ENQUANTO DAISY LOWE DANÇA PARA A ESQUIRE OU "A WOMAN WE LOVE"

para Rodrigo

Youre so cool / Youre sweet and rude /Youre so plain that it's special / It's nuttin like you / Well, aww hoo / oo-oooo-oo-ooo / You make me stand up, and holla ‘do the hoochie coo!’ / Youre so cool.
Mila Kunis talvez não seja tão bonita quanto imagino e me lembro. Quem sabe ler O Tratado do Desespero e da Beatitude seja mais interessante que admirar Mila Kunis na capa da Esquire americana de fevereiro? Renata me disse que buscamos o equilíbrio entre alma, coração, mente e razão, algo assim; estávamos bêbados, não entendi muito bem e ri dela, embora concorde com o que ela disse (?). Algo como acordar no meio da madrugada e ver Mila Kunis, no prédio ao lado, entrar em seu apartamento de janelas gigantes e escancaradas e despir-se, despretensiosamente, talvez exemplifique a minha maneira de conceber o voyeurismo. O amor não se explica, não se compreende, não creio que a filosofia alcance o significado do amor. Prefiro senti-lo, ainda que em imagens, ainda que na imaginação – fitando uma parede branca. À noite prefiro as mulheres aos filósofos, perdoem-me aqueles que consideram a minha heresia.

NAQUELA OCASIÃO OU "TODO ÓDIO DA VINGANÇA DE JACK BUFFALO HEAD"


Hoje, após não sei quantos anos – consigo me lembrar apenas do dia, 08, e do mês, março – encontrei um discurso que começamos a escrever juntos e que nunca terminamos, sobre uma tal de política, um discurso social do qual nada sabíamos, mas que insistimos em escrever inspirados em Darcy Ribeiro, “Notícia de última década: a canalha impera, robusta como um touro. Somos uma nação entregue aos interesses de uma elite politizada, porém insignificantemente humanizada, que não tem no seu encalço revoltosos efetivos, altruístas, embebidos do sentimento de nação; os poucos que se revoltam o fazem egoisticamente, e, em geral, são estereotipados, ‘marxistas de ouvido’, ineficazes...”. Encontrei-o dobrado dentro de um envelope grande cheio de recordações dos meus meses no exílio em São João Del-Rey – adquiri a mania de guardar bagulhos depois de assistir um documentário sobre o Andy Warhol, que encaixotava tudo que parecia ser trivial – e com isso ressuscitei você, cujo destino eu desconheço completamente.
Era uma festa de república, não me lembro o nome, porém sei que era uma república feminina e que ficava próximo ao Bar 70, esquina com a Avenida Leite de Castro (lembro de você rindo por eu achar que a avenida se chamava Lady Castro). Você chegou perto de mim, pediu um trago do meu baseado e eu ri, você não tem idade para isso, afirmei. Descobrimos que na verdade você era mais velha que eu oito meses e que eu era quem ainda não tinha idade para aquilo. Ofereci meu Johnnie Walker Black Label, era a bebida adequada para o Matanza que tocava no estéreo da casa, e você discordou, disse que rum ou gim seriam os adequados, deu um trago direto da garrafa, você disse ser falsificado, parecia-se mais com licor de pequi – nisso nos descobrimos conterrâneos, nascidos no mesmo hospital, Santa Casa de Misericórdia –, preferiu permanecer na garrafa de Jose Cuervo que bebia com suas amigas.
Após horas de conversa combinamos que iríamos percorrer a Estrada Real juntos, conhecer a América do Sul e o caminho místico de Santiago de Compostela. O que mais aconteceu caberia contar aqui? Seu nome ficou perdido entre as consoantes do alfabeto, logo na primeira letra, nenhum beijo ou sobrenome resta a ser contado. Uma transa em Tiradentes? Uma fantasia... Andarilhos. Busco um endereço, um remetente, talvez encontre apenas a minha esquizofrenia (não detectada) e nela os meus personagens inúteis – tanto quanto a excessiva des(dis)crição.

