"Os contos hispano-americanos foram produzidos ao longo de muitos anos e são exponenciais de toda uma literatura vitalíssima. Os brasileiros sucumbiram (..) ao absurdo critério da atualidade. O resultado é que se defrontam grandezas quase antípodas. Para os lances de um Alejo Carpentier, de um Juan Rulfo, de um Juan José Arreola era preciso colocar nesse tabuleiro de xadrez peças equivalentes: O Meu Tio, O Iauretê de Guimarães Rosa ou seu A Terceira Margem do Rio é que poderiam aparecer ao lado de tais prodígios. E uma Clarice Lispector responderia a um Borges ou um Cortázar, uma Hilda Hilst a um Roa Bastos ou a um José Revueltas, uma Nélida Piñon de O Tempo das Frutas a um Bioy Casares, Um Vampiro de Curitiba de Danton Trevisan a um Juan Carlos Onetti.
Os Contos de Rubem Fonseca e Roberto Drummond (...) parecem pigmeus em terras do Gulliver lembrado por Borges em seu O Relato de Brodie, tal a sua banalidade e ausência de significado mais autoelogiável do que antologiável. (...) Sérgio Sant’Anna defende bem seu ângulo mineiro, mas comparar quem há-de? com um mero Carlos Fuentes ou um Vargas-Llosa em dia de pouca inspiração?"

(O Continente Submerso, Leo Gilson Ribeiro)



Nasci e cresci em cidade pequena, onde não havia livraria, não havia teatro, não havia cinema, não havia nada além da biblioteca. E mesmo a biblioteca era de uma modéstia arrogante. Por volta dos onze anos, em uma tarde na biblioteca pesquisando algo para escola, fui descoberto por um livro erroneamente colocado na seção de literatura estrangeira (várias foram as vezes em que o coloquei na sua seção correta, mas sempre voltava para ao lugar ao qual o nome da autora sugeria pertencer), “Corações Mordidos”, da catarinense Edla Van Steen. Esse livro marcou o início de minha adolescência, um romance esquizofrênico, que se passa em um lugar “ilhado”, em que personagens se confundem, cujo fim até hoje me recordo: a personagem principal está sentada em uma cadeira, uma vela ou um cigarro cai no tapete que começa a pegar fogo, ela vê e nada faz para apagar, apenas deixa o fogo se alastrar pela casa. Depois desse dia me transformei em sócio da biblioteca. Li o que a minha rinite alérgica permitiu de Érico Veríssimo, Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meireles, Sérgio Porto etc. A bibliotecária tentava me mostrar escritores estrangeiros, mas eu me negava, justificava dizendo que só conseguia imaginar as histórias no Brasil. Com exceções de algumas poucas leituras como Sartre, Shakespeare, Kafka, Tchekov, pouco me interessava o que não era escrito no Brasil, ou ao menos por brasileiros, com exceção também para as minhas fixações juvenis que foram as histórias surpreendentes do Conan Doyle e do C.S. Lewis. Fui envelhecendo (!) e li todos romances do Graciliano Ramos, muita coisa do Jorge Amado, li também João Ubaldo, Fernando Sabino, Cyro dos Anjos, Machado, Mário e Oswald, Lima Barreto, Adélia Prado, Hilda Hilst... Mas em relação ao que foi escrito ao redor do mundo e que influenciou meus compatriotas, permaneci quase virgem.
Há menos de um ano descobri Borges, e, através dele, Cortázar. Literatura de altíssimo nível, fantástica. Dá-me uma saudade da Argentina que jamais conheci ao lê-los... Outro dia fui encontrado pelo “Continente Submerso – perfis e depoimentos de grandes escritores de Nuestra América”, de Leo Gilson Ribeiro, enquanto procurava um livro de ensaios do T.S. Eliot – ou terá sido do Walt Whitman? – na decadente biblioteca da Universidade em que estudo. Serviu apenas para aumentar meu fascínio e inveja pela genialidade que raras vezes vemos surgir na literatura de nosso país.

eu, submerso?



