“Most people don't see what's going on around them. That's my principal message to writers: for God's sake, keep you eyes open. Notice what’s goning on around you (…).”

BURROUGHS, William S. The Paris Review - The Art of Fiction, no. 36, pg. 15. 

Escritor multifaceta que conheci no Jabuticabas, cuja entrevista encontrei no The Paris Review, mais especificamente aqui.

ISTO NÃO É UM HINO PARA UMA MULHER DE VINTE E POUCOS ANOS DE IDADE


Soaria falso dizer que crê no amor adocicado das comédias românticas ou no amor incondicional dos dramalhões – não, não crê, além de enxergar na falsa naturalidade de tais gêneros cataclismos absurdos. Todavia crê no amor, o cru, o repetitivo, que preenche vazios com sexo, que se torna amizade, apenas, sem trepidações no coração. Insiste em dizer que não há nada mais catastrófico e belo que o início e o fim dos romances. Park that car / drop that phone / sleep on the floor / dream about me [1]. O amor tinha sabor, cheiro e textura de sexo, o restante parecia-se mais com amizade. A ideia de limitar a vida a uma pessoa – uma única – amedrontava a pobre garota de dezessete anos que queria ser considerada mulher, porque mulher que é mulher, madura, sabe manter um relacionamento, herança de fracassos anteriores. Os pais sempre foram liberais quanto ao sexo, mas ela sabia de certos limites que não diziam a respeito de posições ideológicas: quando transava em seu quarto ligava o estéreo em volume alto que permitisse os gritos e impedisse a audição dos ruídos de amor. Gostava de transar ao som de Francis A. Sinatra & Edward K. Ellington, vinil que herdou do avô – disse ao menos uma vez, em sussurros, aos três namorados com os quais transou ao som desse vinil “querido, sou sua”. And if she’ll say, “My darling, I’m yours” / I’ll throw away my striped tie / and my best pressed tweed / all I really need is the girl [2]. O amor às vezes vem precoce, absorve a adolescência e persegue enquanto houver vida, e da paciência que surge, esperançosa, escuta-se sempre um ruído triste que ocupa as noites que outrora foram preenchidas por ruídos de amor. Concordou com Nietzsche com veemência em relação ao tópico (assim por ela chamado) 415 denominado “AMOR” de Humano, Demasiado Humano, não sem antes, dois anos antes, condená-lo pelo mesmo tópico. Concordara com o filósofo nos dois momentos quanto aos tópicos 400 e 401, pois as mulheres se tornam por amor exatamente o que elas são no pensamento dos homens por quem são amadas e, na maioria das vezes as mulheres amam um homem de valor, de modo que querem tê-lo só para si. Elas o deixariam de bom grado em cárcere privado, se sua vaidade não as dissuadisse: esta quer que apareça a outras também como um homem de valor [3]. O primeiro namorado foi ela quem conquistou e também foi ela quem se cansou, o amor terminou por ócio, e embora a virgindade perdida mutuamente houvesse tido sabor mágico, não foi suficiente para prendê-la a ele. O segundo foi explosivo, durou um mês, suficiente para declarações de amor eterno, sexo diário (inclusive tentativa de sexo anal) e declarações de ódio eterno; o amor acabou em seu aniversário de dezesseis anos. O terceiro foi o mais intenso, all these people drinking lover's spit / swallowing words while giving head / they listen to teeth to learn how to quit / take some hands and get used to it [4], houve comemoração de aniversário de namoro e planos de vida – separados – e nisso se entendiam. Mas de que adiantaria parar naquele homem com pouca barba, pouca experiência, pouca idade, pouco tudo? Queria ser mulher inteira, experiente, e tinha apenas dezessete anos – que já não os tem. Resolveu que para amadurecer precisaria sofrer no mínimo três anos o amor perdido, assim amaria de verdade outras vezes mais. Passou os três anos dedicando-se a um estudo – inútil? – sobre os reflexos da Lei da Anistia (que concedeu perdão tanto aos civis que cometeram crimes políticos nos anos de ditadura, quanto aos militares que a impuseram) no estado democrático de direito. O estudo quedou-se inacabado. Transou com semi-conhecidos e desconhecidos, não obtendo satisfação compensatória. Em seu aniversário de vinte e um anos não convidou os amigos para a festa que não aconteceu, apenas tocou no estéreo um rock triste, que apenas era triste porque assim queria, e não se emocionou. Não havia motivo. Metal heart you're not worth a thing [5].