MINHAS PELÚCIAS OU "GOT A DEVIL'S HAIRCUT IN MY MIND"


De pouco vale – quase nada – que o pai explique a ele que os tapas que dá na mãe não são violentos, que os puxões de cabelo são ocasionais, papai anda muito cansado do serviço e mamãe não o ajuda porque fica sempre perguntando como foi seu dia se quer o jantar agora e ela sabe que o dia foi péssimo porque o trabalho de papai é estressante e não é tão bom quanto as idas ao parque nos domingos de manhã pra andar de pedalinho e comer pipoca doce e algodão doce e beber coca-cola.
Na hora das brigas, que ocorrem geralmente três vezes na semana, em dias alternados, mais especificamente nos dias pares – que sábado é dia de transar e domingo tem parque e depois papai vai beber cerveja que tem gosto amargo no bar com os amigos e sempre volta com muito cheiro de cigarro – ele tampa os ouvidos com duas pelúcias, o tigre Tigo, e o sapo Jão, e se esconde em baixo da cama, espiando o pouco que consegue ver pela fresta da porta do quarto dos pais que fica em frente ao seu. Ele chora, às vezes, quando a mãe pede para parar e o pai a chama de puta e lhe esbofeteia o rosto, porque acontece o mesmo com ele quando ele pede que a mãe pare de lhe bater, e ela o chama de moleque e de estorvo, esbofeteando-lhe o rosto com a mão doente de costureira.
Durante um tempo papai ficou bonzinho porque mamãe tava ficando gorda. Ele vai ganhar um irmão, a mãe diz que a barriga dela crescerá quase tanto quanto a barriga do pai, não porque ela está comendo muito, mas porque ela está gerando um filho, da mesma forma que o gerou, quatro anos atrás. Ele não compreende muito, mas coloca a mão na barriga da mãe e espera por um chute. Pergunta se o bebê chuta por não gostar dela, claro que não, ele ama mamãe assim como você me ama, porque por nove meses somos uma só pessoa. Ele acha estranho, como que mamãe carrega uma coisa dentro dela que tá crescendo e chutando sua barriga e comendo o que ela come e fazendo xixi e cocô dentro dela? Seria partindo disso que ele poderia ter entendido o amor anos depois.
É aniversário de vinte anos da mãe e tem festa, sábado é um dia bom. Todos estão lá, até mesmo o primo da mãe com quem ela havia perdido a virgindade aos treze anos, e o pai sabe disso. Ele ouve a avó e a mãe conversarem, a avó diz que vinte anos é uma idade importante, simboliza a entrada na vida adulta, embora ela já tivesse amadurecido bastante ao ganhar o primeiro filho – e amadurecerá muito ao ganhar o segundo, daqui a três meses, você verá. Ele não sabe se será menino ou menina, nem mesmo nome ainda deram ao bebê, ou, se deram, não lhe contaram.
No fim da festa papai tava muito bêbado porque passou o dia todo bebendo pinga com os amigos que foram na festa e beberam muita pinga e cerveja também. O pai não cumprimentou o primo da mãe, o ignorou. Na saída, viu que a mãe e o primo conversaram algo e sorriram, depois se abraçaram e ele foi embora. Ao entrar em casa para arrumar a bagunça da festa, quando todos já haviam ido embora, o pai perguntou à mãe o que ela conversou com o primo. Ela disse que nada demais, que ele apenas desejou felicidade à família e ao bebê que estava por vir. O pai a chamou de mentirosa e disse que os dois estavam marcando um encontro, então deu um soco no rosto da mãe, que caiu desvairada no chão. Papai chutou mamãe umas quatro vezes na barriga igual quando ele me levava para ver o jogo de futebol e que ele chutava muito a bola e marcava gols. Depois arrastou a mãe pelo o cabelo e lhe deu um tapa no rosto, mas ela já havia desmaiado. Quando o pai viu que sangrava por entre as pernas da mãe, libertou-se da embriaguez e se desesperou. Ligou para o um-nove-três, pediu uma ambulância com urgência, a mulher estava grávida, havia tropeçado e caído violentamente no chão, achava que ela havia abortado. Quando a ambulância chegou o pai recusou a acompanhar a mãe alegando que o filho não poderia ficar sozinho em casa, também não poderia ir ao hospital porque o filho tinha medo. A ambulância levou a mãe, porém os médicos desconfiaram dos ferimentos e ligaram para a polícia relatando o que suspeitavam que havia acontecido. Papai sabia que iria ser preso e se desesperou chorando muito e eu nunca vi ele chorando e ele chorava mais que eu quando apanhava e ele gritava não que ele matou o filho dele mas eu disse que eu tava bem que eu tava vivo mas papai disse que eu não era filho dele devia ser filho de algum outro homem porque mamãe era uma puta depois disse que amava mamãe muito que ele tava na merda que a polícia ia prender ele e agora ele tinha que fugir mas a polícia bateu no portão e ele não quis abrir e os vizinhos gritavam assassino e a polícia quebrou o portão e entrou e papai tentava fugir pulando o muro mas os vizinhos pegaram ele e a polícia o levou e eu fui dormir na casa de titia que fica perto de casa mas não tem papai nem mamãe só Tigo e Jão que agora ficam nas minhas orelhas o tempo todo.