"Após passar a manhã dando aula, Sartre e Beauvoir instalavam-se num café para escrever. O preferido era o Flore, no Boulevard Saint-Germain, com suas cadeiras vermelhas e seus espelhos. O café não era muito conhecido na época, e os soldados alemães quase nunca lá punham os pés. Mas o melhor era o aquecimento da casa. Os quatro invernos da Ocupação seriam mais severos que o normal, com neve e gelo nas ruas de Paris. O carvão era racionado e os cortes de energia elétrica eram comuns. No meio do Flore, havia um enorme fogão de sala, que o proprietário mantinha bem abastecido com seu estoque de carvão comprado no mercado negro.
Sartre e Beauvoir trabalhavam em geral no segundo andar, onde era mais silencioso. Sentavam-se em extremidades opostas da sala para não caírem na tentação de conversar e – envoltos em fumaça de tabaco, em meio ao tilintar das xícaras de café, ao burburinho das conversas e à distração do movimento das pessoas que iam ao banheiro ou falar ao telefone – escreviam. Ambos usavam canetas-tinteiro. A letra de Sartre era pequena, regular e profissional. A de Simone, irregular, era quase impossível de decifrar. Até mesmo Sartre se queixava.
Na mesa ao lado da pilha de papéis do casal havia um pequeno bule de chá, uma xícara, um pires e um cinzeiro. Como todo mundo, eles fumavam. O tabaco era escasso durante a guerra, e Sartre vasculhava o chão do café à cata de guimbas de cigarro para abastecer seu cachimbo. Beauvoir gostava da sensação de um cigarro na mão, mas não tragava, nem se importava de ficar sem cigarros."

(Tête-à-Tête, Hazel Rowley)

minha amarga mentira

Degustar as canções que nos tocam
é o que precisamos, coração doce
enquanto desmede o tamanho
de seu passo e do meu
tenho/possuo o tempo – meu tempo
a minha traição mais verdadeira
possuo meu tempo e sou por ele possuído
(coração doce, você não é nada além
de minha amarga mentira)
sentir-me perdoado por construir
meu próprio castelo de sal
e tê-la como refém de meus dias
e defender-me de meus fantasmas
erguer-me em minha própria realidade
reerguê-la para mim como verdade
palpável a estas mãos fibrosas
sentir encolher em mim
uma vida além de escândalos em piano-bar.

velvet

Podia compreender o sussurro
a aproximadamente vinte metros
distância que cortava o Café – não um café
propriamente dito e coado, tampouco
um desses lugares em que se bebe e se lê
porque lia lábios, olhos de Thundera possuía

Dizia eu vim lhe trazer a morte dos dias
e justificava eu sou saudade e o tempo
que vaga lento, devagar
e, se com rapidez, poderia fitar o céu
meio dia meio noite, azul marinho
tal qual o teto da Maçonaria
a se fazer presente em todas as ruas de todas
as casas, com Maçonaria e céu ao cair da tarde

Carmim a cor dos lábios, ao lê-los se saberia
qual a epiderme que lhe cobre e lhe protege do frio
em noites quentes e mal dormidas, com sonho
e gozo em underwears de ambos os sexos
o cheiro do cafeeiro que nos torna à tarde
ao presente, then a bittersweet..., pensaria.

"et tout le reste est littérature"

Eu me erro e creio que não seja por desleixo. Sinto que há uma conspiração contra mim, uma coisa maior, talvez divina. Tentei entender os motivos dos diferentes caminhos pelos quais seguem diferentes vidas, mas concluí que há um mínimo ponto de convergência que faz com que os caminhos sejam apenas aparentemente diferentes. É uma desgraça o que me persegue, me faz roto, todo errado. A minha vida alcançou um ápice natural, uma frágil estabilidade e agora pende à ruína. Não sobrou quase nada, e o pouco que resta está sujo e me enoja. Força pra me erguer nunca tive, não seria em um momento de fraqueza que eu seria forte. Também nunca tive fé que me levasse ao caminho da salvação, se é que esse realmente existe. Há uma só saída já buscada outras vezes por meios ineficazes, mas que me parece tão covarde que até nisso não encontro sossego. Os problemas pequenos escondem, resumem um inferno maior que existe por trás de mim, ou por dentro de mim, ou por fora, tanto faz, que é maior que o cotidiano, e acumulado desde existências anteriores. O meu legado está todo neste último lapso de racionalidade, apesar de me aparentar uma racionalidade confusa: é o meu máximo. Saio de cena sem deixar saudade, mas deixo muitos vestígios, muito impacto. Se a vida de um homem pode ser resumida em um dia, será este dia o mais perfeito resumo da minha vida, que outro dia não seria resumo, não falaria por mim. O que eu penso das árvores? São seres monótonos, parados frente ao tempo, tal como eu. E das crianças, o que penso? Condenadas por um pecado inexistente, impossível. Se me vou agora, felicito-me por não deixar filhos, agradeceria se fosse colocado sob uma árvore. Não há tempo, espaço, lugar; há, tão somente, esta existência bruta. Este é o meu fim e a minha descontribuição. Apagam-se as luzes sem deixar saudade e sem levar saudade, de nada nem de ninguém.

