Em um banco na Plaza de Mayo, no inverno de Buenos Aires, recostei-me, deixei que a cabeça caísse para trás, fechei os olhos, senti as pálpebras geladas, o tempo desacelerou. Naqueles minutos, enquanto o casal de namorados que me acompanhava tiravam fotos em frente à Casa Rosada, despertei-me dos meus medos, de forma tal que parecia ser necessária aquela viagem para o que senti ali naquele banco vir à tona. Vi, então, em minha mente, as imagens dos amores imperfeitos desmancharem-se aos poucos, como poeira. Vi Marcelle, com todo o seu fogo, derreter, como se fosse gelo, vítima de si mesma. Sophia, tão doce e amável, como era seu rosto? Antes de sumir já não me lembrava mais. Inês, pobre Inês, por quem mais sofri, desapareceu com desgosto, não merecia tanto, sei dos meus erros, o fato é que se desfez em poeira. O frio me acalmava, não sabia do tempo, não ouvia nada, as pálpebras estavam pesadas, apenas sentia um cheiro doce, cheiro de vida, cheiro colorido. Acordei assustado, a praça estava repleta de turistas, moradores, pássaros. O que sentia era alegria, as três não passavam de lembranças remotas, sequer me lembrava de seus rostos. Buenos Aires estava linda, a Plaza de Mayo era a minha casa, e aqueles velhos amores haviam ficado no banco, entre o milho que deixei para os pássaros.
QUASIMODOS
Passo por eles no mínimo quatro vezes por dia, cinco dias por semana, estão sempre com as mesmas expressões, sub-humanos. Conheço-os assim como eles me conhecem, somos semelhantes dentre os carros, na cidade suja e quente. Há o hippie por quem tenho simpatia, sei que todos os dias gasta o dinheiro com marmita, pinga e cigarros em um bar próximo à minha casa, um dia bebeu da minha cerveja, ele pediu, claro. Raramente lhe dou alguma esmola, quando o faço é irrisório o valor, dez centavos no máximo. Nunca ouvi sua voz, ele vem como um zumbi, a expressão estúpida, os braços fracos, não vejo suas pernas se moverem, é como se flutuasse. Às vezes põe um pote na janela, às vezes um boné, nunca diz palavra, todos o entendem. É o único a quem dou esmola porque é descarado, não engana ninguém, todos sabem o que faz com o que ganha, de manhã até tarde da noite permanece no mesmo sinal. Há a defunta do próximo sinal, nunca lhe dei esmola, enquanto arde ao sol, seu marido (?) descansa à sombra das árvores do canteiro central, faz das pedras travesseiro, sente-se um rei, apenas recebe os tributos dos súditos, a arrecadadora permanece no sinal. Nos fins de semana carrega uma criança consigo no colo (será sua filha?), ambas ao sol, poucos resistem, ignoram a absurda vossa majestade à sombra. Como o hippie, jamais ouvi sua voz, sua aparência me dá raiva, sua expressão tão estúpida, máscula, é malandra, ou melhor, sustenta um malandro, não suporto vê-la. No mesmo sinal, como que alternando, há o aleijado, ser grotesco, Quasimodo por fora e por dentro. Sustenta-se em um par de muletas, tem os pés torcidos, paralisia infantil, suponho. Mudo para mim, nas poucas vezes que se dirigiu ao meu carro suava e tremia, parecia prestes a desmaiar, tive-lhe asco, ser tão ridículo, ao mesmo tempo tão semelhante a mim. A escória da sociedade, apenas sombras, enquanto passo no meu carro, semblante de uma vida sem restrições graves. Apesar de tudo me calo, estúpido, no fundo entendo-os, como quem entende um amigo.
CARTA A EDGAR
Como vai, Capitão? Dias atrás estava revendo fotos antigas de quando nos encontrávamos todas as noites na casa de Inês para degustar um bom cabernet sauvignon e assistir os clássicos da nossa lista dos cem melhores filmes de todos os tempos (se lembra?), então tive vontade de lhe escrever. Não pretendo ser longo, que qualquer assunto que criarmos entre nós morre logo, gostamos que os assuntos surjam, possibilitando o precioso silêncio que só se consegue com poucos, silêncio de aproximação.