HISTÓRIA DE QUINZINHO

'quizinho era um louco que fazia
o trajeto montes claros-janaúba,
no norte de minas

pra alegrar suas caminhadas
construiu um caminhãozinho
de madeira, transportando nele
várias mercadorias, todas vindas
de suas fazendas, dizia

gado, arroz, carvão, pequi e, mais
recentemente, soja. tudo muito
bem arrumado no seu
caminhãozinho de brinquedo

quinzinho morreu atropelado perto
de capitão enéas quando trocava
o pneu do seu caminhãozinho
no acostamento'

Nicolas Behr, Primeira Pessoa

Homenagem (?) às minhas cidades, Montes Claros e Janaúba, e a Capitão Enéas, a pior parada possível da linha Montes Claros-Janaúba. 




"SURGE ZORA" OU FICÇÃO AMOR 2000

Montevidéu, Buenos Aires, Santiago. Tenho certeza de que ela pensa que sou um psicopata. De fato pesquisei sobre sua vida, perguntei a amigos em comum, como ela é? Do que ela gosta? Do que ela não gosta? Quem são seus ex-namorados? Qual o motivo do choro incessante dela? Coisas assim. E, no mais, as pessoas já se expõem tanto, facebook, orkut, twitter, formspring, etc. e etc...
Paris e Londres. Não a conheço bem. Conhecemos-nos em uma festa junina que fazia muito frio, depois nos reencontramos através da internet, no total a vi apenas duas vezes – nas duas ela chorava tanto (!). Percebi que sofre de vários complexos, alguns bizarros, o mais notável é de que se acha excessivamente gorda, embora eu não veja em lugar algum mais perfeição do que nela.  Vai à academia de segunda a sexta; segunda quarta e sexta faz musculação, terça pilates e quinta jumping. Nos fins de semana prefere comidas calóricas e sexo casual.
Pelotas e Araxá. Minha irmã não tem certeza, mas acha que Luísa (esse é o nome dela) foi sua colega nos idos anos de primário. A minha maior surpresa foi descobri-la propensa às lágrimas desde criança. Maria Cecília, grande amiga, disse que elas foram colegas de italiano, e, segundo ela, como os italianos, Luísa é dramática e teatral.
Salvador e Rio de Janeiro. Trocamos poucas palavras até hoje. Na maioria das vezes nos limitamos a conversas com frases de, no máximo, cento e quarenta caracteres. Notei em suas fotos preferência por homens morenos, e isso me desesperou – estou tão branco, quase não tomo sol (!).
Montes Claros. Espero que nos encontremos nas férias, tête-à-tête, que eu tenha algo a lhe dizer, talvez comece por elogios ao seu sorriso, ou à foto dela em que apareço ao fundo, na festa junina em que nos conhecemos em meio ao frio e à indiferença. Espero também ter a oportunidade de abraçá-la, contaram-me que ela tem um cheiro bom.


"JORNAL ÍNTIMO
          (...)
27 de junho
Célia sonhou que eu a espancava até quebrar seus dentes. Passei a tarde toda obnublada. Datilografei até sentir câimbras. Seriam culpas suaves. Binder diz que o diário é um artifício, que não sou sincera porque desejo secretamente que o leiam. Tomo banho de lua.