neanderthalensis

Cara de sono por dormir cedo e acordar tarde
(sente-se mal por acordar em pleno século veinte y uno depois de dormir por tanto tempo, cinquenta mil anos?)
Magnífico homem de neanderthal,
musculoso ser de fala lenta e nasalada, de vocês herdamos o mundo
Temos sintetizadores, extasy, LSD, e a moda pós anos 80
admire essa magnificência, tome um pouco para você, vista-se, brilhe, dance
Querem-no nos museus, nas boates e em todos as bocas de fumo
querem-no em tudo o que há de muito seguro e em trezentas toneladas de livros
toma, leia Hilke, Baudelaire, Pound, Camões
ouça a voz de Deus, ouça Wolfgang Amadeus Mozart
experimente uma de nossas mulheres, selvagens como você
atormentadas atrás de gozo e de poder
Recupere o tempo perdido, participe das orgias romanas
venha por aqui, Calígula está a lhe esperar
mas antes que vá, peço-lhe, mate Jesus Cristo
já que não é a imagem e semelhança de Deus
(é meu irmão, mas sou homo sapiens, sou a identidade do Deus criador, que antes de nós criou vocês, consegue sentir a ingratidão da de-semelhança?)
Seus pares se foram há vinte nove mil anos
está só, mate-o.

sobras

Agora que o que me restou
foram as sobras do que eu nunca tive
posso, finalmente, olhar sem espanto
as mentiras sentidas na carne no suor
aos poucos deixadas para trás
Não que não haja
forma erudita para dizê-las
- ela existe
porém não me importa a simplicidade:
já não me têm
os sonhos que já sonhei
as roupas que já vesti
os amores que já perdi
as drogas que já usei
Olho sem espanto
como o dia acaba
e recomeça: é como todo o constrangimento
pelo fingimento de Andy Kaufman
Acontece que ele não se importava
o meu câncer é outro
não há mantra ou Filipinas
ele não é mortal
embora faça com que tudo se perca
Espero os dias
espero que passem rápido
que eu não os sinta
As sobras do que eu nunca tive
as chaves do apartamento
(que esperanço explodir junto comigo)
Tudo o que me restou
Andy Kaufman
levaram embora: minha mulher, minhas crianças
tudo o que eu não tinha
O seu câncer era raro e o matou
o meu me perpetua em nada.

10/2009

01

Quero escrever do início de tudo, do início do início, para contar aos poucos que se dispõe a me ouvir o quão valente era o Dragão Covarde, à sua maneira, desafiando cordilheiras de sal iodado 1 Kg. Não faria mal se me dispusesse a mentir sobre alguma coisa que viveu o pobre herói de ninguém, não corromperia a história, não deslocaria o eixo da Terra, não tornaria cristais de açúcar o mel – ficção existe de qualquer modo e vai além.
Não existe Dragão algum, em carne e sangue e fúria e fogo, além de uma metáfora barata, mal empregada, que designa um homem desonesto e desonroso, fraco de força física – faltam-lhe músculos e sobra tísica com exagerada gravidade -, espírito de porco, de rato, que sente ódio e vergonha de si mesmo.
Mas, antes, para que o conheçam – conhecer a mim, portanto – é preciso dispensar explicações sucintas, repletas de lacunas, e lhes contar a estória do início do início do fim, a partir do momento em que nasce para o Dragão uma prostituta existencialista, leitora de Kierkegaard, Heidegger e Sartre, e apaixonada pelas películas da nouvelle vague.

