Sentamos em um bar, tomamos alguns chopes, conversamos por horas sem mudar o foco do assunto: ela.

- Já assistiu “Amor em fuga”, do Truffaut?, ela me perguntou, por fim.
- Não, por quê?

Não me escondeu nada desde o primeiro momento. Era atriz pornô, não vacilou em dizer a mim, estranho. Disse que jamais imaginaria isso, não correspondia ao estereotipo de atriz pornô, entretanto não me espantava, para mim é uma profissão tão digna como a medicina, eu disse. Perguntou-me se eu era cineasta, mas a decepcionei, fui muita coisa, hoje sou apenas um escritor.

- Que droga, se você fosse eu seria sua Anna Karina e você meu Godard.
- Como escritor que sou posso lhe dar vida em um romance, ou escrever um roteiro em que você é minha musa.
- De que adianta se não farei parte fisicamente de sua obra?

Conheço um aspirante a cineasta, fomos colegas na faculdade, dirigiu alguns curtas, recebeu alguns prêmios. Há dez anos não nos falamos, mas o tempo jamais foi uma agravante. O assunto tomou outro rumo, sempre girando ao seu redor, sempre meus olhos nos seus. “Uma obsessão”, eu pensava.


IV
- Você me acha parecida com Anna Karina?
- Não.
- Sou mais bonita?
- Eu te amo mais.
- Quer dizer que não sou mais bonita que ela?
- Quero dizer que, independente de se parecer ou não com Anna Karina, você continua sendo minha atriz preferida, mais versátil que todas as outras.
- Diga para mim, oui, mon trésor! quando eu te perguntar se me ama, ok?
- Aham.
- Edgar, você me ama?
- Oui, mon trésor!
- Ai, me beije, Edgar.

Não estranho tê-la aqui comigo por dias incontáveis, facilmente se tornou uma obsessão. Talvez goste de sua companhia, ela não pergunta o motivo do meu silêncio, ela nunca quer saber sobre mim. Digo a ela que será personagem do meu livro, ela apenas concorda, sem entrar em minúcias. Impossível conceber literatura com temor, por isso me sinto bem com ela; prolífico, até.

- “Antes de tudo é necessário conhecer os homens tais como são”, Edgar, por isso estou aqui com você.

Eu também evito me aprofundar em suas palavras, entretanto as anoto em meu caderno vermelho, e a encaro como um quebra-cabeça. Dentre as poucas coisas que trouxe para passar alguns dias comigo há um pôster de uma pintura do Renoir, sobre o qual nada perguntei, mas que me rendeu três dias de reflexão, em que busquei entender a necessidade de sua presença na estadia temporária. Cheguei a algumas hipóteses:
(1) – Ela o comprou quando vinha para o meu apartamento;
(2) – É presente de uma pessoa querida, o pai ou um antigo namorado;
(3) – Ela é admiradora do impressionismo, considerando seu mais genioso expoente Pierre-Auguste Renoir...
Não precisei de três dias para chegar a tais conclusões, bastaram-me algumas horas. Qualquer exagero significa amor, l’amour fou.


III
Conheci Fernanda enquanto ela filmava seu trigésimo-alguma-coisa filme no ano; Mantinha a média incrível de atuar em um filme por semana, e apesar de ter dificuldade em se lembrar do texto, isso não se mostrava um obstáculo para sua extraordinária atuação – e para seu consequente sucesso. Não sou dado ao lirismo, o modo como se deu nosso encontro é um exemplo prático disso (há dez anos me descobri inepto a qualquer inclinação lírica, quando ainda cria na poesia e em todo universo que dela emerge, renegando meus ídolos, incinerando meus versos livres que apenas retratavam o pesar que jamais existiu em mim). Ela alongava a perna em uma barra – suas pernas formavam um ângulo de noventa graus –, vestida de bailarina, enquanto um homem de um metro e noventa, musculoso, lhe penetrava. O que eu fazia ali? Apenas curiosidade ou para presenciar a vida acontecer por outro ponto de vista, o da lascívia desmedida, e encontrar inspiração para meu romance de estreia; ou isto ou aquilo. Enquanto contorcia seu corpo, seus olhos encontraram os meus em meio à multidão e neles se fixaram; Experimentei uma espécie de hipnose, que durou cinco minutos até o diretor gritar “corta” para que pudessem mudar de posição. Fui até uma sala ao lado do set de filmagem, vi uma bolsa sob uma toalha, remexi seu interior, achei um documento “Fernanda”, fechei a bolsa e a coloquei embaixo do braço, esperei mais três minutos e fui embora sem ser notado.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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