[1] Broken Social Scene - Anthems For A Seventeen Year-Old Girl.
[2] Frank Sinatra & Edward K. Ellington – All I Need Is The Girl.
[3] Nietzsche – Humano, Demasiado Humano.
[4] Broken Social Scene – Lover’s Spit.
[5] Cat Power – Metal Heart.

HOTEL PARADISE: SUÍTE 141

in memoriam de William Wordsworth e William Shakespeare

O tempo que há em tudo
reside em mim, por conseguinte
persegue-me no absurdo
tornando-se presente no interior
deste quarto que insiste em ser lugar-comum
Hotel Paradise: suíte 141

so I am as the rich whose blessed key
Can bring to me this sweet up-locked treasure*

A chave do tempo
ferrolho do que é inanimado
persegue-me nestes dias de inverno
“ah, dia marrom”
grita a camareira do meu hotel chinfrim –
é preciso assear o que me estende

Ratifico o que escreveu Shakespeare, por fim
pois, sendo eu apenas rico de coração
tenho 10 reais e a compaixão da camareira 
que me observa, nu na cama
com intimidade que me estranha
e que, embora próxima dos 50 anos
ainda pode me glorificar com seu doce tesouro trancafiado.

*Versos de abertura do soneto LII de Shakespeare.

ENQUANTO DAISY LOWE DANÇA PARA A ESQUIRE OU "A WOMAN WE LOVE"

para Rodrigo

Youre so cool / Youre sweet and rude /Youre so plain that it's special / It's nuttin like you / Well, aww hoo / oo-oooo-oo-ooo / You make me stand up, and holla ‘do the hoochie coo!’ / Youre so cool.
Mila Kunis talvez não seja tão bonita quanto imagino e me lembro. Quem sabe ler O Tratado do Desespero e da Beatitude seja mais interessante que admirar Mila Kunis na capa da Esquire americana de fevereiro? Renata me disse que buscamos o equilíbrio entre alma, coração, mente e razão, algo assim; estávamos bêbados, não entendi muito bem e ri dela, embora concorde com o que ela disse (?). Algo como acordar no meio da madrugada e ver Mila Kunis, no prédio ao lado, entrar em seu apartamento de janelas gigantes e escancaradas e despir-se, despretensiosamente, talvez exemplifique a minha maneira de conceber o voyeurismo. O amor não se explica, não se compreende, não creio que a filosofia alcance o significado do amor. Prefiro senti-lo, ainda que em imagens, ainda que na imaginação – fitando uma parede branca. À noite prefiro as mulheres aos filósofos, perdoem-me aqueles que consideram a minha heresia.

NAQUELA OCASIÃO OU "TODO ÓDIO DA VINGANÇA DE JACK BUFFALO HEAD"