Gostaria de perguntar como você está, se seus planos se concretizaram ou estão caminhando para isso, se tem visto a Inês de vez em quando aí na capital, se ela ainda pergunta por mim, mas acontece que o que cá me aflige necessita ser compartilhado com você com maior urgência. “Como um barco bom, eu vou, eu vou”, se lembra? Pois não sou mais que uma canoa furada. Em tudo o que vivemos, esteve todo o tempo lúcido, sabia que eu iria me perder, levar daquele jeito as coisas foi loucura. A minha vida desregrada nunca se revelou a Inês, até hoje creio que ela apenas desconfie, sinto que sequer pensa nisso. Na velocidade em que íamos, eu achava que podia fazer o que quisesse, ter quem quisesse, tudo era muito fácil. Com o tempo e com a perda das ideologias em decorrência dessa vida ordinária que bem sabe, tornei-me estranho a mim mesmo, esforço-me em tornar ao que era, não tenho forças. Da obstinação que tive ao terminar com Inês pouco sobrou, menos por amor me arrependo, mais por desespero, ela era uma ponte que me ligava a mim mesmo, através dela eu me encontrava. O amor louco que por mim sentia, hoje não restou um telefonema, e o tempo passa.
Queríamos ser literatos, boêmios, felizes cantar nossos sambas, mas nos fechamos em um mundo só nosso, tudo ruiu. Pouco creio no meu futuro, emprego, filhos, essas coisas. Desconfio de que seja estéril, preciso ir ao médico o quanto antes. O trabalho me mata aos poucos, diariamente, vejo-me uma máquina apenas. A solidão me assola, Capitão. Preciso visitá-lo, mas não tenho dinheiro, talvez no próximo mês eu vá, é preciso extrapolar os limites deste cubículo em que vivo. Levarei as fotos, sei que também sente saudade. Barco nenhum navega só, se o faz, se perde.
SONHO INTRANQUILO
-“Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, já ouviu?
- Não. De quem é?
- Otto. Vou comprar.
- Hm.
Gregor um dia acorda transformado em um inseto, não transcrevo a cena porque das duas vezes que li, li de diferentes traduções. Gregor era um vizinho meu que não tinha televisão e escrevia duas vezes ao dia frases desconexas na parede do seu quarto – composto de cama e criado-mudo, só. Eu queria ler A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, mas o livro era uma chapa única de papel, de espessura significativa, sem páginas ou explicações. Joguei o livro contra a janela que se partiu e por ela entrou a mesma pessoa que não quero, mas quero, e que me persegue todas as noites. Procurou por seus discos da Edith Piaf e da Janis Joplin que ficaram comigo, sem pedir licença. Não há distância significativa entre os sonhos e a realidade, se desconsiderarmos a comunhão de lembranças permitida pela realidade. São planos distintos que coexistem, portanto a transa daquela noite foi computada entre as várias ocorridas no plano da realidade. Achou os discos e foi embora, por uma janela jamais quebrada por um livro chapa única de papel.
- O Otto e a Alessandra Negrini se separaram, ficou sabendo?
- Ah, é? Fiquei não.
- O disco foi inspirado na obra do Kafka.
- Hm.
MEMÓRIA
Hoje, 23 de fevereiro, é aniversário do meu pai, 41 anos. Não me lembrava. Às 17h minha mãe me liga, lembrete infalível é Irene. Relembrado, ligo para o xará, dou os parabéns. Até aí, tudo normal. Às 23h meu pai liga para a minha avó, lembra a ela do aniversário dele. Depois do telefonema ela me chama, reclama que eu não a avisei. “Ah, vó, você o pare e eu é que tenho que te lembrar?”
CARTA A CAROLINA
Quando eu terminar de ler Navegação de Cabotagem eu vou emprestá-lo a você por um ano para que possa ler também, é muito bom, uma viagem histórica e cultural, vai adorar. O Jorge Amado se mostra muito humano nele, engraçado é que eu me identifico muito com o Jorge, não na inteligência, claro, mas na pessoa que ele foi... Sei lá, tá, não tenho muita coisa dele, ele é todo bonachão, e eu não, não sei, há algo nele em que me identifico, acho que é a herança nordestina que trago no sangue. Ele não foi um gênio da literatura, não revolucionou nem nada, porém vendeu pra caramba - na literatura brasileira só perde para Paulo Coelho, que nem conta -, foi um magnífico contador de histórias, histórias para todos, além de ter sido um dos principais difundidores da cultura baiana, da nação da Bahia, ele era o tal. Deu vontade de conversar isso com você porque lendo o Navegação de Cabotagem achei a Zélia Gattai, mulher do Jorge, parecida com você em gênio, mulher decidida, que sabe o que quer, que domina, porém que não perde a feminilidade, a doçura. E o jeito com que eles se tratam, meio 'moleque', lembrou-me nossos melhores tempos.
P.S.: ainda espero, sem pressa, a devolução do meu Gabriela Cravo e Canela.