sábado

Na manhã nublada do sábado Edgar está sentado no sofá, a televisão desligada, pensando por onde começar e se sentirá saudade de tudo o que passou naquele apê/kitnet. Talvez sinta, então começa a arrumação, primeiro a estante de livros, mas antes liga o estéreo, coloca um disco dos Beatles, Rubber Soul, quer ouvir Wait pela última vez naquele lugar, pela última vez cantar “it’s been a long time, now I’m coming back home. I’ve been away now, oh how I’ve been alone”.
Disco rodando, começa então a guardar os livros, pega um por vez, abre-o, olha a data anotada sempre ao fim da leitura, relembra o que sentira ao ler cada um dos livros, é uma viagem ao passado. Viaja também por todo o Brasil, pela Terra. Ali há pedaços de baianos, alagoanos, mineiros, fluminenses, paulistas, gaúchos, americanos, russos, ingleses, espanhóis, argentinos, chilenos, alemães, portugueses, italianos, é a torre de Babel feita de papel. Sente saudade do que sentia enquanto os lia, alguns com marcas de desconhecidos, comprados de terceiros, não por isso de menor valor. Guarda-os, e junto deles ainda coloca algumas revistas, livros da faculdade, a máquina datilográfica. Encaixota agora tudo que está solto por cima de qualquer coisa, contas, um grampeador, um pinguim de plástico, quatro baralhos, algumas pequenas estátuas nordestinas de barro, para nos porta-retratos. Lembra-se do dia da foto com o sobrinho e com o cunhado, em que o sobrinho lhe dissera que o pai era mais velho que Edgar porque seu pai era maior que ele. Não era mais velho, mas não o corrigiu, tampouco tentou explicar, aceitou, talvez fosse verdade. Em outra foto revive a juventude, os amigos que há muito tempo ele não vê, distantes em outras vidas, em porta-retratos de outras pessoas. Depois foi a vez das roupas, tranquilamente arrumadas na mala. Quando terminou de colocar tudo nas caixas, sentou-se no sofá, ligou a televisão. Esperaria o dia acabar, dormiria ali mesmo, não iria a lugar algum. Acordaria no domingo, tiraria tudo das caixas, colocaria cada coisa em seu lugar. Repetiria tudo no fim de semana seguinte, a mesma coisa que tem feito desde o primeiro fim de semana que passou naquele apê/kitnet mal iluminado.

