Cabrera, nada infante.


“[...] – Aonde quer ir agora?

– Você já me perguntou faz um minuto e eu te disse e te digo aonde você quiser.

Estava contente porque a levaria àquele lugar onde não a levei outro dia. Um lugar recluso, como cantava Lola. É que as mulheres são como os livros: a gente sempre tende a levar para a cama. Os livros que parecem ser virgens estão encadernados com capa mole. É preciso ter um abridor de livros. Um corta-papel basta.”


CABRERA INFANTE, Guillermo. A ninfa inconstante. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 84.


“[...] Curiosas canções como ditam as recordações. Néstor Almendros me disse, quando veio me visitar e eu tocava no meu toca-discos ‘Down at the Levy’ cantada por Al Jolson, que sempre que ouvisse essa canção se recordaria da sala do apartamento, e o sol que açoitava os móveis e as gentes e o mar lá longe e eu sentado no sofá, de camiseta, ouvindo o velho Al, Al morto, Al Down at the Levy, waiting, for the Robert E. Lee, que era um barco de roda-d’água navegando Mississipi abaixo.”

CABRERA INFANTE, Guillermo. A ninfa inconstante. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 18.




T.S. ELIOT - THE BURIAL OF THE DEAD



vídeo: Manuel Saiz


I. O ENTERRO DOS MORTOS


Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura

Memória e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera.

O inverno nos agasalhava, envolvendo

A terra em neve deslembrada, nutrindo

Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee

Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos

E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,

Tomamos café, e por uma hora conversamos.

Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.

Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,

Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.

E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,

Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.

Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.

Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.


Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham

Nessa imundície pedregosa? Filho do homem

Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,

E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,

E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas

Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.

(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),

E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece

Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;

Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.


Frisch weht der Wind

Der Heimat zu

Mein Irisch Kind,

Wo weilest du?


"Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;

Chamavam-me a menina dos jacintos."

- Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,

Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude

Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia

Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava

Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.

Oed' und leer das Meer.


Madame Sosostris, célebre vidente,

Contraiu incurável resfriado; ainda assim,

É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,

Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,

É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.

(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)

Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,

A Senhora das Situações.

Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,

E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,

Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,

Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho

O Enforcado. Receia morte por água.

Vejo multidões que em círculos perambulam.

Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,

Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:

Todo o cuidado é pouco nestes dias.


Cidade irreal,

Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,

Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,

Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.

Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,

E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.

Galgava a colina e percorria a King William Street,

Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas

Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.

Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: "Stetson,

Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!

O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim

Já começou a brotar? Dará flores este ano?

Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?

Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,

Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!

Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable -, mon frère!"


ELIOT, T.S.. Poesia. Tradução de Ivan Junqueira. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.



A poesia retorna

No tremor da caneta

– E na mediocridade assumida –

Como uma inimiga,

De concretude impossível,

Como um amor

Reiteradas vezes negado,

Deixado de lado,

Entregue ao bolor e ao tempo.


Volta orgulhosa.

“Fite o horizonte, esqueça o chão

E seus pés (inúteis)

Que não o levarão a lugar algum –

Você está em você”,

Me diz meu maior desafeto,

Contrário a tudo que é pequeno

E também ao tempo, porque passa.


A poesia retorna, e reafirma a mediocridade

– A minha!

“Por que levar a sério o que não é levado a sério?”,

Pergunta meu desafeto. Atesto sua sinceridade,

Enquanto a claridade da noite me consome.



Ah, pobre coração

Nunca são adequados

O talento que não tem para os quadros

A voz que lhe falta para a nossa canção


Brilha como lhe convém

Nas manhãs em que é hostilizada

Acusa, ofende, ri – fera civilizada

Não reconhece o desdém


Em tudo permanece ausente

E vela a sua incongruência

E disfarça a sua indecência

Assassina seu único descendente


Concede um mergulho profundo

No flash de um raro sorriso

Seu organograma preciso

Em pouco mais de um segundo.