27 de junho
Nossa primeira relação sexual. Estávamos sóbrios. O obscurecimento me perseguiu outra vez. Não consegui fazer as reclamações devidas. Me sinto em Marienbad junto dele. Perdi meu pente. Recitei a propósito fantasias capilares, descabelos, pêlos subindo pelo pescoço. Quando Binder perguntou do banheiro o que eu dizia respondi “Nada” funebremente.
(...) 
27 de junho
O prurido só passou com a datilografia. Copiei trinta páginas de Escola de Mulheres no original sem errar. Célia irrompeu pela sala batendo com a língua nos dentes. Célia é uma obsessiva."

Ana Cristina Cesar. In: 26 poetas hoje. Organização de Heloisa Buarque de Hollanda; 6a ed. - Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. p. 145/146.

EXÍLIO

“(...) se o verdadeiro exílio é uma condição de perda terminal, por que foi tão facilmente transformado num tema vigoroso — enriquecedor, inclusive —da cultura moderna? Habituamo-nos a considerar o período moderno em si como espiritualmente destituído e alienado, a era da ansiedade e da ausência de vínculos. Nietzsche nos ensinou a sentir-nos em desacordo com a tradição, e Freud a ver na intimidade doméstica a face polida pintada sobre o ódio parricida e incestuoso. A moderna cultura ocidental é, em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados. Nos Estados Unidos, o pensamento acadêmico, intelectual e estético é o que é hoje graças aos refugiados do fascismo, do comunismo e de outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes. O crítico George Steiner chegou a propor a tese de que todo um gênero da literatura ocidental do século XX é ‘extraterritorial’, uma literatura feita por exilados e sobre exilados, símbolo da era do refugiado. E sugeriu:

Parece apropriado que aqueles que criam arte numa civilização de quase barbárie, que produziu tanta gente sem lar, sejam eles mesmos poetas sem casa e errantes entre as línguas. Excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...”



SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio. In: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003. p.46.


ANA PAULA ARREBATADA

31.

Não sou afeita a pessoas que morrem de amor. Estou condenada a romances bizarros, livres de sorrisos fáceis, apelidos carinhosos, abraços. Talvez eu não creia no amor, porém eu amo. Às vezes começo a escrever poemas que revelariam a minha sensibilidade,
Você existe, e, por isso,
fura feito pedra,
que bate e bate e bate
com perseverança e decisão;
mas, como o amor que sinto, eles morrem nos primeiros versos.


Éramos muito iguais, ou ao menos criamos sermos muito iguais. Talvez tivéssemos nos tornado iguais durante a convivência obsessiva. Isso, encontro coesão com os fatos; éramos cruelmente diferentes, mas com o tempo, juntos, tornamos-nos idênticos, completávamos frases, era loucura. Éramos igualmente profundos, às vezes vulcânicos, cobertos por sulcos provocados por faltas, embora ocultássemos as falhas. Dizia me conhecer porque se conhecia, era eu quem a habitava, eu era igualmente habitado. Surgíamos como doses excessivas de rum, embriagávamos-nos; enquanto ela dizia quente ao meu ouvido, “a nossa represa está prestes a romper” e eu ignorava o alarde.


Digo agora, com toda a certeza do universo, que não há verdade alguma. Passamos. Embora não fizesse frio e fosse janeiro e fosse domingo e fosse à noite, por volta das 18 horas, do ano passado – é qualquer ano, que se for 2000, 2010, 2100, terá sido um ano antes, não digo quanto nove – o dia que não se apagou em mim.
Deite aqui comigo, faz tanto frio. Você não gosta de dormir comigo! Isso foi ano passado, agora eu gosto. Tenho medo, tanto medo. Agora eu conseguirei passar segurança. Você não sabe o quanto doeu. Deite comigo, me abrace, faz frio. Você é o homem da minha vida. Eu espero para ouvir, porém tudo é silêncio, e o frio...
Ela se deitou comigo, na minha cama de solteiro amarelo-amor.
Não gosto de falar de amor, então digo que tudo isso é mentira. Não é Edgar, não é Eduardo, não é ninguém. Não sou ninguém.
Falou comigo que nunca acreditou que eu a deixaria ir aquele dia, sabia que iria gritar seu nome, e dizer, não, voltei aqui, é tudo mentira o que eu disse antes. Ela estava certa. É tudo mentira e a sua nova vida não me amedronta. Sou forte, enfrentaria um leão, dois leopardos e três tristes tigres por você, para não deixar que eles nos separem.
Faz frio, mas ela está comigo, deitada, me abraçando, dorme profundamente. Debaixo da coberta estamos juntos. Ela me diz que vai me amar para sempre, ela sonha. Sonho também. Ignoro a dor nas costas – posição desconfortável –, não peço licença para me deitar no colchão deixado no chão entre a cômoda e a mesa do quarto apertado, colchão para visita. Ela me ama como jamais amei alguém. Fecho os olhos.
Você promete me amar para sempre? Prometo. Você promete nunca mentir para mim? Prometo. Você promete existir algum dia? Prometo. Você promete coisas demais, não passa confiança, é preciso receio.
Que bonito, que lindo, todas essas pessoas, elas não fazem nada, apenas sorriem.
Pego o controle remoto porque ela está dormindo, irei esperá-la para continuar o filme. A janela está fechada, mas a cortina está aberta, vejo o silêncio do vento balançar as árvores, uma sacola voa, uma estrela, duas... Queríamos um telescópio, agora o temos. Ela adormeceu em uma parte ruim do filme, aperto rewind, deixarei o filme na parte que mais gosto, de lá recomeçaremos. Espero que ela acorde.
É 1999 ou 2009 ou 2099, ela chora de raiva e de alegria e diz que sabia, sim, que eu iria gritar seu nome, dizer que era mentira, brincadeira estúpida. Ela sorri e diz meu nome e coloca os braços ao redor do meu pescoço. Eu acordo.