BILHETE PARA ESPERANÇAR SOPHIA
Sophia, era exatamente isso o que temíamos, e veja só o que nos tornamos, vazios e desnudos, bolhas em aparência e existência, cópias baratas de nossas repulsas. Buscamos tanto, embora tímidos, tomar as rédeas de nossa vida, domar nosso destino, como poderíamos prever o que nos aconteceria? Todo o fervor ao descobrir o existencialismo de Sartre, quando pudemos crer que, sim, somos resultado das nossas escolhas, sumiu depressa, não nos reconhecemos mais. Ainda temos a nossa juventude e a acolhemos no colo como a um filho doente, deixemo-na aquecida enquanto esperamos nosso tempo, que no mais tardar será amanhã.
CITAÇÃO
"Amo e padeço como qualquer um, odeio, divirto-me, e, boa ou má, sou uma verdade estabelecida entre os outros, e não uma fantasia."
Cardoso, Lúcio, 1912-1968
Crônica da casa assassinada / Lúcio Cardoso. - 12ª edição - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. Pg. 61.
BREVE DESPERTAR
Daqui a pouco vou para o condomínio de uma amiga com outra amiga que conheço a pouco tempo. Curtir a piscina, tomar cerveja, o domingo está quente. Estranho toda essa coisa das relações entre as pessoas, algumas parecem tão intransponíveis, inatingíveis, duras, ao passo que outras se abrem com uma facilidade surpreendente. Acordei nostálgico, vinha de sonhos bons, mas distantes da realidade. Talvez nos sonhos conseguimos ser tudo o que não somos e que queríamos ser na realidade. Em um dos sonhos eu era piloto de bobsled, em outro não havia magoado uma pessoa que magoei e afastei de mim. O calor, o fim do horário de verão, o início das aulas, essas coisas me deixam comovido como o diabo. Não é para tanto. “As agruras da vida, ai!”
SILÊNCIO
Nada vem à cabeça, um silêncio repousa violento sobre os ombros, comprime-os para baixo, faz com que todo um universo insignificante resuma-se apenas a uma sala com um corpo cansado sentado frente a uma máquina de escrever Olivetti Lettera. Como o tempo muda os hábitos e a forma de pensar não se sabe, ou se sabe, mas não tem conhecimento de tal pesquisa científica feita com diferentes espécimes do homo sapiens em diversas regiões do mundo, incluindo os aborígines australianos, as tribos peladas Kualulu e Kanun ao norte de algum país africano e os bons homens da Baviera. Fato é que não pensa como costumava pensar, não tem os mesmo hábitos ditos intelectuais, tampouco mantém o mínimo de organização socialmente exigido. Força relações infrutíferas, casos de amor frios e superficiais, amizades pífias. Há todo um universo na sala com o corpo e a máquina de escrever, que ganha forma nos pequenos objetos que o tomam sorrateiramente. Um boné velho ao lado esquerdo da máquina de escrever, em cujo lado também se encontra um frasco de perfume vencido, uma câmera fotográfica, um relógio de pulso que marca horas minutos segundos, um creme dental, cinco discos - dois de grupos desconhecidos -, remédio antialérgico, uma lanterna, a carteira, uma pilha de livros intocados por meses. Ao lado direito da máquina se encontra um óculos corretivo, um livro sobre jovens suicidas, uma caneta, um telefone, outros dois livros, uma luminária, algumas contas atrasadas. É um universo insignificante e silencioso, que primeiro existe por conta de um corpo e uma máquina datilográfica e que depois se expande em objetos perdidos, dispostos aleatoriamente com o passar do tempo, com o repouso do espírito inquieto, conformado a força. O corpo joga a cabeça para trás, frente aos olhos erguem-se prateleiras cheias de livros, milhares de páginas pensadas, escritas, inspiração. Olha para a máquina, a página em branco, o pensamento em branco, conclui que chegara ao fim daquela história, digita o ponto final.
PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO CARNAVAL
Antes que eu vá tomar cerveja, um voo curto me veio à cabeça, havia me esquecido de falar sobre o carnaval. Bem, como no carnaval tudo acontece e ninguém fica sabendo, uma vez que os foliões estão na rua se embriagando como se fosse o dia do juízo final, muitas histórias surgem, muitos mitos, direi alguns que tomei conhecimento enquanto bebia todas em Diamantina: “a Hebe Camargo morreu, metástase, é muito comum isso acontecer”; “a Beyoncé foi atingida por uma bala perdida no Rio de Janeiro”; “o Tomate, cantor de axé, sofreu uma overdose em cima do trio em Salvador”; “o Dourado do BBB foi expulso do programa após bater em Dicésar, o travesti” etc. Bem, em relação à mentirada, é coisa de carnaval, não me assusta. O que me põe medo é o que nenhum de nós ouviu, é o aconteceu nos corredores da política, falcatruas disfarçadas com espuma, confetes e purpurina, enquanto toda uma nação se embriagava feliz da vida.