VINÍCIUS E BANDEIRA


SAUDADE DE MANUEL BANDEIRA

(Vinícius de Moraes. Poemas, sonetos e baladas, 1946)


Não foste apenas um segredo

De poesia e de emoção

Foste uma estrela em meu degredo

Poeta, pai! áspero irmão.


Não me abraçaste só no peito

Puseste a mão na minha mão

Eu, pequenino - tu, eleito

Poeta! pai, áspero irmão.


Lúcido, alto e ascético amigo

De triste e claro coração

Que sonhas tanto a sós contigo

Poeta, pai, áspero irmão?




RESPOSTA A VINICIUS

(Manuel Bandeira. Belo belo, 1948)


Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.

Lúcido, sim; eleito, não.

E bem triste de tantos ais

Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.

Talvez com me bastar, feliz

- Ah feliz como jamais fui! -,

Arrancando do coração

- Arrancando pela raiz -

Este anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.







Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos na casa do cronista Rubem Braga (1966).




“Em todas as coisas, e especialmente nas mais difíceis, não devemos esperar semear e colher ao mesmo tempo, mas é necessária uma lenta preparação para que elas amadureçam gradativamente.”*

BACON, s/d, apud BECCARIA, 2005, p. 31.

*“In rebus quibuscumque difficilioribus non expectandum, ut quis simul, et serat, et metat, sed praeparatione opus est, ut per gradus maturescant.”



Toda música que vem da cabaça

se estende na cabeça e, se boa a acústica

ecoa áspera –

na maraca: tcha-tcha e marango

no afoxé: terreiro de umbanda

na minha vida: Amélia,

que outra de corpo igual não há.



Estende o ponto

transforma em conto

segue o rumo

vende a métrica

com desconto

no brechó do Alcides (outro sem metafísica)


Cata pedra

– quanta madrepérola!

sem molusco é apenas água e sal

(cream cracker)


No quintal que já não há

de quem nunca chegou a ser

tudo já era


Vira e mexe

volta em mi ou si

doce memória infantil

Pega e larga

o segredo do espaço

codificado no compasso

ansioso das pernas

Bate palmas

esquece códigos

encontra nada

quase foi.



"Say what your want to say

Hang for your hollow ways

Moving your mouth to pull out

All your miracles aimed for me

[…]

Goldaline, my dear

We will fold and freeze together

Far away from here

There is sun and spring and green forever..."






“Aqui vivem os heróis do esnobismo (ou os pensionistas de um manicômio abandonado). Sem espectadores – se é que não sou eu o público previsto desde o início –, a fim de serem originais, ultrapassam o limite do incômodo suportável, desafiam a morte. Isto é verídico, não é uma invenção do meu rancor... Tiraram o gramofone que fica na sala verde, contígua ao salão do aquário, e, mulheres e homens, sentados em bancos ou na relva, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores.”

BIOY CASARES, Adolfo. A invenção de Morel.



Frente a tantas possibilidades, tem o destino, talvez com malícia, o arbítrio do futuro, instante em que o torna presente – o futuro é sempre agora. Livro-me da dúvida, do ‘se’, através de meditações diárias, obstinadas e regulares, quase sempre matutinas... Certas convicções permanecem: prefiro a certeza do que sou, embora espere que não seja, pois nada é mais bonito que o nada.


Como se estivesse em pranto, mas ao contrário, não chorava e o que era expelido seguia de fora para dentro. A preferência por pessoas eloquentes é nítida e talvez uma contradição, já que tímido – mas há um propósito: evitar o silêncio. Não que o silêncio seja um problema, quando só é necessário suportar sua verdade, e isso domina bem. Então as palavras saíam em sentido inverso ao do não-choro. E pareciam tão mais abstratas, estavam soltas sem meio de comunicação; sem destino. Nada que as justificasse, embora fossem necessárias. Dizer o que realmente quer dizer é menos importante que dizer a quem quer dizer o que quer que seja; ainda que sem destino. Compreender também não é tão importante. Surpreender e daí receber um sorriso em resposta, eis o mérito.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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