Não tenho tempo para medicina.
Dores crônicas convivem comigo, agora mesmo ouço meu nervo ciático chiar
– no glúteo esquerdo.
O que me falta é barba, eis o motivo de toda a minha indecisão/preocupação
/pessimismo.
A única esperança do não-eu barbudo é ser músico de jazz,
apesar de nunca ter conhecido algum, creio sejam eles o oposto de mim:
apesar de introspectivos, tão atraentes.
Bill Evans tocando my foolish heart 
(as cores... não existem).
Hoje é um dos últimos dias de maio,
a idade subindo as escadas, mais um...
Inspiro forte e mais uma dor surge, no pulmão, do lado esquerdo,
abaixo da última costela.
Todas as minhas dores, crônicas ou não, são sentidas do lado esquerdo
– sempre soube que ser canhoto é sinal de ser errado.

E. DEGAS - ANA PAULA ARREBATADA

I
Escrevo do mesmo lugar dos fatos que aqui narrarei. Retifico-me. Não escrevo, já que não possuo lápis, caneta, pincel, giz, carvão ou qualquer outro material, e, antes, não possuo papel sequer. Narro, portanto. Mas não possuo voz (quais eram os desequilíbrios das minhas cordas vocais?). Contradigo-me – sem dizer, de fato. Penso, portanto, e é através de pensamentos que narro.
Senti medo ao chegar aqui – lugar ermo e mal iluminado. Talvez tivesse sentido a sensação de estar sendo observada por um estranho de, não sei, mil olhos, com o poder de me enxergar por todos os ângulos e prever os meus movimentos, ver-me nua – em extensão e profundidade. O silêncio impera, é impossível crer que ele fora rompido por um grito – lacônico – da mulher que se soube prestes à tragédia. Tudo é tão calmo agora, e antes...
Quando cheguei aqui tudo estava pronto: a tela, os pincéis, as tintas, apenas me aguardavam, ansiosos, tensos, e curiosos com o meu talento. Apesar de mal iluminado, a pouca luz que permanece é maravilhosa que chega a adiantar-me o gozo. Entendi, tão logo aqui entrei, os homens na caverna de Platão que, encantados com as sombras, criaram-lhes vida (encorpada, massificada, esdrúxula). Despi-me. A Vida é tão breve e falsa com o corpo a ponto de no momento de fuga da alma privá-lo de cor e calor, tingindo-lo a tez, secando-lo os lábios. Nua, como a morta, eu era contradição, porque ainda quente embora tão bela quanto.
O motivo da morte eu não sei precisar, tampouco quanto tempo aquele corpo ali se encontra. Tem bonitos seios, como os meus, pequenos e rijos. O rosto não expressa medo, talvez tenha morrido dormindo, que é a maneira como espero morrer. Porém isso é pouco provável, devido aos chupões no pescoço, às marcas de unhadas e socos pelo corpo, à vagina maltratada. Ouço que não me cabem suposições, nem juízos: ao trabalho, Ana Paula!
 (...)