09/2009

despedida





Se não procedi nos conformes me arrependo e peço perdão. Pois que sabem da minha robustez, do meu caráter rochoso, não suportaria a vexação e o mordimento - danado bicho-da-consciência - ao avistá-los, seria demais para mim. Perdão Jandira, Sebastião, Manu (grande Emanuel)! Perdão Jacinta, Eleonora, Valdemar, Claudir! O peso que me esmaga tem alcance além do meu corpo, esmaga a minha alma, de tal forma que inculcado acredito ser isto o purgatório. Deixo vocês como autopenitência, já que remédio não há. Deixo-lhes e é para sempre, não tenho mais o tempo de vida vivida, não esperanço começar uma vida em outro lugar, este eu busco mas é para descansar a cabeça e repensar os erros, culpar-me, talvez encontrar a paz. Foram meus companheiros de vida, minha família, pois que sempre solitário, família própria não constituí. Os irmãos, todos mais velhos, há décadas se foram para São Paulo, nem lembro de suas fisionomias. A mãe e o pai, forasteiros neste lugar esquecido por Deus, se foram no mesmo ano, em mortes diferentes, eu ainda mocinho. Criei-me sozinho, com ajuda das negrinhas que cuidavam da Jacinta. E só agora, meio século depois, lhes revelo: Jacinta, meu primeiro amor, uma das negrinhas, minha pureza perdida. Jacinta foi minha namoradinha, sim, mas nunca soube. Desculpe-me Claudir, se ofendo-lhe a honra, mas isso foi coisa de criança, além do quê, Jacinta nunca soube. Sebastião, Tiãozinho do fubá, meu primeiro amigo, quando ainda mal balbuciávamos, amizade nas onomatopéias! Companheiros nas pândegas, boêmio dos boêmios, que saudade daqueles tempos. Lembra da Carlotinha? Naquela noite em que descobrimos o que uma mulher traz consigo entre as pernas? Safado assaltou-me a vez, persuasão qual nada! Manu, porque de Emanuel não te encontro, parceiro de cartas e bilhar, fincou-me no vício dos jogos e do cigarro, deu-me apoio sempre que precisei. Jandira, eu e o Claudir lhe vimos nua e crua, isenta de pelos – para a nossa surpresa! -, um dia, enquanto banhava-se no rio sob um luar mágico. Apaixonei-me por você (também!) , mas era tão doce, tão pura, demais para mim. Valdir e Eleonora, meus pais adotivos, embora, pela idade, fosse impossível serem meus pais. Com vocês aprendi, tornei-me algo melhor do que poderia ter sido, não tão bom, mas razoável, e isso é um grande feito. Vocês foram o que foram para este velho rabugento, e de rabugice fiz o que fiz, arruinei tudo, e deu no que deu, fazer o quê? Paciência, por isso vou-me embora. Todos criaram família, têm filhos, netos, somente eu permaneci sozinho, então creio que a dor da perda não existirá, e se vier a existir irá esvair-se ligeiro.
O homem caminha rumo ao fim, que pena só perceber isso agora, viveria mais, sofreria menos. Na idade em que me encontro, tornamo-nos complacentes, os absurdos não nos incomoda mais, não há tempo para raivas desnecessárias, lutamos o quanto pudemos, agora queremos descanso, os mais jovens que encontrem as soluções. Mas não me abstive de tudo, velho com modos de jovem, dá pra ser? A sabedoria que esperei adquirir em livros, adquiri em vida. É a minha bagagem nessa viagem em busca de mim mesmo, da minha querência, de caminho esquecido em um ano qualquer, ébrio entre sorrisos e lágrimas. Em um queremismo não-altruístico, tampouco patriota, gritam os muitos eus, enjaulados em mim: “Queremos sossego!”. Pois que quase alcançado, o sossego veio a ter-me repulsa, decorrência de um único louco ato.
Para onde vou não direi, mas mandarei notícias, se o perdão for realmente válido, mesmo que não, se sentir a falta dos desabafos, serão alcançados, incomodados, saberão de tudo. Repito: não tenho ninguém! Não se preocupem com a possibilidade de tornar-me um vagabundo, a vadiar sem rumo pelas ruas de um lugar qualquer. Vendi o que tinha, acresci ao que sempre guardei para no caso de um dia precisar, assim conseguirei viver alguns anos, humildemente bem, creio que serão os poucos que me restam.
Quando criança quis saber de onde eu vinha, questionava-me constantemente sobre a minha concepção, o motivo da minha existência - creio que toda criança já se perguntou isso. Perguntei a quem pude, todos me sorriam e diziam: “não tenha pressa em saber isso, um dia descobrirá sozinho, naturalmente”. Hoje acredito que essa era a resposta sempre ouvida porque aqueles a quem eu inquiria ainda não tinham descoberto, talvez nunca conseguissem, eu não consegui. Mas eu, criança sonhadora e inquieta, não satisfeito com o conselho, continuei no intento, e procurei em cima de árvores, embaixo de pedras, subi morros, adentrei matas, conversei com lagartas, preás, tatus, cantei aos pássaros, suei e cansei, talvez estivessem certos, eu devia era esperar, sem pressa, não dar importância à delonga. O problema é que tal delonga perdura até hoje, e o turbilhão em que lancei nossas vidas pacatas me serve, agora, de incentivo para dar continuidade à empreitada dos tempos de menino, em busca de uma explicação. Portanto, não será uma fuga, um exílio, será uma busca, uma permissão para o coração voltar a conversar com os bichos, uma vez mais.
Não cultivem mágoa, ódio. Deixem-me sozinho nessa dor, por mim provocada, pois sou eu o único merecedor desse fardo. Fiquem com as boas lembranças de todos nós, juntos, feito irmãos, por mais de meio século. Pecado seria não levar conosco ao túmulo tais lembranças. Eis que é chegada a hora de dizer adeus (para sempre?). Levo todos comigo com muito amor, muito carinho. Até mais adiante, se o adiante existir.

