DIA VERMELHO OU .357 MAGNUM



Hoje o dia será muito aborrecedor. O aluguel venceu, daqui a pouco virão me cobrar. Desde segunda não compareço ao trabalho, hoje é quinta, certamente me telefonarão. A minha namorada me traiu ontem após descobrir que eu a traí, ela irá me procurar e pedir perdão, chorar feito louca no chão da minha sala. Será um dia cão.
Comprei um .357 Magnum, cabo de madeira, de um bandidozinho viciado em crack, duas semanas atrás. Não faço a mínima ideia de onde o safado a conseguiu, deve ter assaltado a coleção de algum novo ricaço, este tipo adora coleção de armas. Veio com apenas seis balas que já se encontravam no tambor – o puto estava morrendo de medo de dar um tiro nos próprios bagos – que são suficientes para estourar todos que irão me atazanar hoje, embora não fosse essa a intenção ao comprar a arma.
Bem, conto o meu dia do futuro, agora são exatamente 23:40 de quinta-feira, estou deitado no sofá da minha sala, a roupa suja de sangue, quatro corpos no apartamento e o .357 Magnum sem munição - reflito sobre o que fazer.
Eram aproximadamente 09:00 quando me ligaram da empresa onde trabalho, era o Alfredo querendo saber o que acontecera comigo.
- Você está louco? Consigo um emprego para você, lhe pago melhor que qualquer outro filho da puta lhe pagaria, lhe tiro da sarjeta, da escória, e é assim que você retribui?
- Calma Fredoca (é – era – assim que eu o chamo – chamava), passei muito mal esses dias, acho que é dengue, não telefonei avisando porque bloquearam a linha para chamadas.
- Você é um puta de um mentiroso. Estou indo agora aí vê se está assim tão doente a ponto de não poder vir trabalhar.
Meia hora depois Fredoca toca a minha campanhinha.
- Entre.
Ele entrou, eu estava sentado no sofá onde agora me encontro, pedi que ele se sentasse no tamborete que fica próximo ao sofá. Assim que ele se sentou peguei o .357 Magnum e dei-lhe um tiro no pescoço, bem no gogó, ele voou para a parede, fez uma sujeira terrível, a arma é potente. Arrastei o corpo até o lavabo, tive que tomar cuidado, o pescoço ficou estraçalhado, a cabeça estava feito pêndulo. Deixei o corpo no lavabo e me sentei novamente no sofá, liguei a televisão, estava passando Pica Pau Amarelo, ou Vermelho, sei lá, aquele pássaro idiota.
Na hora do almoço, por volta das 11:45, a campainha tocou, odeio que me interrompam enquanto cozinho – cozinhar é meu sacerdócio. Era Cecília, minha namorada. Deixei que ela entrasse e, como previ, ela me pediu perdão e começou a chorar, ajoelhada no chão da sala, até perceber o sangue ao lado e me olhar assustada. Tirei a arma da cintura e lhe dei um tiro na testa. Ela caiu para trás, ajoelhada, parecida a um João Bobo, aquele palhaço inflável idiota que nunca cai. Arrastei-a para o lavabo. O meu apartamento fica nos fundos de um galpão abandonado, e os dois andares abaixo são depósitos que só são frequentados nos finais de semana, ninguém ouviria os tiros – potentes – do meu .357 Magnum.
Às 12:50 – o horário foi o que me deixou mais irado – o dono do apartamento acompanhado do filho tocou a campainha, interrompi o almoço e o atendi. Eles entraram e, como o apartamento é mal iluminado, não viram o sangue no chão da sala, chamei-os para almoçar comigo na cozinha, não recusaram. Enquanto o pai comia o bacalhau e o filho bebia o cabernet sauvignon italiano, o velho veio me falar do aluguel, dizer que iria me despejar. Atirei na testa da careca dele, já o filho acertei no pescoço para que não terminasse de beber meu vinho. Quando eu estava arrastando o corpo do velho ele segurou o meu pulso, dei um pulo para trás assustado e lhe dei um tiro na careca, fez um estrago feio na cabeça. Para me assegurar de que o mesmo não aconteceria com o menino, dei-lhe mais um tiro, no peito, descarreguei a arma. Arrastei-os para o lavabo e voltei ao almoço, o bacalhau havia esfriado, mas o vinho estava divino.
Dormi a tarde toda, acordei às 19:00 e fui ao cinema assistir Alice no País das Maravilhas – mais do mesmo. Voltei para casa e agora aqui estou, deitado no sofá da minha sala. Não sei o que fazer com os corpos, sinceramente. Posso deixá-los no galpão, mas demorarão a achá-los, os corpos começarão a feder, não suporto cheiro de podridão. Posso colocá-los no depósito, mas com uma investigação superficial ligarão todos os quatro a mim. Vou dormir, amanhã penso melhor sobre isso. Estou fodido.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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