E. DEGAS - ANA PAULA ARREBATADA

I
Escrevo do mesmo lugar dos fatos que aqui narrarei. Retifico-me. Não escrevo, já que não possuo lápis, caneta, pincel, giz, carvão ou qualquer outro material, e, antes, não possuo papel sequer. Narro, portanto. Mas não possuo voz (quais eram os desequilíbrios das minhas cordas vocais?). Contradigo-me – sem dizer, de fato. Penso, portanto, e é através de pensamentos que narro.
Senti medo ao chegar aqui – lugar ermo e mal iluminado. Talvez tivesse sentido a sensação de estar sendo observada por um estranho de, não sei, mil olhos, com o poder de me enxergar por todos os ângulos e prever os meus movimentos, ver-me nua – em extensão e profundidade. O silêncio impera, é impossível crer que ele fora rompido por um grito – lacônico – da mulher que se soube prestes à tragédia. Tudo é tão calmo agora, e antes...
Quando cheguei aqui tudo estava pronto: a tela, os pincéis, as tintas, apenas me aguardavam, ansiosos, tensos, e curiosos com o meu talento. Apesar de mal iluminado, a pouca luz que permanece é maravilhosa que chega a adiantar-me o gozo. Entendi, tão logo aqui entrei, os homens na caverna de Platão que, encantados com as sombras, criaram-lhes vida (encorpada, massificada, esdrúxula). Despi-me. A Vida é tão breve e falsa com o corpo a ponto de no momento de fuga da alma privá-lo de cor e calor, tingindo-lo a tez, secando-lo os lábios. Nua, como a morta, eu era contradição, porque ainda quente embora tão bela quanto.
O motivo da morte eu não sei precisar, tampouco quanto tempo aquele corpo ali se encontra. Tem bonitos seios, como os meus, pequenos e rijos. O rosto não expressa medo, talvez tenha morrido dormindo, que é a maneira como espero morrer. Porém isso é pouco provável, devido aos chupões no pescoço, às marcas de unhadas e socos pelo corpo, à vagina maltratada. Ouço que não me cabem suposições, nem juízos: ao trabalho, Ana Paula!
 (...)

PILOTO

Minha foto
Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

FORÇA MOTORA

TWITTER