Digo agora, com toda a certeza do universo, que não há verdade alguma. Passamos. Embora não fizesse frio e fosse janeiro e fosse domingo e fosse à noite, por volta das 18 horas, do ano passado – é qualquer ano, que se for 2000, 2010, 2100, terá sido um ano antes, não digo quanto nove – o dia que não se apagou em mim.
Deite aqui comigo, faz tanto frio. Você não gosta de dormir comigo! Isso foi ano passado, agora eu gosto. Tenho medo, tanto medo. Agora eu conseguirei passar segurança. Você não sabe o quanto doeu. Deite comigo, me abrace, faz frio. Você é o homem da minha vida. Eu espero para ouvir, porém tudo é silêncio, e o frio...
Ela se deitou comigo, na minha cama de solteiro amarelo-amor.
Não gosto de falar de amor, então digo que tudo isso é mentira. Não é Edgar, não é Eduardo, não é ninguém. Não sou ninguém.
Falou comigo que nunca acreditou que eu a deixaria ir aquele dia, sabia que iria gritar seu nome, e dizer, não, voltei aqui, é tudo mentira o que eu disse antes. Ela estava certa. É tudo mentira e a sua nova vida não me amedronta. Sou forte, enfrentaria um leão, dois leopardos e três tristes tigres por você, para não deixar que eles nos separem.
Faz frio, mas ela está comigo, deitada, me abraçando, dorme profundamente. Debaixo da coberta estamos juntos. Ela me diz que vai me amar para sempre, ela sonha. Sonho também. Ignoro a dor nas costas – posição desconfortável –, não peço licença para me deitar no colchão deixado no chão entre a cômoda e a mesa do quarto apertado, colchão para visita. Ela me ama como jamais amei alguém. Fecho os olhos.
Você promete me amar para sempre? Prometo. Você promete nunca mentir para mim? Prometo. Você promete existir algum dia? Prometo. Você promete coisas demais, não passa confiança, é preciso receio.
Que bonito, que lindo, todas essas pessoas, elas não fazem nada, apenas sorriem.
Pego o controle remoto porque ela está dormindo, irei esperá-la para continuar o filme. A janela está fechada, mas a cortina está aberta, vejo o silêncio do vento balançar as árvores, uma sacola voa, uma estrela, duas... Queríamos um telescópio, agora o temos. Ela adormeceu em uma parte ruim do filme, aperto rewind, deixarei o filme na parte que mais gosto, de lá recomeçaremos. Espero que ela acorde.
É 1999 ou 2009 ou 2099, ela chora de raiva e de alegria e diz que sabia, sim, que eu iria gritar seu nome, dizer que era mentira, brincadeira estúpida. Ela sorri e diz meu nome e coloca os braços ao redor do meu pescoço. Eu acordo.