hidra

Eu deveria ter ouvido melhor os conselhos da minha irmã, é o que digo de início, talvez não explicite o motivo. Depois de uma queda na escadaria do Morro da Forca, em Ouro Preto, em que bati a cabeça em uma árvore, um zumbido me incomodava diuturnamente, até mesmo nos sonhos, quando me via neles, sei que o ouvia. Não procurei médico porque não gosto de ir ao médico, qualquer que seja, exceto uma vez em São João Del-Rey em que fui obrigado, já que desgraçadamente míope, a ir à oftalmologista, uma loira estonteante, com menos de trinta anos, lábios carnudos, rosto retangular, de maxilar firme, nariz fino e reto, olhos castanhos. Gostei apenas dessa consulta, aliás, não da consulta, da médica, que vestia uma calça branca, levemente transparente, colada ao corpo, cuja calcinha fio-dental era possível de se distinguir. Todas as outras vezes foram torturantes. Onde eu estava? Ah, sim, no zumbido.
Dores às vezes me são agradáveis, não pelo fato de gostar da dor, mas pelo fato delas me fazerem sentir vivo. Não respondo a estímulos externos com facilidade, um “oi, tudo bem?” passa por mim batido, e isso dificulta a minha convivência com os demais da minha espécie. Não respondo e quase nunca falo, apenas observo. Mesmo enquanto observo, o torpor me invade a consciência, então não penso em nada. De fato penso, mas é um pensar estúpido, não-reflexivo. Por isso as dores me são agradáveis. Mais que isso, elas me são úteis. É um incomodo latente na carne que a minha indiferença não consegue afastar.
Estava em uma boate, dessas que as pessoas cool vão para dançar músicas moderninhas, beber, cheirar e tentar ser mais cool que o próprio cu, permita-me ao menos um trocadilho barato. Na fila para pagar a conta e ir embora encontrei uma velha ex-namorada que me aborreceu por cerca de meia hora enquanto também esperava na fila. Apliquei meu golpe estratégico, fingi ter perdido a voz, devido às complicações respiratórias e por toda a gritaria da noite. Ela me conhece e é claro que não acreditou, entretanto uma fisioterapeuta – acreditei em tal diploma – que estava na minha frente na fila se virou para mim, colocou suas mãos aveludadas em meu pescoço, me fez uma massagem, e milagrosamente me fez recuperar a voz. Paguei a conta e a levei para o carro. Acho que os fatos narrados bastam.
Não transamos naquela noite, apenas dormi com a alegria barata de uma punheta mal batida e não finalizada. Telefone anotado no bíceps fraco, a deixei em casa depois de cheirarmos no painel do carro. Esqueci de contar que isso aconteceu antes da queda nas escadarias em Ouro Preto. Enfim.
Não sei quanto tempo depois, um mês talvez, depois da queda, telefonei para ela, sem lembrar de nome, nada, “alô” - “oi, quem tá falando?” – “com quem você quer falar?” – “é o Leo...” – “Leo?” – “é, da Velocet...” – “ah, oi, tudo bem?” – “tudo, é que eu tô com um zumbido no ouvido direito, e como você é médica pensei que poderia me ajudar...” – “sou fisioterapeuta.” – “isso, isso mesmo.”. Marcamos um encontro. Virei o mundo para descobrir o nome dela através da lista telefônica. Não foi tão difícil, procurei nas páginas amarelas.
Ela era bonita mas não chegava a uma deusa como a oftalmologista. Ruiva, sardas no rosto, pintas muito bem distribuídas pelas costas e peito. Magra, parecia uma menina de dezessete anos, não sei. Ana Mia o nome dela. Nome estranho, pensei, quando falado com ênfase soa como MAMA MIA! Coitada. Saímos para jantar e jantamos. Quase não falei, por sorte ela era extrovertida, dessas pessoas que bastam um aceno com a cabeça para continuarem a falar, talvez seja egoísmo, creio que não. Depois de três garrafas de vinho comecei a ficar alegre porque me sentia bem, ela me deixava à vontade, comecei a contar várias mentiras apenas para fazê-la rir, e riu. Riu tanto que me convidou para o seu apartamento, para onde fomos. Sem delongas, transamos, e muito, mas ela por cima, não permitiu que a tocasse, quis saber o motivo, ela respondeu “cala a boca, se não estiver bom assim a gente para”. Tudo bem.