JOGOS OLÍMPICOS DE INVERNO DE VANCOUVER
Os jogos olímpicos de inverno atraem-me talvez até mais que os jogos olímpicos de verão, as únicas olimpíadas de verdade para nós, filhos de um país tropical sem tradição nos esportes de inverno. É a curiosidade por aquilo que não se tem o que me toma, passo madrugadas assistindo competições de bobsled, patins artísticos, hockey no gelo etc. Não entendo patavina, mas gosto de olhar. Enfim, vou sair para tomar uma cerveja daqui a pouco, é verão, estou suando horrores neste momento, não tenho paciência para falar sobre jogos de inverno, esportes que não entendo, tenho apenas paciência para assisti-los.
BREVE MANHÃ
O rio que por um tempo correu pela minha vida desaguava em mar distante, por trás daqueles montes que ainda me cegam as vistas. Corria, enquanto eu menino brincava coisas de adultos, a querência que não pode ao menos ser sentida, talvez nem tenha existido. As mãos hoje calejadas buscam molhar-se no rio, aquele que por um tempo correu pela minha vida, mas as águas já são outras, as que procuram correm mares distantes, vidas estranhas.
PETIÇÕES E PORTUGUÊS
Roda morena que eu quero me reconhecer em sua dança, canta que eu quero ouvir os seus cantos de amor e de tempos de paz. Tinha a melodia da música e fragmentos da letra me atormentando, pedindo que eu a cantasse, emendei o trecho da letra, deu-me vontade de escrever uma poesia dali, mas cada vez mais me sinto menos disposto a escrever poesia, sinto repúdio até.
Vinte horas por semana, quatro horas por dia, leio petições, enxergo seus defeitos, às vezes dá graça, às vezes tristeza, desdenham tanto da nossa língua, fazem-na mero instrumento do documento, como se, além da razão, da matéria intelectual, do direito do autor, do pensamento jurídico, houvesse apenas um mundo menor no qual se encontra o português escrito, que é, devido à sua inferioridade, desprezado. Não sou mestre, não domino todas as regras, porém prezo pela boa escrita, dou a ela valor, não de forma inversa à das petições, mas sim de forma a igualar os valores entre o pensamento intelectual jurídico e o português escrito, que, utilizados equitativamente, expandem o entendimento e convencem, até mesmo quando não caiba convencimento algum.
Eram aproximadamente três horas e meia da tarde – horário em que suspendo o trabalho por dez minutos, tempo suficiente para tomar o café “além do amargo ideal” ou “doce demais” da Dona Selma, Selminha por respeito ao seu rosto jovem – quando cantarolei a melodia, emendei a letra. Estava cansado, não tanto pelo encargo, o que me cansou foram as petições mal escritas, broxantes. Entrei no curso de direito pelo simples fato de gostar de ler – além do dinheiro prometido, a frustração das ideologias. Se soubesse que iria ler tanta porcaria...
INTERREGNO
Lanço-me ao acaso como forma de evitar que eu me perca, sempre. Cada nova investida é um mergulho de ponta em piscina rasa, não demoro a quebrar cara. Indeciso, instável, flexível, fraco, transigível, dentre outros adjetivos – comuns aos meus ouvidos. Lanço-me e ainda assim me perco, fazendo-se quase palpável o círculo em que permaneço: lançar perder lançar perder lançar perder lançar, apesar disso consigo me divertir. Entretanto não suporto os adjetivos, a psicologia barata para me entender. Hoje, quinze minutos atrás, decidi não mais escrever poesia. Poesia é tudo o que não sou, ausente de lirismo e da certeza que a poesia necessita. Faço-me mais entendido assim, em prosa, até porque tenho em mim que os poetas são áureos, como divindades, um passo a frente da razão, e diariamente me olho no espelho e não vejo nada. Porém não ponho fim ao que porventura possa surgir em um sonho, um devaneio diurno, pois, como sabiamente disse Jorge Amado sobre outro assunto, “meu materialismo não me limita”. Também tem aquela outra hipótese, “comecei a escrever poesia para conquistar namoradinhas”, citando um poeta cujo nome não me lembro. Namoradinhas podem surgir por aí.
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- Eduardo Martins
- Bacharel em direito pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) - MG. "Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, ravoável no fundo, que malandramente construiu para si próprio uma felicidade medíocre e sólida feita de inércia e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que sou?" A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre.
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