Hoje, após não sei quantos anos – consigo me lembrar apenas do dia, 08, e do mês, março – encontrei um discurso que começamos a escrever juntos e que nunca terminamos, sobre uma tal de política, um discurso social do qual nada sabíamos, mas que insistimos em escrever inspirados em Darcy Ribeiro, “Notícia de última década: a canalha impera, robusta como um touro. Somos uma nação entregue aos interesses de uma elite politizada, porém insignificantemente humanizada, que não tem no seu encalço revoltosos efetivos, altruístas, embebidos do sentimento de nação; os poucos que se revoltam o fazem egoisticamente, e, em geral, são estereotipados, ‘marxistas de ouvido’, ineficazes...”. Encontrei-o dobrado dentro de um envelope grande cheio de recordações dos meus meses no exílio em São João Del-Rey – adquiri a mania de guardar bagulhos depois de assistir um documentário sobre o Andy Warhol, que encaixotava tudo que parecia ser trivial – e com isso ressuscitei você, cujo destino eu desconheço completamente.
Era uma festa de república, não me lembro o nome, porém sei que era uma república feminina e que ficava próximo ao Bar 70, esquina com a Avenida Leite de Castro (lembro de você rindo por eu achar que a avenida se chamava Lady Castro). Você chegou perto de mim, pediu um trago do meu baseado e eu ri, você não tem idade para isso, afirmei. Descobrimos que na verdade você era mais velha que eu oito meses e que eu era quem ainda não tinha idade para aquilo. Ofereci meu Johnnie Walker Black Label, era a bebida adequada para o Matanza que tocava no estéreo da casa, e você discordou, disse que rum ou gim seriam os adequados, deu um trago direto da garrafa, você disse ser falsificado, parecia-se mais com licor de pequi – nisso nos descobrimos conterrâneos, nascidos no mesmo hospital, Santa Casa de Misericórdia –, preferiu permanecer na garrafa de Jose Cuervo que bebia com suas amigas.
Após horas de conversa combinamos que iríamos percorrer a Estrada Real juntos, conhecer a América do Sul e o caminho místico de Santiago de Compostela. O que mais aconteceu caberia contar aqui? Seu nome ficou perdido entre as consoantes do alfabeto, logo na primeira letra, nenhum beijo ou sobrenome resta a ser contado. Uma transa em Tiradentes? Uma fantasia... Andarilhos. Busco um endereço, um remetente, talvez encontre apenas a minha esquizofrenia (não detectada) e nela os meus personagens inúteis – tanto quanto a excessiva des(dis)crição.

MINHAS PELÚCIAS OU "GOT A DEVIL'S HAIRCUT IN MY MIND"