Não, ela não sabia como tratar do zumbido no meu ouvido, recomendou que eu procurasse um médico, descartei o conselho. Com um mês de jantares e sexo ela-por-cima, começamos a namorar. Eu quase nunca falava, e quando falava contava somente mentiras. O zumbido ali. Com dois meses de namoro o zumbido começou a ter picos de intensidade que me descontrolavam, dor insuportável. Decidimos fazer nossa primeira viagem juntos, iríamos passar um fim de semana em Milho Verde, distrito de Serro, vilarejo tranquilo com bonitas cachoeiras. Estávamos ansiosos. Eu, nas minhas loucuras de homem arredio, pensava até em pedi-la em casamento. Estava apaixonado, absurdamente apaixonado.
Às vezes sinto que sou responsável por dez mil vidas. Meço meus movimentos e tenho a sensação de sempre estar sendo observado. Quando vou a um restaurante, se estou sozinho, penso que todos me observam comer, então erro a garfada, dou com o garfo nos dentes, derramo comida, derrubo a bebida, uma vez caí da cadeira de nervosismo. Meus poucos amigos eu não os procuro, é raro. Gostam de mim não sei o porque, e me culpo por isso. Culpo-me intensamente. Além do pessimismo habitual.
Em Milho Verde ficamos acampados. À noite resolvemos ir a uma das cachoeiras para comemorar dois meses e meio de namoro. Estávamos bêbados e cheirados, eu estava louco para pegá-la de quatro, dar-lhe uns tapas, essas coisas, não deixaria para depois. Descemos até a segunda queda da cachoeira do Lajeado, entramos na água e começamos a nos beijar. Ela propôs que tirássemos a roupa. Eu propus que transássemos em uma rocha que se parecia a uma cama, cerca de dois metros acima do chão. Subimos nus e, enquanto ela esperava que eu me deitasse para que ela se colocasse por cima de mim, a puxei com força e pedi que ficasse de quatro, “não, assim não”, pediu, mas insisti e à força a posicionei de bruços, ela gritou “para, você não sabe...” e se esquivou de mim, escorregando da pedra e caindo no chão, feito um pacote de cimento. Ou melhor, feito um balão de água. Ela se estourou, como se por dentro fosse apenas um gel ralo de cor azul-marinho. Eu não sabia se era efeito do pó, mas não, dizia a mim mesmo, “isso não é alucinógeno, porra!”, ela havia se estourado, e somente sobrara o couro, feito um boneco João-Bobo vazio. Peguei-a com asco e tristeza, meu amor, minha adorada... Tentei enchê-la com água do rio, em vão. Deitei-me no chão, a estendi ao meu lado, acendi um cigarro, enquanto pensava no que fazer. Fumei um maço sem encontrar solução. Pensei em jogá-la no rio, mas o corpo-pele não afundaria, além da dor que sentiria no coração em vê-la partir com as águas. Pensei em vestir sua pele, plano estúpido. Cheirei tudo que trazia comigo. Caminhei por horas na mata seca, o sol nasceria em pouco tempo.
Encontrei uma árvore no meio do nada. Uma árvore enorme, de galhos retorcidos. Repouso eterno ideal para a minha amada ruiva. Subi o máximo que pude, estiquei o corpo de Ana e a preguei nos galhos, braços e pernas estendidos, cabeça virada para o céu, ela estava entregue. Tentei descer mas não consegui, as minhas pernas fraquejaram. Enquanto tentava descer utilizando apenas a força dos braços o zumbido se intensificou, não suportei a dor, minhas mãos soltaram os apoios, caí da altura de quatro metros, batendo a cabeça no chão. Não sentia meus membros. Consegui abrir o olho direito, o sol começava a surgir e a visão que eu tinha era de um formigueiro a poucos centímetros de mim. O zumbido havia parado.

não confie em mim

Não posso esperar
porque você, mamãe,
é quem deveria
esperar por mim.
A coca me invade
ao som de
Crystal
Castles
eu não acredito neles,
posso esperar
mais um dia
acordada, ver o sol
raiar
Três noites, três manhãs,
as coisas tendem
a perder
o sentido,
o substantivo
Eu não tenho
o que fazer a não ser
dançar,
mas eu não sei dançar,
mamãe – e danço
danço mesmo assim.

PILOTO

Minha foto
Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.

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