OBRIGADO POR DIZER TCHAU - BELARMINO, PARTE I

Belarmino, esse é o nome dele. Dentre tantos nomes, infinitos, bonitos ou cheirando menos a naftalina, escolhi Belarmino como o amor da minha vida – por cinco anos. Não que ele seja feio, ele figura no panteão (os amores morrem em mim) dos homens médios, aqueles que passam despercebidos nos lugares públicos, que não atraem a desconfiança, tampouco a repulsa. Ele é um jovem de vinte e cinco anos idoso para as listas e prognósticos: Belarmino dos Anjos Cruz.
Conheci-o através de uma amiga em comum, a Ritinha. Ela sofre de dermatite atópica, alergia a ácaros, naquela época se coçava muito, bibliotecas eram seus algozes, que pena!, ela ama os livros. O pai do Belarmino era médico – era porque morreu –, dermatologista, e em uma consulta pediu a Ritinha que convidasse seu filho, gênio incompreendido, para tomar um chope. Bela, como era chamado pelo pai, andava cabisbaixo, nenhum dos cinco cursos em que passou nos vestibulares o agradava, vivia em casa atracado aos livros, em estudos que, segundo ele, provariam a predominância da letra B na literatura ocidental. Bem, a Ritinha convidou o Belarmino para um chope, como o doutor queria, mais por educação que por compadecimento, porém gostou do jovem que cheirava a óleo de peroba e se escondia dentre os ombros largos. Quando ela decidiu se mudar para New York por ser um lugar com menos ácaros, promessa de vida feliz longe das urticárias e pomadas dermatológicas, nós decidimos realizar uma festa de despedida. Nessa festa conheci o rapaz estranho da letra B.

DIA VERMELHO OU .357 MAGNUM



Hoje o dia será muito aborrecedor. O aluguel venceu, daqui a pouco virão me cobrar. Desde segunda não compareço ao trabalho, hoje é quinta, certamente me telefonarão. A minha namorada me traiu ontem após descobrir que eu a traí, ela irá me procurar e pedir perdão, chorar feito louca no chão da minha sala. Será um dia cão.
Comprei um .357 Magnum, cabo de madeira, de um bandidozinho viciado em crack, duas semanas atrás. Não faço a mínima ideia de onde o safado a conseguiu, deve ter assaltado a coleção de algum novo ricaço, este tipo adora coleção de armas. Veio com apenas seis balas que já se encontravam no tambor – o puto estava morrendo de medo de dar um tiro nos próprios bagos – que são suficientes para estourar todos que irão me atazanar hoje, embora não fosse essa a intenção ao comprar a arma.
Bem, conto o meu dia do futuro, agora são exatamente 23:40 de quinta-feira, estou deitado no sofá da minha sala, a roupa suja de sangue, quatro corpos no apartamento e o .357 Magnum sem munição - reflito sobre o que fazer.
Eram aproximadamente 09:00 quando me ligaram da empresa onde trabalho, era o Alfredo querendo saber o que acontecera comigo.
- Você está louco? Consigo um emprego para você, lhe pago melhor que qualquer outro filho da puta lhe pagaria, lhe tiro da sarjeta, da escória, e é assim que você retribui?
- Calma Fredoca (é – era – assim que eu o chamo – chamava), passei muito mal esses dias, acho que é dengue, não telefonei avisando porque bloquearam a linha para chamadas.
- Você é um puta de um mentiroso. Estou indo agora aí vê se está assim tão doente a ponto de não poder vir trabalhar.
Meia hora depois Fredoca toca a minha campanhinha.
- Entre.
Ele entrou, eu estava sentado no sofá onde agora me encontro, pedi que ele se sentasse no tamborete que fica próximo ao sofá. Assim que ele se sentou peguei o .357 Magnum e dei-lhe um tiro no pescoço, bem no gogó, ele voou para a parede, fez uma sujeira terrível, a arma é potente. Arrastei o corpo até o lavabo, tive que tomar cuidado, o pescoço ficou estraçalhado, a cabeça estava feito pêndulo. Deixei o corpo no lavabo e me sentei novamente no sofá, liguei a televisão, estava passando Pica Pau Amarelo, ou Vermelho, sei lá, aquele pássaro idiota.
Na hora do almoço, por volta das 11:45, a campainha tocou, odeio que me interrompam enquanto cozinho – cozinhar é meu sacerdócio. Era Cecília, minha namorada. Deixei que ela entrasse e, como previ, ela me pediu perdão e começou a chorar, ajoelhada no chão da sala, até perceber o sangue ao lado e me olhar assustada. Tirei a arma da cintura e lhe dei um tiro na testa. Ela caiu para trás, ajoelhada, parecida a um João Bobo, aquele palhaço inflável idiota que nunca cai. Arrastei-a para o lavabo. O meu apartamento fica nos fundos de um galpão abandonado, e os dois andares abaixo são depósitos que só são frequentados nos finais de semana, ninguém ouviria os tiros – potentes – do meu .357 Magnum.
Às 12:50 – o horário foi o que me deixou mais irado – o dono do apartamento acompanhado do filho tocou a campainha, interrompi o almoço e o atendi. Eles entraram e, como o apartamento é mal iluminado, não viram o sangue no chão da sala, chamei-os para almoçar comigo na cozinha, não recusaram. Enquanto o pai comia o bacalhau e o filho bebia o cabernet sauvignon italiano, o velho veio me falar do aluguel, dizer que iria me despejar. Atirei na testa da careca dele, já o filho acertei no pescoço para que não terminasse de beber meu vinho. Quando eu estava arrastando o corpo do velho ele segurou o meu pulso, dei um pulo para trás assustado e lhe dei um tiro na careca, fez um estrago feio na cabeça. Para me assegurar de que o mesmo não aconteceria com o menino, dei-lhe mais um tiro, no peito, descarreguei a arma. Arrastei-os para o lavabo e voltei ao almoço, o bacalhau havia esfriado, mas o vinho estava divino.
Dormi a tarde toda, acordei às 19:00 e fui ao cinema assistir Alice no País das Maravilhas – mais do mesmo. Voltei para casa e agora aqui estou, deitado no sofá da minha sala. Não sei o que fazer com os corpos, sinceramente. Posso deixá-los no galpão, mas demorarão a achá-los, os corpos começarão a feder, não suporto cheiro de podridão. Posso colocá-los no depósito, mas com uma investigação superficial ligarão todos os quatro a mim. Vou dormir, amanhã penso melhor sobre isso. Estou fodido.