De pouco vale – quase nada – que o pai explique a ele que os tapas que dá na mãe não são violentos, que os puxões de cabelo são ocasionais, papai anda muito cansado do serviço e mamãe não o ajuda porque fica sempre perguntando como foi seu dia se quer o jantar agora e ela sabe que o dia foi péssimo porque o trabalho de papai é estressante e não é tão bom quanto as idas ao parque nos domingos de manhã pra andar de pedalinho e comer pipoca doce e algodão doce e beber coca-cola.
Na hora das brigas, que ocorrem geralmente três vezes na semana, em dias alternados, mais especificamente nos dias pares – que sábado é dia de transar e domingo tem parque e depois papai vai beber cerveja que tem gosto amargo no bar com os amigos e sempre volta com muito cheiro de cigarro – ele tampa os ouvidos com duas pelúcias, o tigre Tigo, e o sapo Jão, e se esconde em baixo da cama, espiando o pouco que consegue ver pela fresta da porta do quarto dos pais que fica em frente ao seu. Ele chora, às vezes, quando a mãe pede para parar e o pai a chama de puta e lhe esbofeteia o rosto, porque acontece o mesmo com ele quando ele pede que a mãe pare de lhe bater, e ela o chama de moleque e de estorvo, esbofeteando-lhe o rosto com a mão doente de costureira.
Durante um tempo papai ficou bonzinho porque mamãe tava ficando gorda. Ele vai ganhar um irmão, a mãe diz que a barriga dela crescerá quase tanto quanto a barriga do pai, não porque ela está comendo muito, mas porque ela está gerando um filho, da mesma forma que o gerou, quatro anos atrás. Ele não compreende muito, mas coloca a mão na barriga da mãe e espera por um chute. Pergunta se o bebê chuta por não gostar dela, claro que não, ele ama mamãe assim como você me ama, porque por nove meses somos uma só pessoa. Ele acha estranho, como que mamãe carrega uma coisa dentro dela que tá crescendo e chutando sua barriga e comendo o que ela come e fazendo xixi e cocô dentro dela? Seria partindo disso que ele poderia ter entendido o amor anos depois.
É aniversário de vinte anos da mãe e tem festa, sábado é um dia bom. Todos estão lá, até mesmo o primo da mãe com quem ela havia perdido a virgindade aos treze anos, e o pai sabe disso. Ele ouve a avó e a mãe conversarem, a avó diz que vinte anos é uma idade importante, simboliza a entrada na vida adulta, embora ela já tivesse amadurecido bastante ao ganhar o primeiro filho – e amadurecerá muito ao ganhar o segundo, daqui a três meses, você verá. Ele não sabe se será menino ou menina, nem mesmo nome ainda deram ao bebê, ou, se deram, não lhe contaram.
No fim da festa papai tava muito bêbado porque passou o dia todo bebendo pinga com os amigos que foram na festa e beberam muita pinga e cerveja também. O pai não cumprimentou o primo da mãe, o ignorou. Na saída, viu que a mãe e o primo conversaram algo e sorriram, depois se abraçaram e ele foi embora. Ao entrar em casa para arrumar a bagunça da festa, quando todos já haviam ido embora, o pai perguntou à mãe o que ela conversou com o primo. Ela disse que nada demais, que ele apenas desejou felicidade à família e ao bebê que estava por vir. O pai a chamou de mentirosa e disse que os dois estavam marcando um encontro, então deu um soco no rosto da mãe, que caiu desvairada no chão. Papai chutou mamãe umas quatro vezes na barriga igual quando ele me levava para ver o jogo de futebol e que ele chutava muito a bola e marcava gols. Depois arrastou a mãe pelo o cabelo e lhe deu um tapa no rosto, mas ela já havia desmaiado. Quando o pai viu que sangrava por entre as pernas da mãe, libertou-se da embriaguez e se desesperou. Ligou para o um-nove-três, pediu uma ambulância com urgência, a mulher estava grávida, havia tropeçado e caído violentamente no chão, achava que ela havia abortado. Quando a ambulância chegou o pai recusou a acompanhar a mãe alegando que o filho não poderia ficar sozinho em casa, também não poderia ir ao hospital porque o filho tinha medo. A ambulância levou a mãe, porém os médicos desconfiaram dos ferimentos e ligaram para a polícia relatando o que suspeitavam que havia acontecido. Papai sabia que iria ser preso e se desesperou chorando muito e eu nunca vi ele chorando e ele chorava mais que eu quando apanhava e ele gritava não que ele matou o filho dele mas eu disse que eu tava bem que eu tava vivo mas papai disse que eu não era filho dele devia ser filho de algum outro homem porque mamãe era uma puta depois disse que amava mamãe muito que ele tava na merda que a polícia ia prender ele e agora ele tinha que fugir mas a polícia bateu no portão e ele não quis abrir e os vizinhos gritavam assassino e a polícia quebrou o portão e entrou e papai tentava fugir pulando o muro mas os vizinhos pegaram ele e a polícia o levou e eu fui dormir na casa de titia que fica perto de casa mas não tem papai nem mamãe só Tigo e Jão que agora ficam nas minhas orelhas o tempo todo.







HISTÓRIA DE QUINZINHO

'quizinho era um louco que fazia
o trajeto montes claros-janaúba,
no norte de minas

pra alegrar suas caminhadas
construiu um caminhãozinho
de madeira, transportando nele
várias mercadorias, todas vindas
de suas fazendas, dizia

gado, arroz, carvão, pequi e, mais
recentemente, soja. tudo muito
bem arrumado no seu
caminhãozinho de brinquedo

quinzinho morreu atropelado perto
de capitão enéas quando trocava
o pneu do seu caminhãozinho
no acostamento'

Nicolas Behr, Primeira Pessoa

Homenagem (?) às minhas cidades, Montes Claros e Janaúba, e a Capitão Enéas, a pior parada possível da linha Montes Claros-Janaúba. 




"SURGE ZORA" OU FICÇÃO AMOR 2000

Montevidéu, Buenos Aires, Santiago. Tenho certeza de que ela pensa que sou um psicopata. De fato pesquisei sobre sua vida, perguntei a amigos em comum, como ela é? Do que ela gosta? Do que ela não gosta? Quem são seus ex-namorados? Qual o motivo do choro incessante dela? Coisas assim. E, no mais, as pessoas já se expõem tanto, facebook, orkut, twitter, formspring, etc. e etc...
Paris e Londres. Não a conheço bem. Conhecemos-nos em uma festa junina que fazia muito frio, depois nos reencontramos através da internet, no total a vi apenas duas vezes – nas duas ela chorava tanto (!). Percebi que sofre de vários complexos, alguns bizarros, o mais notável é de que se acha excessivamente gorda, embora eu não veja em lugar algum mais perfeição do que nela.  Vai à academia de segunda a sexta; segunda quarta e sexta faz musculação, terça pilates e quinta jumping. Nos fins de semana prefere comidas calóricas e sexo casual.
Pelotas e Araxá. Minha irmã não tem certeza, mas acha que Luísa (esse é o nome dela) foi sua colega nos idos anos de primário. A minha maior surpresa foi descobri-la propensa às lágrimas desde criança. Maria Cecília, grande amiga, disse que elas foram colegas de italiano, e, segundo ela, como os italianos, Luísa é dramática e teatral.
Salvador e Rio de Janeiro. Trocamos poucas palavras até hoje. Na maioria das vezes nos limitamos a conversas com frases de, no máximo, cento e quarenta caracteres. Notei em suas fotos preferência por homens morenos, e isso me desesperou – estou tão branco, quase não tomo sol (!).
Montes Claros. Espero que nos encontremos nas férias, tête-à-tête, que eu tenha algo a lhe dizer, talvez comece por elogios ao seu sorriso, ou à foto dela em que apareço ao fundo, na festa junina em que nos conhecemos em meio ao frio e à indiferença. Espero também ter a oportunidade de abraçá-la, contaram-me que ela tem um cheiro bom.


"JORNAL ÍNTIMO
          (...)
27 de junho
Célia sonhou que eu a espancava até quebrar seus dentes. Passei a tarde toda obnublada. Datilografei até sentir câimbras. Seriam culpas suaves. Binder diz que o diário é um artifício, que não sou sincera porque desejo secretamente que o leiam. Tomo banho de lua.

27 de junho
Nossa primeira relação sexual. Estávamos sóbrios. O obscurecimento me perseguiu outra vez. Não consegui fazer as reclamações devidas. Me sinto em Marienbad junto dele. Perdi meu pente. Recitei a propósito fantasias capilares, descabelos, pêlos subindo pelo pescoço. Quando Binder perguntou do banheiro o que eu dizia respondi “Nada” funebremente.
(...) 
27 de junho
O prurido só passou com a datilografia. Copiei trinta páginas de Escola de Mulheres no original sem errar. Célia irrompeu pela sala batendo com a língua nos dentes. Célia é uma obsessiva."

Ana Cristina Cesar. In: 26 poetas hoje. Organização de Heloisa Buarque de Hollanda; 6a ed. - Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. p. 145/146.