     "(...) Talvez seja necessário, na discussão de um espaço ainda crítico para a crítica, matar mais uma vez Wilson Martins (crítico literário). Já que sua transformação em imago exemplar parece expor inequívoca vontade de retorno a algo próximo à tradição das Belas Letras, a um regime estável e hierarquizado de vozes e gêneros, a regras fixas de apreciação e prática textual, a um apagamento de novos espaços de legibilidade, espaços ainda não demarcados ou nomeados, e sugeridos por formas de compreensão expansivas, e não exclusivas, do campo da literatura. Um desejo de reierarquização e pureza que não parece sem sintonia com o temor de um universo sóciopolítico menos hierarquizado, com a expansão meio informe de uma classe média cujo imaginário não parece ultrapassar uma coleção inesgotável de bens de consumo. E com uma extraordinária expansão das práticas digitais de escrita, acompanhada, paradoxalmente, no entanto, de uma quase invisibilidade coletiva dessas manifestações, de um encolhimento quase ao absurdo da esfera pública.
   (...) O que parece, no entanto, nostálgico, reativo, talvez não aponte exclusivamente para um período anterior à formação da crítica moderna no Brasil, mas para uma reprodução esvaziada de sentido, e desligada de vínculos efetivos com a experiência histórica, de comportamentos, práticas de escrita e certo culto à autodivulgação e à vida literária que parecem se expandir (em prêmios, concursos, revistas, blogs, antologias, bolsas de criação) em movimento inverso ao da restrição que se opera no campo da produção e da compreensão da literatura, ao da quase total desimportância de livros e mais livros que se acumulam sem maior potencial de instabilização, sem provocar qualquer desconforto, sem fazer pensar. Uma restrição que talvez indique uma incapacidade não só da crítica, mas do campo literário, de modo geral, de reinventar a sua sociabilidade, de produzir condições outras para a própria prática."

FLORA SÜSSEKIND - a crítica como papel de bala.

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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