EXÍLIO

“(...) se o verdadeiro exílio é uma condição de perda terminal, por que foi tão facilmente transformado num tema vigoroso — enriquecedor, inclusive —da cultura moderna? Habituamo-nos a considerar o período moderno em si como espiritualmente destituído e alienado, a era da ansiedade e da ausência de vínculos. Nietzsche nos ensinou a sentir-nos em desacordo com a tradição, e Freud a ver na intimidade doméstica a face polida pintada sobre o ódio parricida e incestuoso. A moderna cultura ocidental é, em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados. Nos Estados Unidos, o pensamento acadêmico, intelectual e estético é o que é hoje graças aos refugiados do fascismo, do comunismo e de outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes. O crítico George Steiner chegou a propor a tese de que todo um gênero da literatura ocidental do século XX é ‘extraterritorial’, uma literatura feita por exilados e sobre exilados, símbolo da era do refugiado. E sugeriu:

Parece apropriado que aqueles que criam arte numa civilização de quase barbárie, que produziu tanta gente sem lar, sejam eles mesmos poetas sem casa e errantes entre as línguas. Excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...”



SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio. In: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003. p.46.


ANA PAULA ARREBATADA

31.

Não sou afeita a pessoas que morrem de amor. Estou condenada a romances bizarros, livres de sorrisos fáceis, apelidos carinhosos, abraços. Talvez eu não creia no amor, porém eu amo. Às vezes começo a escrever poemas que revelariam a minha sensibilidade,
Você existe, e, por isso,
fura feito pedra,
que bate e bate e bate
com perseverança e decisão;
mas, como o amor que sinto, eles morrem nos primeiros versos.


Éramos muito iguais, ou ao menos criamos sermos muito iguais. Talvez tivéssemos nos tornado iguais durante a convivência obsessiva. Isso, encontro coesão com os fatos; éramos cruelmente diferentes, mas com o tempo, juntos, tornamos-nos idênticos, completávamos frases, era loucura. Éramos igualmente profundos, às vezes vulcânicos, cobertos por sulcos provocados por faltas, embora ocultássemos as falhas. Dizia me conhecer porque se conhecia, era eu quem a habitava, eu era igualmente habitado. Surgíamos como doses excessivas de rum, embriagávamos-nos; enquanto ela dizia quente ao meu ouvido, “a nossa represa está prestes a romper” e eu ignorava o alarde.


Digo agora, com toda a certeza do universo, que não há verdade alguma. Passamos. Embora não fizesse frio e fosse janeiro e fosse domingo e fosse à noite, por volta das 18 horas, do ano passado – é qualquer ano, que se for 2000, 2010, 2100, terá sido um ano antes, não digo quanto nove – o dia que não se apagou em mim.
Deite aqui comigo, faz tanto frio. Você não gosta de dormir comigo! Isso foi ano passado, agora eu gosto. Tenho medo, tanto medo. Agora eu conseguirei passar segurança. Você não sabe o quanto doeu. Deite comigo, me abrace, faz frio. Você é o homem da minha vida. Eu espero para ouvir, porém tudo é silêncio, e o frio...
Ela se deitou comigo, na minha cama de solteiro amarelo-amor.
Não gosto de falar de amor, então digo que tudo isso é mentira. Não é Edgar, não é Eduardo, não é ninguém. Não sou ninguém.
Falou comigo que nunca acreditou que eu a deixaria ir aquele dia, sabia que iria gritar seu nome, e dizer, não, voltei aqui, é tudo mentira o que eu disse antes. Ela estava certa. É tudo mentira e a sua nova vida não me amedronta. Sou forte, enfrentaria um leão, dois leopardos e três tristes tigres por você, para não deixar que eles nos separem.
Faz frio, mas ela está comigo, deitada, me abraçando, dorme profundamente. Debaixo da coberta estamos juntos. Ela me diz que vai me amar para sempre, ela sonha. Sonho também. Ignoro a dor nas costas – posição desconfortável –, não peço licença para me deitar no colchão deixado no chão entre a cômoda e a mesa do quarto apertado, colchão para visita. Ela me ama como jamais amei alguém. Fecho os olhos.
Você promete me amar para sempre? Prometo. Você promete nunca mentir para mim? Prometo. Você promete existir algum dia? Prometo. Você promete coisas demais, não passa confiança, é preciso receio.
Que bonito, que lindo, todas essas pessoas, elas não fazem nada, apenas sorriem.
Pego o controle remoto porque ela está dormindo, irei esperá-la para continuar o filme. A janela está fechada, mas a cortina está aberta, vejo o silêncio do vento balançar as árvores, uma sacola voa, uma estrela, duas... Queríamos um telescópio, agora o temos. Ela adormeceu em uma parte ruim do filme, aperto rewind, deixarei o filme na parte que mais gosto, de lá recomeçaremos. Espero que ela acorde.
É 1999 ou 2009 ou 2099, ela chora de raiva e de alegria e diz que sabia, sim, que eu iria gritar seu nome, dizer que era mentira, brincadeira estúpida. Ela sorri e diz meu nome e coloca os braços ao redor do meu pescoço. Eu acordo.



Não tenho tempo para medicina.
Dores crônicas convivem comigo, agora mesmo ouço meu nervo ciático chiar
– no glúteo esquerdo.
O que me falta é barba, eis o motivo de toda a minha indecisão/preocupação
/pessimismo.
A única esperança do não-eu barbudo é ser músico de jazz,
apesar de nunca ter conhecido algum, creio sejam eles o oposto de mim:
apesar de introspectivos, tão atraentes.
Bill Evans tocando my foolish heart 
(as cores... não existem).
Hoje é um dos últimos dias de maio,
a idade subindo as escadas, mais um...
Inspiro forte e mais uma dor surge, no pulmão, do lado esquerdo,
abaixo da última costela.
Todas as minhas dores, crônicas ou não, são sentidas do lado esquerdo
– sempre soube que ser canhoto é sinal de ser errado.

E. DEGAS - ANA PAULA ARREBATADA

I
Escrevo do mesmo lugar dos fatos que aqui narrarei. Retifico-me. Não escrevo, já que não possuo lápis, caneta, pincel, giz, carvão ou qualquer outro material, e, antes, não possuo papel sequer. Narro, portanto. Mas não possuo voz (quais eram os desequilíbrios das minhas cordas vocais?). Contradigo-me – sem dizer, de fato. Penso, portanto, e é através de pensamentos que narro.
Senti medo ao chegar aqui – lugar ermo e mal iluminado. Talvez tivesse sentido a sensação de estar sendo observada por um estranho de, não sei, mil olhos, com o poder de me enxergar por todos os ângulos e prever os meus movimentos, ver-me nua – em extensão e profundidade. O silêncio impera, é impossível crer que ele fora rompido por um grito – lacônico – da mulher que se soube prestes à tragédia. Tudo é tão calmo agora, e antes...
Quando cheguei aqui tudo estava pronto: a tela, os pincéis, as tintas, apenas me aguardavam, ansiosos, tensos, e curiosos com o meu talento. Apesar de mal iluminado, a pouca luz que permanece é maravilhosa que chega a adiantar-me o gozo. Entendi, tão logo aqui entrei, os homens na caverna de Platão que, encantados com as sombras, criaram-lhes vida (encorpada, massificada, esdrúxula). Despi-me. A Vida é tão breve e falsa com o corpo a ponto de no momento de fuga da alma privá-lo de cor e calor, tingindo-lo a tez, secando-lo os lábios. Nua, como a morta, eu era contradição, porque ainda quente embora tão bela quanto.
O motivo da morte eu não sei precisar, tampouco quanto tempo aquele corpo ali se encontra. Tem bonitos seios, como os meus, pequenos e rijos. O rosto não expressa medo, talvez tenha morrido dormindo, que é a maneira como espero morrer. Porém isso é pouco provável, devido aos chupões no pescoço, às marcas de unhadas e socos pelo corpo, à vagina maltratada. Ouço que não me cabem suposições, nem juízos: ao trabalho, Ana Paula!
 (...)

PILOTO

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Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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